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Psoríase: dermatologista tira todas as dúvidas

A psoríase afeta 2 a 4% da população mundial, estimando-se em 300 mil o número de doentes em Portugal. Tem picos de aparecimento entre os 15-25 anos e os 50-60 anos. Conheça as suas causas, efeitos e tratamentos disponíveis. A 29 de outubro, assinala-se o Dia Mundial da Psoríase.

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O que é a psoríase?

A psoríase é uma doença inflamatória crónica complexa, eminentemente cutânea, caracterizada por áreas bem definidas de pele espessada, rosada ou avermelhada, habitualmente cobertas de escamas ou crostas prateadas. Pode ocorrer inflamação articular – artrite psoriática – em cerca de um terço dos doentes.

 

Quem sofre de psoríase?

A psoríase afeta 2 a 4% da população mundial, estimando-se em 300 mil o número de doentes em Portugal. Homens e mulheres são igualmente afetados, ainda que possa haver diferenças entre grupos raciais. Pode iniciar-se em qualquer idade – mesmo na infância – mas tem picos de aparecimento entre os 15-25 anos e os 50-60 anos. Tende a persistir ao longo da vida, com períodos de agravamento e melhoria. É uma doença de base genética sendo possível identificar familiares afetados em cerca de um terço dos casos.

 

O que causa a psoríase?

A psoríase é multifatorial, em que fatores imunológicos, genéticos a ambientais, como o stress físico, psicológico, infeções por bactérias ou vírus, medicamentos, contribuem para o seu aparecimento. A psoríase não é contagiosa, pelo que não é uma doença que se possa “apanhar” de outras pessoas, nem “passar” para outras pessoas. As lesões de psoríase não são infeciosas.

 

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Como se manifesta a psoríase?

A psoríase manifesta-se clinicamente como placas (pele espessada) de bordo bem definido, simétricas, eritematosas (rosadas ou avermelhadas) e descamativas. As escamas que se libertam são habitualmente prateadas, o que confere à pele lesada um brilho característico. Quando a descamação é muito intensa, podem formar-se crostas. Toda a superfície cutânea pode ser afetada, mas é mais comum nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo. Também as unhas poderão estar envolvidas, com descoloração, manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, espessamento e deformação.

 

Muitas vezes as lesões são pruriginosas, podendo o prurido ser muito intenso nalguns doentes. Em zonas de pele mais seca, podem surgir fissuras e gretas dolorosas.  As placas são muito persistentes sem tratamento. Quando resolvem, podem deixar manchas acastanhadas ou mesmo esbranquiçadas que podem durar meses até desaparecer.

 

Em cerca de 20% dos doentes existe envolvimento articular. A artrite psoriática pode manifestar-se através de dor, desconforto, tumefação ou rigidez nas articulações (sobretudo das mãos, joelhos tornozelos e pés), dor e rigidez matinal da coluna, deformação das articulações e limitação dos movimentos.

 

Como se diagnostica a psoríase?

Não há nenhuma análise de sangue ou exame específico para diagnosticar a doença. O Dermatologista precisa normalmente apenas de observar a superfície cutânea para determinar se se trata de psoríase. Quando existem dúvidas, pode ser necessária retirar um pequeno fragmento de pele (biópsia cutânea) para ser observado ao microscópio. A história familiar pode contribuir para o diagnóstico.

 

Doenças relacionadas com a psoríase

Os doentes com psoríase e com artrite psoriática têm maior risco de desenvolverem outras doenças crónicas e vários problemas de saúde, designados por comorbilidades São exemplos disso a doença cardiovascular (doentes com psoríases graves têm um risco 58% mais elevado de terem um evento cardíaco major e 43% de um acidente cardiovascular), a doença de Crohn (pessoas com psoríase e com artrite psoriática têm um maior risco de desenvolverem doença inflamatória intestinal, havendo um estudo que aponta para um aumento na ordem dos 10%), a depressão, o síndrome metabólico, a uveíte (doença inflamatória do olho) e a doença hepática.

