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Síndrome do intestino irritável: uma doença funcional que afeta quase 20% da população

Do vasto número de patologias que atingem o sistema digestivo, as doenças funcionais são, sem dúvida, as mais frequentes. Estima-se que cerca de 40% das doenças gastrenterológicas avaliadas pelos médicos sejam de natureza funcional, ou seja, resultam de uma complexa desregulação do chamado eixo cérebro-intestino, não se identificando alterações por endoscopia, técnicas de radiologia ou análises.

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A síndrome do intestino Irritável (SII) é o exemplo paradigmático deste grupo de condições. Trata-se de uma doença crónica que se prevê que atinja entre uma a duas pessoas em cada dez, sendo mais frequente na população feminina.

 

O sintoma principal é a dor abdominal, tipicamente acompanhada por alterações dos hábitos intestinais (diarreia e/ou obstipação), sensação de distensão abdominal e gases. Cerca de metade dos afetados apresenta sintomas psicológicos associados. Não sendo a causa totalmente conhecida, atribui-se a uma alteração da regulação do eixo cérebro-intestino, pelo que o stress emocional, alterações da motilidade, sensibilidade e permeabilidade intestinal poderão estar envolvidos.

 

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Atualmente, reconhece-se cada vez mais a microbiota intestinal (conjunto de microrganismos residentes no intestino) como estando na base de múltiplas das alterações descritas como causa da SII. O diagnóstico é realizado após avaliação clínica do médico, podendo para o efeito solicitar análises ao sangue, às fezes ou mesmo estudos mais invasivos como colonoscopia, para excluir outras causas. Por não haver nenhum exame que diagnostique a SII, é frequente que este seja tardio, após vários exames e idas a diferentes médicos, atrasando o início de terapêutica dirigida.

 

A natureza funcional da SII torna-a num desafio, não havendo uma terapêutica padrão eficaz para todos os doentes. Assim, a abordagem deverá ser individualizada, centrada numa relação médico-doente pautada pela máxima confiança. Mais de metade dos doentes melhoram com alteração do estilo de vida, com prática de exercício físico regular e alterações dos hábitos alimentares, pelo aumento da ingesta de fibras e evicção de alimentos que potencialmente desencadeiem sintomas.

 

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Para o efeito, poderá ser útil uma avaliação por nutricionista. Se necessário, poderão ser prescritos fármacos dirigidos aos sintomas. Entre eles destacam-se os antispasmódicos (para a dor abdominal), opiódes (para a diarreia) laxantes e procinéticos (para a obstipação) e moduladores da flora intestinal (antibióticos e probióticos).  Em casos selecionados, a abordagem poderá ser complementada com terapêuticas alternativas como a psicoterapia e hipnose.

 

A SII não conduz a uma diminuição da sobrevida, nem a um risco aumentado de cancro do cólon. Associa-se, sim, a uma redução da qualidade de vida (que poderá ser marcada) e sintomas de depressão. Neste sentido, a terapêutica instituída deverá ser sempre dirigida a uma melhoria do bem-estar, o que deverá ser aferido em todas as consultas.

 

Por José Azevedo Rodrigues

Médico gastrenterologista

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