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«Sou uma mãe-executiva e não uma executiva-mãe»

Reconhece que tem um emprego de sonho, que lhe permite trabalhar em vários pontos do globo numa área cativante. Com 35 anos, casada e com uma filha de um ano, Roberta Medina é uma mulher realizada como vice-presidente do Rock in Rio, mas tem planos para lançar um projeto em seu nome. Conheça melhor a mulher, a mãe e a empresária.

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Em 2014, o Rock in Rio celebra 10 anos em Portugal, mas a primeira edição, no Rio de Janeiro, aconteceu em 1985. Como foi crescer no meio deste fenómeno e de artistas?

Eu ia fazer sete anos quando o Rock in Rio (RIR) aconteceu pela primeira vez. Mas o foco da minha família nunca foi os artistas. O meu pai acabava por ir lá cumprimentá-los, mas quando chega o evento o nosso foco é o todo, o que não dá tempo para ter muitas relações de camarim. Você vai cumprimentar um artista com quem tem alguma relação ou por um motivo que tem de falar. Mas, no geral, o artista também está concentrado, está a celebrar com os amigos e com a família. É óbvio que eu tive muitos momentos com artistas por perto, mas o que esta experiência me deu é a de ver que eles são pessoas normais. E isso dá uma tranquilidade e uma serenidade muito grande nos relacionamentos. A maior influência que isso teve em mim é que estou muito à vontade para falar com qualquer pessoa. O meu exercício é sempre ver a pessoa, mais do que o artista.

E como começou o seu percurso profissional no Rock in Rio?

O meu percurso profissional começou quando eu tinha 17 anos, antes de integrar o Rock in Rio. Na realidade, o Rock in Rio nasce dentro da agência de publicidade do meu pai [Roberto Medina]. Foi a realização do sonho de promover o Rio de Janeiro internacionalmente como destino turístico usando as estrelas da música da época. E fê-lo com olhar de publicitário, que foi transformar aquilo num veículo de comunicação para as marcas. E eu cresci ouvindo-o falar muito mais na perspetiva de comunicação do que na de produção. Ele gosta mais das ideias do que propriamente de ver como se constrói o palco, etc..

Então, um dos projetos que o meu pai desenvolveu foi para o Barra Shopping, no Rio de Janeiro, em que se criaram espetáculos da Disney para uma promoção de Natal. O gerente de Marketing do shopping perguntou-me se queria trabalhar com eles. Eu estava a estudar e fui trabalhar quatro meses com eles. E colocaram-me a fazer mais ou menos o que faço até hoje, ou seja, a fazer a ligação entre as equipas de marketing e de produção. Ali é que eu entendi que as coisas se produziam. É preciso pensar em tudo antes. E apaixonei-me pela produção de eventos, percebi o que queria fazer. A partir daí, ainda trabalhei noutro projeto nessa agência de produção, onde eu também fazia a ligação entre equipas.

Mas continuava a estudar?

Sim. Pensei em fazer Comunicação Visual, para seguir a área de arquitetura, desenho industrial, etc., porque não havia faculdades com Produção Cultural, mas acabei formando-me em Comunicação Social. Mas, no decorrer da faculdade, também morei nos Estados Unidos durante cinco meses, onde fiz uns cursos e, quando voltei, a agência [a Artplan, de Roberto Medina] chamou-me para trabalhar diretamente com eles, onde comecei no Atendimento. Estava a fazer o terceiro período da faculdade. Mas achei o Atendimento uma chatice. Estive também na área de Operações. Então, naturalmente, fui criando um departamento de Eventos, onde fazia os projetos diferentes que chegavam à agência e que não eram de publicidade. Mas, depois, ele conseguiu vender a terceira edição do Rock in Rio (2001), e aí mudou o foco: Rock in Rio. Foi assim que eu comecei a trabalhar no Rock in Rio, como coordenadora de produção. Eu tinha 21 anos e não fazia a mínima ideia do que era produzir algo. Porque eu antes coordenava o conceito das coisas, mas outra coisa é fazer. E com uma dimensão brutal. Isto foi um mestrado, um doutoramento, tudo ao mesmo tempo. Mas eu rapidamente percebi que tinha a melhor equipa de produção do Brasil. Eu fazia parte de um grupo e estava ali a aprender muito com os melhores profissionais do país. Só um me tratou como filha do Roberto. Todos os outros ajudaram-me a seguir para o caminho certo.

