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Talvez sejas tu…

Acredito que este é um dos grandes mitos de sermos humanos. E do desenvolvimento pessoal, já agora. Sou eu que causo o que outra pessoa pensa e sente? É a outra pessoa que causa o que eu penso e sinto? Será culpa de alguém o que sinto e penso? Como saber e o que fazer?

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Era para escrever sobre Igual Valor (na parentalidade, no trabalho, na comunidade, …) mas, depois de testemunhar uma conversa no café, decidi escrever sobre este mito! Faz o favor, satisfaz a tua curiosidade e lê este texto até ao fim. 😊

 

Duas pessoas desentenderam-se e durante uns minutos a procuraram defender-se e esclarecer-se. Foi num café, mas podia ter sido na família, no trabalho, nos transportes públicos. A pessoa A comentou uma frase da pessoa B associando as palavras desta a outras pessoas de mais idade. Esta reagiu sentindo-se julgada e comparada com as outras.

 

Por agora, deixemos de lado o fator “idade”; que a pessoa B apagou inconscientemente algumas das coisas que a pessoa A disse; e, que a minha mera presença (discreta, sem olhar as pessoas nem me mexer), ou a presença de outra pessoa qualquer, possa ter condicionado o contexto e o que as pessoas A e B pudessem pensar, sentir, dizer e fazer.

 

VEJA TAMBÉM: SERÁ REALMENTE AUTOSSABOTAGEM?

 

Factos sobre a conversa: as duas pessoas disseram “Bom dia”; a pessoa A perguntou “Como está?”; a pessoa B respondeu “Mas eu disse bom dia”; a pessoa A disse algo como “As velhinhas respondem-me sempre assim” ou uma variante como: “As velhinhas é que me respondem assim”. Percebendo que estas duas últimas frases são diferentes, o desentendimento deu-se quando a pessoa B reagiu à última frase da pessoa A!

 

E aqui está uma das chaves deste e de muitos outros desafios de comunicação!

A pessoa B reagiu com “isso é coisa que se diga?”, “O que é que eu tenho a ver com o que elas dizem?”, “desculpa lá, mas foste um bocado rude”, “Eu sei também já sou velha, mas estás a dizer que sou como elas?”. Mostrou o significado que deu, parte do que aconteceu dentro dela e da forma como interpretou.

 

A pessoa A disse que estava a brincar e a pessoa disse que ela não estaria a brincar. (Acredito que pelo tom de voz, expressões faciais e postura, mas adiante que o foco aqui é outro 😉)

 

A pessoa A perguntou-lhe porquê e o que é que tinha ouvido. Esta respondeu e a pessoa A repetiu a sequência de coisas que tinha dito (mais do que a B tinha referido) e que clarificou que quis referir-se a achar engraçado o comentário em si (“Mas eu já disse Bom dia”).

 

Eu sei que algumas pessoas podem já ter desligado deste texto. Outras estão com pipocas imaginárias (ou não! 😀 ) a assistir mentalmente a um episódio de novela que pode acontecer no seu trabalho ou na sua família.

 

Por que é que isto é importante, o que pode aprender daqui e como é que isto lhe pode ser útil?

 

Pelo que tenho lido e observado na prática, os desentendimentos acontecem por diferentes fatores. Na situação do café, a combinação de alguns destes foi:

. as duas pessoas falaram em diferentes níveis lógicos – A pessoa A falava de um comentário e de um sentimento dela (achar graça a receber aquele comentário quando dava os bons dias e perguntava como a pessoa estava). O que entra no nível lógico do Comportamento (a ação de dizer algo) e no nível do Estado Interno (do que sentimos, da dinâmica bioquímica, da neurologia, etc). Por outro lado, a pessoa B falava do significado que deu. O que entraria, parece-me, nos níveis lógicos da Representação Interna/Significado e dos Valores/Princípios.

 

. as duas pessoas não se sentiram vistas e compreendidas – Eu percebo que alguém diga que estou a especular. Até poderei estar. Mas a minha interpretação é fundada no que observei. As duas pessoas não chegaram ao lugar uma da outra, não perceberam de onde a outra vinha, não se compreenderam nem se viram “realmente”.

 

. a pessoa A não assumiu a sua parte no desentendimento – Esta parte liga-se com o final deste texto e também “dá pano para mangas”. Poderei vir a escrever sobre isto noutro momento.

 

. e, a pessoa B atribuiu à outra a causa do que sentiu – Isto é um dos maiores mitos que observo em mim e noutras pessoas: que outra pessoa teria o Poder de me fazer sentir de certa forma. Que seria o outro a causa do que penso, do significado que dou, da forma como me sinto, da forma como reajo.

Cada vez mais o estudo do comportamento humano mostra que o que acontece dentro de mim é causado por mim. Em resposta a estímulos, certo. Que a reação a estes estímulos pode acontecer fora da minha consciência e fora do meu controlo? Sim! Sem a culpa ser minha? Definitivamente sim. Mas a responsabilidade do que fazer em relação a como me sinto e ao que acontece “cá dentro” é minha? Sim. 😊

 

Talvez (explora e descobre se e como te faz sentido) sejas tu a maior causa da tua experiência interna. Talvez seja eu a causa da forma como me sinto, penso, reajo e faço.

Conforme o conjunto de crenças, valores, experiências passadas, etc, que tenho; mais o que estou a sentir e os significados que dou à situação, à palavra, à expressão do outro; e, também, ao que sinto, penso, me pergunto e me respondo (inconscientemente) na sequência do que senti e do significado que dei ao que aconteceu.

 

Lembra-te que nem sempre as coisas são claras para percebermos o que afeta o nosso sentir, a forma como pensamos e como reagimos. Sabendo que muitas das variáveis estão fora do nosso controlo ou, no mínimo, fora da nossa consciência.

 

Se gosto do que sinto e do que sinto em relação ao que sinto, então “tudo bem”. Se não… o outro tem menos contributo nisso do que eu próprio. E nem sempre isto é fácil e direto de ver e perceber em mim. Também porque o sistema nervoso autónomo “interpreta” e reage fora da nossa consciência em resposta aos estímulos que recebe (exteriores e interiores).

 

Parafraseando Margot Cardoso, que li hoje numa partilha do meu colega terapeuta e amigo João Delicado: “Em vez de dizermos ‘Eu não gosto daquela pessoa’, deveríamos dizer ‘Eu não gosto do que sou quando estou [ou falo] com aquela pessoa’”.

 

Acredito que ganho, e ganhas mais tu, em observar-te, compreender-te e assumires a tua responsabilidade pessoal. Pelo teu sentir, pela tua experiência, pela tua felicidade. Sem que permitas que diminuam, desvalorizem ou coloquem só aos teus ombros o peso, muito menos a culpa, de seres @ únic@ responsável pela forma como te sentes e como a vida te corre. (E isto será tema para outra reflexão noutra altura 😉 )

 

O que podes fazer?

Identifica como reages, pensas, sentes e como te sentes em relação a como te sentes.

Percebe se e quando existem padrões (repetições de reações) e como estes acontecem. (Não o porquê, mas a forma como a reação-padrão acontece) Informa-te mais sobre isso.

Pergunta a alguém que te conhece muito se também vê em ti a reação-padrão e descreve o passo a passo desta para ajudar a pessoa a perceber e identificar se a vê em ti.

Faz formação de qualidade pelo teu desenvolvimento pessoal. Procura ajuda de profissionais.

 

Este texto foi interessante, desafiador, útil de alguma forma? Comenta o que te fizer sentido. Conheces quem possa gostar ou precisar de o ler? Partilha com essa pessoa. 😊

 

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