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Viver entre duas Europas

A União Europeia veio reduzir a distância entre os vários países do velho continente. Mas será que estamos cada vez mais iguais? A opinião de quem saiu de Portugal.

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Há cerca de seis meses mudei-me de Portugal para Roterdão, a segunda maior cidade da Holanda. A industrial Roterdão é conhecida por acolher o maior porto marítimo da Europa e um dos mais ativos do mundo. A emigração tem tantas ‘nuances’ a considerar que dificilmente duas pessoas descreverão a mesma experiência.

Vim para a Holanda para estar com o meu namorado holandês, o que me garantiu um suporte emocional e uma rede de apoio à chegada. O processo de integração e aculturação tem sido feito através de um grupo de pessoas próximas. Gradualmente, e sem a pressão da solidão, tenho encontrado o meu espaço e conquistado amigos novos.

Também a procura de emprego não foi um desafio para mim, uma vez que continuo a colaborar como jornalista com a revista online portuguesa Mood e, em conjunto com o meu namorado, abri uma loja de produtos portugueses em Blijdorp, um bairro residencial de Roterdão.

Por tudo isto, sinto que a minha experiência está longe do desafio sentido por aqueles que fazem as malas e rumam a uma cidade desconhecida, onde começam a construir uma vida nova a partir do zero.

Ainda que os emigrantes de hoje não sejam os mesmos que, nos anos 70, viviam à margem dos países que os acolhiam, sem ligação cultural com a sociedade onde se movimentavam e apenas com o objetivo claro de amealhar dinheiro suficiente que lhes permitisse regressar a Portugal e comprar uma casa, tenho-me deparado com histórias onde o desafio maior consiste na integração.

O aumento da mobilidade de europeus na última década, tendencialmente de países com problemas económicos ou sociais para países com uma economia estável, assim como a crise da economia mundial, têm aumentado as discussões acerca do controlo das fronteiras. Em muitos países europeus os emigrantes têm sido marginalizados e enfrentado problemas de adaptação.

Há cerca de um ano visitei Londres, aquela que é uma das cidades europeias com maior fluxo de emigrantes e, para minha surpresa, percebi que vários jovens hospedados no mesmo hostel onde eu fiquei não estavam na cidade para fins turísticos. Centenas de jovens desempregados (nomeadamente italianos e espanhóis) procuram um alojamento barato assim que chegam à capital inglesa, compram um cartão de telemóvel local e passam os dias a entregar currículos e a aguardar que o telefone toque para a marcação de uma entrevista.

Mas voltemos à minha chegada ao país das tulipas e dos moinhos de vento. A Holanda tem um passado de descobertas marítimas, em muito parecido com o português. Como tal, o país é resultado de uma mistura de influências, nomeadamente pela chegada de ex-colonos do Suriname e Indonésia, por exemplo. Roterdão tem ainda uma forte presença de árabes, turcos, marroquinos e cabo-verdianos, sendo a cidade mais islâmica de toda a Europa, o que resulta numa diversidade gastronómica, cultural e religiosa. Certos bairros são pequenas amostras de países diferentes e podemos perder-nos por supermercados turcos ou restaurantes asiáticos. Também por ser uma cidade portuária, durante séculos os marinheiros holandeses foram trazendo mulheres de todo o mundo para a cidade, com quem constituíram família.

Esta multiculturalidade resulta em certos padrões sociais. Por um lado, há muita tolerância em relação a estrangeiros mas, do outro lado da balança, estão os preconceitos que ao longo de gerações se construíram sobre determinadas nacionalidades ou etnias e a preocupação com a perda da identidade cultural da Holanda. Em Roterdão são conhecidos os problemas com algumas comunidades islâmicas, o que tem levado ao crescimento do apoio ao partido da extrema direita PVV (Partido da Liberdade) de Geert Wilders.

O liberalismo holandês

O liberalismo holandês em diversas matérias é sobejamente conhecido: a posse e venda de marijuana é tolerada em pequenas quantidades; a eutanásia é legal e, em 1 de abril de 2001 a Holanda tornou-se o primeiro país do mundo a reconhecer o casamento homossexual.

E, claro, o famoso “Red Light District” de Amesterdão, onde prostitutas oferecem os seus serviços em mais de 300 cabines iluminadas com luzes vermelhas, em ruas cheias de sex shops, peep shows e coffee shops que vendem marijuana, tornou-se uma das maiores atrações para turistas.

Mas tal como as tulipas, as socas de madeira e os moinhos de vento, a marijuana e as prostitutas do distrito vermelho alimentam as expectativas dos turistas e não fazem parte da vida diária dos holandeses, da mesma forma que em Portugal ninguém come pastéis de Belém todos os dias ao pequeno-almoço ou veste o traje de Viana para ir ao supermercado.

Mas hábitos menos conhecidos surpreenderam-me. À semelhança de alguns países nórdicos como a Finlândia e Noruega e mesmo a Alemanha, também na Holanda existe o hábito de ir à sauna. Em família, com amigos ou em casal, os holandeses frequentam estes espaços recreativos com piscinas interiores e exteriores, saunas e jacuzzis sem roupa.

Curiosamente, os holandeses pensam nos povos do sul como “calientes” e sensuais mas admitamos que, no que diz respeito a nudez, os holandeses são mais despudorados. A mentalidade conservadora cristã e os valores tradicionais ainda nos impedem de olhar o corpo com a mesma naturalidade. No que me diz respeito, experimentei ir a uma sauna no que eles chamam de “dia do biquini” e não foi por coincidência que a maior parte dos utilizadores eram estrangeiros.

Diferentes mas iguais

Uma das questões mais frequentes que me colocam é se acho os holandeses simpáticos, abertos e calorosos. Na minha opinião há uma “simpatia mais distante” prevalecente. Os portugueses são, por instinto, acolhedores. Abrimos a porta de casa a todos e quase convidamos um estranho a sentar-se à nossa mesa. Na Holanda o “namoro” é mais difícil, tem de se ganhar o direito a ter um lugar na mesa. Mas, no final, todos saboreamos a comida com o mesmo prazer.

Por Joana de Sousa Costa

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