Home»FOTOS»Venda ambulante: uma viagem ao passado no Alentejo profundo

Venda ambulante: uma viagem ao passado no Alentejo profundo

Nas povoações do Portugal interior, não há centros comerciais cintilantes, hipermercados recheados ou grandes avenidas cheias de lojas. Tudo isso fica a dezenas ou centenas de quilómetros de distância. É uma realidade desconhecida para a maioria dos habitantes das aldeias, sobretudo idosos sem forma de se deslocarem. Aqui, experiencia-se um regresso ao passado, porque a maioria das compras faz-se como há 50, 100 ou 150 anos: vêm ter à porta.

Pinterest Google+

Quarta-feira, 10h00. Ouve-se uma buzina. As vizinhas espreitam à porta: «É o Sr. Cavaco». Minutos depois, vão aparecendo junto da carrinha. É a mercearia. Traz fruta, legumes, enchidos, queijos, leguminosas, azeite, leite, refrigerantes, vinho, detergentes…

 

José Cavaco tem 59 anos, os últimos 23 passados nas estreitas estradas da margem esquerda do rio Guadiana. Faz 100 km por dia. Fomos encontrá-lo no Álamo, uma pequena povoação localizada 7km a sul de Mértola, distrito de Beja. Um dos seus pontos de paragem às quartas-feiras.

 

E como é a vida de vendedor ambulante? «Começo por volta das 7h30, 8h00 e faço cinco ou seis localidades por dia até às 16h ou 17h. Tenho uma volta certa», começa por contar, enquanto parte um queijo ao meio. A freguesia vai aparecendo. «A vida não é fácil, mas agora também já não vou mudar», comenta o vendedor, que considera que presta um serviço a estas populações. A maioria não tem transporte e muitas pessoas não se podem deslocar. São sobretudo idosos.

 

VEJA TAMBÉM: MÉRTOLA: PELOS CAMINHOS PERDIDOS DO CONTRABANDO

 

Por aqui passa às quartas-feiras de manhã e todo os habitantes sabem disso. Há dias certos para a mercearia, talho, peixaria, padaria, queijaria, carrinha de produtos regionais e até por lá passa uma do tipo ‘loja dos 300’. «Aqui não nos falta nada. Vem tudo ter à nossa porta», comenta Maria Isabel Brito, 66 anos.

 

Nesta localidade à beira da Nacional 122, a venda ambulante é uma constante. Por estar à beira da estrada que liga Mértola a Vila Real de Santo António tem esse privilégio alheio à maioria das povoações que ficam a quilómetros das principais estradas. Por isso, não é de espantar que, meia hora depois, se oiça mais uma buzina.

 

É Jorge Páscoa, 52 anos, novo nestas andanças. Traz queijos, enchidos, torresmos e bolos regionais fabricados no Baixo Alentejo. Quis começar a trabalhar por conta própria e montou este negócio no início de 2017. Faz 150 a 200 km por dia e visita 8 a 10 localidades dos concelhos de Mértola, Almodôvar, Castro Verde e ainda no Litoral Alentejano. Também com dias específicos para cada localidade, para a população saber com o que contar. «As pessoas provam uma vez, gostam e depois esperam por nós», comenta.

 

VEJA TAMBÉM: TAPADA GRANDE, UMA PRAIA FLUVIAL MULTIFACETADA

 

Também Jorge Páscoa tem noção da importância do seu trabalho: «Este trabalho é muito importante para estas pessoas, porque a maior parte delas já tem uma determinada idade, os filhos estão fora, elas estão sozinhas, e se não formos nós, os vendedores ambulantes, a vir trazer alguma coisa, para elas a coisa é complicada».

 

E para si, como é, está satisfeito? Perguntámos. «Muito, dá-me vida», finalizou numa perspetiva otimista do trabalho ambulante e de quem vive o entusiasmo inicial dos projetos. Uns saem e outros entram no negócio, como vimos nesta pequena amostra. Sempre foi assim e assim parece continuar, década após década.

 

Ponto de encontro de vizinhos, enquanto se espera para se ser atendido numa ou noutra venda ambulante, por estas terras aproveita-se também para contar as novidades e  por a conversa em dia. Um pouco à semelhança do que se fazia há 50, 100 ou 150 anos, dizem…

 

Veja na galeria acima algumas imagens da venda ambulante.

Artigo anterior

Gosta de viagens gastronómicas? Seis destinos deliciosos a não perder

Próximo artigo

Jantar de luxo dá oportunidade única de provar 14 vinhos do século XIX