Como foi essa primeira experiência no RIR?

Foi muito louca, muito intensa. Durante nove meses só vivi aquilo, apaguei o resto do mundo. Mas ganhei duas noções muito interessantes. Comecei a fazer as minhas próprias opções. E comecei a ficar mais seletiva, a trazer para mim só o que eu queria. Outra coisa importante foi uma mensagem que me chegou muito clara: que só o trabalho não serve para nada. Eu era extremamente workaholic, mas fui transformando as minhas prioridades aos poucos. E o melhor, agora sendo mãe, é perceber que com o meu histórico eu deveria ser uma executiva-mãe, mas eu descobri que sou uma mãe-executiva. E isto é muito, muito bom. Eu quero passar o dia com ela. Acho que é um desafio dificílimo da mulher moderna, porque não faz sentido nenhum ficar longe dos filhos. Mas também não faz sentido largar tudo para ficar a brincar com crianças. A maior crise agora é essa, gerir a parte emocional. Penso nisso todos os dias.

Mas vivem agora cá em Portugal?

Nós passámos o último ano e meio no Brasil. Mas agora vamos ficar a ir e a vir, porque estamos a começar a produção de Las Vegas. Eu já abri vários países e é maravilhoso. Desbravar é uma loucura, mas é mais loucura a minha filha. De repente mudam as vontades e as prioridades. Vou fazer de tudo para ficar mais por aqui e fazer só mesmo as viagens necessárias.

Além disso, coordena também Espanha, não é?

É, mas o projeto em Espanha agora vai ser adiado, porque a situação económica lá é mais complicada. Mas a equipa hoje já é maior. O Roberto é o presidente e há quatro vice-presidentes. Aqui eu faço mais de presidente, porque estou mais presente, mas todos trabalham para todos. Na empresa já somos cerca de 50 pessoas.

Mas tem uma parte que é chata, pois o que eu gostava mais de fazer não faço mais, que é montar, meter as mãos na massa. É muito melhor fazer o esforço físico do que ficar numa cadeira a gerir o esforço intelectual.  Mas nós éramos um evento e hoje somos uma empresa.

Já está há quase 14 anos envolvida no Rock in Rio. O que é que podemos dizer que tem a assinatura da Roberta?

Acho que a doçura na forma de fazer as coisas. Acho que o facto de ser uma cara feminina e jovem passa uma mensagem relevante da marca. Isto ajuda a construir a imagem do projeto que fazemos. Nos eventos de música, normalmente as caras são homens mais velhos e com tons mais agressivos .

Também a pulverização na oferta de entretenimento dentro da Cidade do Rock. Começou em 2000 com mais palcos, mas eu ajudei a trazer mais coisas diferentes em termos de entretenimento, além da música, e a puxar o conceito para o parque temático. Não fui a responsável, mas fiz parte muito ativa disso. O Sunset fui eu que criei, o Espaço Fashion fui eu que criei. Depois há também outra contribuição na qual sou muito ferrenha. O Roberto criou o projeto social, onde determinou que o RIR seria para um mundo melhor, que aplicaríamos parte das verbas em projetos sociais. E, em 2006, quando começámos aqui a montar o projeto do zero, essa era uma das minhas tarefas. Eu identifico-me muito com esse olhar de um mundo melhor. Eu agarrei essa bandeira. Deixámos que tivesse só um olhar social e passámos também a ter um olhar ambiental. O sucesso do RIR, como o entendemos, é que o sucesso do outro é o nosso sucesso.

Que tipo de causas abraçam?

Nós escolhemos uma causa por edição. Achamos que, para lá da contribuição financeira, podemos dar uma grande contribuição em termos de visibilidade. Nós falamos dos problemas pela positiva, pelas soluções.

E qual é a causa de 2014?

Em 2014 vamos celebrar os 10 anos. Ainda não está definido, mas acima de tudo a nossa vontade é a de convidar todas as instituições que já apoiámos para estarem no evento connosco neste ano.

Como é que a Roberta se vê como executiva?

Sou colaborativa até à página cinco. Eu tenho que delegar. Mas uma coisa que eu tenho de melhorar é saber ensinar, porque não tenho muita paciência. Talvez pela forma como fui treinada. O meu pai joga na jaula do leão, tranca a porta e vai embora. Não é que eu ache que seja a forma mais correta, mas eu também largo a responsabilidade. Mas também, se eu sentir que a pessoa não está a responder, entro e decido.

