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Psicodramatizar as problemáticas sexuais

O Psicodrama é um Modelo Psicoterapêutico que pode ser realizado em contexto grupal – o seu locus por excelência – ou individual. Cada sessão desenvolve-se ao longo de três fases, bem delimitadas, mas é a existência de um contexto específico – o dramático – que, possibilitando a dramatização de problemas, emoções ou conflitos, tendo em vista a sua resolução, oferece maior idiossincrasia a este modelo e o constitui, em minha opinião, como uma forte indicação para intervenção em problemáticas sexuais.

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A existência de um contexto dramático numa sessão de psicoterapia gera, por vezes, alguma confusão com o teatro. Muitas vezes me questionam se o Modelo do Psicodrama não se resume a uma espécie de teatralização dos problemas. A verdade é que, embora o Teatro possa ser também terapêutico ou libertador, tanto para actores, como para plateia, neste, os primeiros são convocados para interpretar papéis que lhe são atribuídos, habitualmente seguindo guiões. O mesmo não acontece numa sessão de Psicodrama, em que os sujeitos dramatizam os seus próprios papéis e vivências, com recurso a técnicas de acção.

 

O que trouxe de revolucionário o Psicodrama para o campo das Psicoterapias foi tê-las libertado do uso exclusivo da palavra, possibilitando que a comunicação se faça não só através desta, mas também da expressão corporal e dramática. A proposta, no que ao desenvolvimento da técnica concerne, é que através destas, possa o sujeito exprimir as suas vivências afetivas e vinculares mais profundas, tantas vezes de natureza contraditória, e trabalha-las psicoterapeuticamente, através do cuidado manejo de técnicas.

 

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Esta é uma das razões que faz com que as técnicas do Modelo do Psicodrama Moreniano ofereçam possibilidades únicas para o manejo e resolução de problemáticas comportamentais, emocionais e relacionais dos sujeitos, nomeadamente as sexuais, a que me refiro neste texto.

 

Estas técnicas do Psicodrama Moreniano (podíamos, num outro momento, explorar o alcance destas, tais como o duplo, o espelho, a inversão de papéis ou a estátua), são de grande utilidade para a intervenção em problemáticas sexuais. Ao “darem voz ao corpo”, som ao discurso latente ou interdito e facilitarem a expressão de desejos e de fantasias, permitem ainda que cada um se veja a si e às componentes do seu problema distanciadamente. Facilitam o acesso às memórias corporais e em situações de conflitualidade vincular, experienciar o lugar do outro.

 

Por outro lado, esta proposta de intervenção permite a dramatização de conflitos intrapsíquicos e também conjugais que podem bloquear ou estar na origem do sintoma/queixa sexual. O contexto dramático, por ter componentes lúdicos, por ser uma espécie de “faz de conta”, em que tudo é reversível, liberto portanto das consequências do contexto social, convida o individuo a testar respostas alternativas às dificuldades vividas e a fazê-lo “no aqui e agora”, avaliando-as posteriormente. Permite, pois, testar novos posicionamentos e equilíbrios na busca de melhorar a relação ou o problema experienciado no papel sexual.

 

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Por último, mas de enorme relevância, o Psicodrama, enquanto Modelo teórico de compreensão do individuo e de explicação do sofrimento, oferece uma grelha de leitura em que a liberdade individual é provavelmente o seu mote fundamental. Parte de uma perspetiva humanista: a de que cada um de nós se pode construir a si próprio e reconstruir as suas verdades. Pode fazê-lo através da originalidade e da criação de novas respostas, procurando uma adequação perante velhos ou novos problemas. Esta capacidade é denominada no Modelo de Psicodrama de Espontaneidade. Evidentemente que, para o desenvolvimento desta, a grande dificuldade de cada um de nós residirá na necessidade de nos libertarmos de pressupostos rígidos, inflexíveis, tantas vezes veiculados pela cultura que integramos, e que limitam a capacidade de gerar novas e adequadas respostas que possam ser geradoras de liberdade e bem-estar.

 

Em muitas das problemáticas sexuais que frequentemente surgem nos consultórios dos psis é exatamente este factor – o da Espontaneidade – que, por se encontrar coartado ou limitado, gera sofrimento. Refiro-me aos casos de casais incapazes de encontrarem novas respostas que combatam uma dinâmica insatisfatória, repetitiva e estereotipada, ou situações em que sintoma de sofrimento é individual. São muito ilustrativos, neste aspeto, as perturbações do desejo sexual e do prazer. Estas são situações em que, frequentemente, a pressão sentida para cumprir determinadas expectativas ou pressupostos (e nem sempre percecionados com clareza, tão enquistados que estão no nosso funcionamento psíquico e social) seja de género, seja de orientação sexual ou de performance (…) pode pôr em causa a possibilidade de cada um encontrar a satisfação e o bem-estar. O Psicodrama é uma das possibilidades mais úteis para que cada um possa, em contexto psicoterapêutico, reencontrar esta ESPONTANEIDADE atrofiada.

 

 

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