 

De que forma afeta o quotidiano?

O impacto da doença é particularmente relevante e toca todas as áreas da vida pessoal e relacional: autoimagem e autoestima, sexualidade, sono, vida familiar, atividades laborais e de lazer, hábitos. A repulsa e rejeição sociais de que ainda hoje estes doentes são vítimas resultam das crenças e preconceitos que conotam as doenças da pele com sujidade, impureza, culpa, contagiosidade, moral e condutas desviantes. A visibilidade das lesões, o seu por vezes carácter hemorrágico, as escamas omnipresentes, o odor característico a creme, a aspereza da pele, o prurido ou dor associados, a inadequação da indumentária no intuito de esconder lesões, são tudo elementos que penalizam e estigmatizam o doente psoriático.

 

A minha psoríase é grave?

A psoríase pode ter diferentes graus de gravidade que é objetivamente baseada nas características das lesões e na extensão de pele envolvida. Todavia, o compromisso que a doença exerce sobre a qualidade de vida do doente é também decisivo na determinação da sua gravidade: pode, por exemplo, causar um impacto muito significativo na atividade diária de alguém que tenha lesões evidentes nas mãos ou na face. A escolha das opções de tratamento depende da avaliação desses fatores.

 

Tratamento da psoríase

A psoríase não é curável, mas existem muitos tratamentos disponíveis para a controlar. A escolha das modalidades terapêuticas depende da gravidade da doença e no impacto na qualidade de vida, no custo e conveniência do tratamento, e na resposta individual ao mesmo. A combinação de terapêuticas está frequentemente indicada.

 

Terapêutica tópica – A psoríase ligeira é geralmente tratada com agentes que se aplicam sobre a pele. É a primeira linha no tratamento da doença, reduzindo a inflamação local e normalizando a proliferação celular. A facilidade de aplicação destes agentes – do ponto de vista cosmético e de comodidade posológica – é fundamental na adesão: pomadas untuosas e de difícil espalhamento prescritas para áreas muito extensas são um convite à não utilização.

 

Fototerapia – Nos meses de Verão, os doentes com psoríase assistem normalmente a uma melhoria da sua doença. A exposição à radiação ultravioleta em cabines apropriadas sob controlo do Dermatologista pode ser recomendada. Ainda que possa ser muito eficaz, é importante discutir os riscos e os benefícios desta opção terapêutica que implica uma deslocação à instituição de saúde 2 a 3 vezes por semana.

 

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Terapêutica sistémica convencional – Na psoríase moderada a grave preconiza-se o tratamento com agentes sistémicos e/ou fototerapia. São medicamentos que se tomam por via oral e atuam em todo o organismo. Têm eficácias variáveis e não são isentos de efeitos adversos.

 

Biológicos – Os agentes biológicos ou biotecnológicos estão reservados, de uma forma geral, para psoríases resistentes ou com contraindicações às modalidades terapêuticas anteriormente descritas. Os medicamentos biológicos são proteínas provenientes de células vivas cultivadas em laboratório. Em termos de mecanismo de ação, bloqueiam etapas muito específicas do sistema imune, atingindo eficácias muito superiores aos tratamentos clássicos. São administrados por injeção subcutânea ou infusão intravenosa.

 

Preciso de ser acompanhado por um médico?

Gerir o carácter flutuante, crónico e altamente impactante da doença é muito difícil sem ajuda especializada. Para além disso, ao longo dos anos, podem surgir múltiplas morbilidades e limitações que podem condicionar de forma decisiva o prognóstico dos doentes, não apenas no que toca à sua qualidade de vida, mas também no que concerne o seu próprio prognóstico vital; nos casos mais graves – com uma efectiva redução da esperança de vida.

 

Por Pedro Ponte

Dermatologista, Hospital dos Lusíadas

 

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