Foi eleita a Personalidade do Ano pela revista brasileira “Época”, em 2011 e 2012. O que isto significa para si?

Não é a Roberta, é o Rock in Rio que é um projeto líder que dita tendências. O RIR foi novamente um marco em 2011. Já tinha sido em 1985, mas este foi inesperado. O projeto evoluiu muito e voltou completamente diferente, em termos de variedade de entretenimento, dos serviços e da grandiosidade. Isto é o RIR, um ditador de tendências. Esta é a minha leitura deste prémio, porque a Roberta não pode ser. O RIR tem um visionário, o Roberto. Eu sou uma seguidora. Não tenho dúvidas da minha contribuição e de que faço diferença, mas o líder superior não sou eu. Tomo isto como um prémio coletivo.

E tem algum projeto seu para pôr em prática?

Tenho vontade de fazer algumas coisas. Tenho um projeto que tenho muita vontade de fazer, na Bela Vista, que envolve turismo, arte e área social. Mas entretanto fui para o Brasil e entrou a crise, então está quietinho. Mas estou a sentir que vai voltar a mexer.

Acha que tem o emprego de sonho?

Sim, acho que tenho. Mas também é mais emprego de sonho para quem olha de fora, porque na realidade é muito duro. É uma área de extremo risco, você pode ganhar bem, mas também  perder brutalmente, e isso já aconteceu. Haja coração. É uma área de muita responsabilidade, onde se lida com vidas. Acho que é uma área de sonho, porque se trabalha com emoção, com o sorriso das pessoas. Mas é muito stressante. Quando começa o RIR, só rezo para acabar. Tem os dois lados, não é o paraíso que as pessoas imaginam. As pessoas acham que é super divertido, que ficamos a conversar com os artistas, mas eu não vejo os artistas, não vejo os convidados, não consigo ver nada e nem falar com ninguém. Agora, temos muita liberdade, o ambiente é descontraído, muito colaborativo, criativo e, por isso, é muito bom.

Falando agora mais a nível pessoal, o que é que a sua filha Lua lhe trouxe que a transformou?

É uma felicidade louca, é bom de mais. Acho que uma óptima notícia foi eu descobrir que sou uma mãe-executiva e não uma executiva-mãe. Fiquei contente comigo mesma. Era isso que eu queria e ela veio mostrar que é isso mesmo. Mudei muito as prioridades, mas continuo a ser a mesma pessoa, digo as mesmas piadas, tenho os mesmos amigos.

Consegue sair?

Basta querer e organizar. Tem de se planear. Se lidar com as coisas de forma leve, leva bem. Tem mais responsabilidade? Tem. Tem mais funções e tarefas para fazer? Tem. O que muda é a prioridade das coisas, mas você continua a ser a mesma pessoa. Tem de gerir e fazer opções. Mas a maior parte das vezes não tenho vontade de sair, quero é ficar perto dela.

E em termos de imagem que cuidados tem?

O “Ídolos” veio provocar uma revolução em mim nessa área. Sempre fui vaidosa, gostei de colares, pulseiras, roupa, etc.. Mas de maquilhagem não. A primeira vez que usei blush espontaneamente foi com 30 anos. Usava rímel e um lápis às vezes, mas mais nada. Mas no “Ídolos” ficava como uma boneca, com toda aquela maquilhagem, roupas, cabelos, e gostei. Agora já coloco base, blush, sombra. Mas prefiro uma coisa mais leve. Nos atos públicos tenho mais cuidado.

Para 2014, quais são os seus desejos, pessoais e profissionais?

Os pessoais são os melhores, que é saúde e que a minha família esteja toda unida. Onde estivermos os três mais os dois cães estamos felizes. Que o resto da família e amigos também estejam bem. O prático da vida nós resolvemos. O importante é termos saúde e luz, para termos uma sensação de plenitude dentro de nós.

Profissionalmente, desejo que o próximo RIR Lisboa seja um sucesso, que consigamos superar mais uma vez as expetativas do público, que possamos mais uma vez dar retorno significativo aos patrocinadores e a todos os parceiros. Quero também muito que essa experiência nos Estados Unidos [a acontecer em maio de 2015] seja um sucesso, e o ano de 2014 vai ser determinante para isso.

Por Sónia Santos Dias

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