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Tsering Paldron: «O facto de ignorarmos algo não nos dá paz de espírito»

'O Hábito da Felicidade' é o terceiro livro da conhecida monja budista, que apresenta com esta obra uma nova abordagem dos ensinamentos tradicionais budistas no caminho da felicidade. Neste novo livro, Tsering Paldon inclui métodos para lidar com o mal-estar e a ansiedade quotidianos, problemas prementes da sociedade atual.

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Um ano antes da Revolução dos Cravos Tsering Paldron saiu de Portugal rumo a Bruxelas, onde no ano seguinte se tornou budista. Uma década depois experiencia um dos grandes marcos da sua vida num retiro de três anos em Dordogne, França, sob a direção espiritual de Dudjom Rinpotché e Dilgo Khyentsé Rinpotché, dois dos maiores Lamas contemporâneos (entretanto já falecidos), e Tsetrul Pema Wangyal Rinpotché.

 

Em 1992 começa a ensinar o budismo e essa tem sido a sua principal atividade desde então. Atualmente vive em Portugal.

 

‘Fugir’ para a Bélgica em 1973 foi a cura para a sua crise existencial ou o mundo do budismo ainda lhe trouxe mais dúvidas?

Aquilo a que eu chamo a minha ‘crise existencial’ aconteceu muito cedo e estava centrada na necessidade de encontrar um sentido para a vida que fosse além da mera sobrevivência. Algo em mim se recusava a aceitar que a vida fosse apenas aquilo que via à minha volta, sem qualquer dimensão que transcendesse a satisfação das necessidades básicas que temos em comum com todas as outras formas de vida.

 

Quando encontrei o Budismo, encontrei o sentido… uma direção, um caminho a percorrer, uma transformação possível. Claro que quando entramos em contacto com algo novo, particularmente quando é tão diferente da nossa cultura habitual, é normal que surjam dúvidas, mas neste caso tive sempre a possibilidade de as esclarecer com os mestres que me ensinaram.

 

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Depois de ‘A Alquimia da Dor’, um excelente manual para quem pretende lidar com a dor, o que pode o leitor encontrar n’O Hábito da Felicidade’?

Neste novo livro foquei-me mais em propor uma mudança de atitude no quotidiano, uma forma mais positiva de reagir como predisposição geral na vida. Esta mudança passa pelo desenvolvimento de uma higiene de vida e de hábitos mentais que produzem um bem-estar duradouro, tanto nas situações banais como em momentos difíceis. O ‘Hábito da Felicidade’, por ser mais abrangente do que ‘A Alquimia da Dor’, poderá ser um bom manual para a vida.

 

De que forma é que as suas crenças budistas se manifestam em si e se refletem no seu dia a dia?

O objetivo do treino budista é que os valores humanos de bondade, empatia e compaixão, bem como a compreensão da lei do Karma, da interdependência e de outros ensinamentos se tornem parte de nós. Uma vez que o mundo que cada um de nós vê e experimenta é o resultado da sua própria interpretação, quando nos transformamos, a nossa perceção do mundo altera-se e, com ela, toda a nossa experiência de bem-estar e de sofrimento.

 

Assim, ao longo dos anos, os ensinamentos budistas tornaram-se parte de mim, daquilo que eu sou e da forma como experimento o mundo. Ou seja, hoje esses valores de bondade e tolerância, a compreensão da minha responsabilidade na criação do meu próprio destino (karma) e a consciência de que tudo o que faço tem consequências para mim e para os outros, são as certezas pelas quais pauto as minhas ações, as minhas palavras e as minhas atitudes.

 

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No livro alega que somos aquilo que pensamos…

Aquilo que pensamos modela a nossa atitude e esta condiciona as nossas reações. Assim, os pensamentos que alimentamos com mais frequência criam uma predisposição geral para sermos felizes, coléricos, vingativos ou bondosos. A boa notícia é que podemos mudar. Se estivermos atentos aos nossos pensamentos e os modificarmos, consciente e deliberadamente, em pensamentos mais positivos e luminosos, aos poucos mudaremos e faremos com que os outros também mudem.

 

Quais são os problemas prementes que considera estarem na ordem da atualidade?

Há muitos problemas de ordem material e ética, ligados com as desigualdades sociais, a violência, o extremismo, a ecologia e tantos outros. Mas, se quisermos encontrar a raiz de todos esses variados problemas, temos de procurar não nos governos ou nas instituições, mas nos seres humanos que as compõem e, ainda mais, nas emoções negativas, egoístas e conflituosas que os animam.

 

Quanto a mim, os verdadeiros problemas vêm de deixarmos que proliferem em nós pensamentos e emoções baseadas na segregação e na separação, que rapidamente conduzem à aversão, à raiva e ao ódio ou ao apego, ao desejo e à frustração. A nossa forma egocêntrica de ver o mundo, aliada ao menosprezo da lei da causalidade das ações, gera a insensibilidade e a desresponsabilização, que são as pragas da nossa sociedade. E a prova disso é que ideologias e sistemas, sejam eles religiosos, políticos, sociais ou económicos têm-se sucedido ao longo das épocas sem que uma verdadeira mudança se vislumbre. Continua a existir injustiça, corrupção, fanatismo, etc. apesar de estarmos no século XXI e termos, enquanto seres humanos, uma longa história para retirarmos lições. É por isso que, para os budistas, a verdadeira e única revolução é interna.

 

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