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O ginecologista explica: os produtos certos para a higiene genital feminina

Os agentes de limpeza não têm a finalidade de esterilizar a região, que é normalmente colonizada por bactérias, mas sim garantir a eliminação de resíduos e de secreções.

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O aparelho genital feminino possui vários mecanismos de defesa contra agentes infeciosos que atuam de forma conjunta e complementar. Os mecanismos iniciais de defesa incluem: barreira epitelial, produção de muco protetor, pH vulvar e vaginal, microflora vulvar/vaginal e componentes respeitantes à imunidade própria de cada mulher.

 

A integridade e o trofismo da mucosa são importantes fatores de proteção. O equilíbrio da barreira cutânea pode ser facilmente alterado pela menstruação, pelo uso de determinado tipo de vestuário, de pensos higiénicos, e uso de produtos de higiene inadequados.

 

O pH da vulva é menor em relação a outras partes do corpo em aproximadamente uma unidade (5,99 ± 0,45), o que tem consequências na flora e na seleção dos preparados tópicos disponíveis. A manutenção do pH ácido nesta região é muito importante na prevenção e controlo de doenças, pelo que a sua alteração, pela oclusão e uso de produtos alcalinos, facilita o aparecimento de algumas dermatoses.

 

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Quando estas linhas de defesas iniciais falham, é acionada a resposta imune específica. Para além destes mecanismos de defesa, existem outras formas de combate microbiano, como a secreção de várias substâncias que atacam as bactérias, mecanismos enzimáticos que, até ao momento, não são bem conhecidos, capazes de se ligar e destabilizar a membrana citoplasmática das bactérias.

 

A infeção e/ou proliferação de bactérias patogénicas na vagina é suprimida pelos mecanismos descritos acima e também pela atividade local dos sistemas imunes, inato e adquirido. As células epiteliais vaginais produzem um vasto leque de compostos com atividade antibacteriana. A produção local de anticorpos IgG e IgA pode ser também iniciada no endocolo e vagina, em resposta à infeção. Embora a mucosa do trato genital seja considerada um componente do sistema imune específico das mucosas (MALT), esta possui diversas características não compartilhadas por outras mucosas (respiratória e intestinal).

 

Estudos recentes sugerem que as mudanças no pH da pele de doentes com dermatite atópica podem ser a causa de muitos problemas. A função de barreira da pele e a colonização pelo Staphylococcus aureus parecem estar diretamente relacionadas às mudanças do pH cutâneo. A manutenção da função de barreira da vulva, através dos cuidados de higiene e hábitos adequados, previne infeções de todo o trato genital, pois são estruturas contínuas e integradas.

 

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Produtos para a higiene genital feminina

Os produtos agrupam-se segundo a sua função, em agentes de limpeza, hidratação, proteção e facilitação das relações sexuais.

 

Os agentes de limpeza não têm a finalidade de esterilizar a região, que é normalmente colonizada por bactérias, mas sim garantir a eliminação de resíduos, de secreções e cumprir as seguintes propriedades: dermocompatibilidade com as mucosas, não irritar nem secar, não alterar a camada lipídico (função de barreira), manter o pH ligeiramente ácido, ter ação refrescante e desodorizante, viscosidade adequada e capacidade espumante.

 

Normalmente, a água apenas remove os catabólitos orgânicos hidrossolúveis, não sendo eficaz na remoção de partículas sólidas e menos ainda na remoção de gordura, pelo que é necessário adicionar um agente de limpeza.

 

Os detergentes: facilitam a emulsificação suave das gorduras e a remoção de partículas microscópicas de papel, células mortas da pele, urina/fezes e sangue menstrual. Estes agentes têm outras propriedades: efeito humidificante, que permite reduzir a tensão superficial entre líquidos e sólidos; têm efeito emulsificante, que estabiliza a mistura; têm efeito de espuma, que reduz a tensão superficial, neste caso, entre líquido e gás formando espuma.

 

Por outro lado, é importante realçar que produtos com muita detergência, propriedade bastante desejada pela maioria das mulheres, pode remover excessivamente, a camada lipídica (gordura) que protege a pele. Desta forma, promove secura vulvar, com aparecimento de prurido. É importante escolher produtos com detergência suave, que formem pouca espuma – e que por isso afetem menos a barreira cutânea. Existem vários tipos de produtos de limpeza no mercado.

 

Os sabões comuns: são quase sempre apresentados na forma sólida, têm boa detergência, bom poder emulsificante e produzem bastante espuma, mas o seu pH alcalino pode destruir a camada superficial lipídica da pele, levando a uma secura excessiva, o que se denomina «efeito sabão».

 

Os sabões transparentes (ex: sabonete de glicerina), pelo seu excessivo conteúdo em glicerina, podem absorver água em excesso para fora da pele, causando potencialmente mais secura e irritação cutâneas. Para compensar este efeito dos sabões, podem ser associados outros componentes, como agentes humidificantes (óleos vegetais, lanolina, pantenol e a própria glicerina), ou então ácidos gordos, nos denominados sabões cremosos, que deixam uma fina camada lipídica na pele, com a função de protegê-la.

 

Os sabonetes alcalinos também não são indicados. Os produtos em barra também não são uma boa opção. Além de serem muito abrasivos, são normalmente compartilhados por toda a família, o que facilita a contaminação.

 

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Os sabões íntimos: podem conter: • Ácido láctico, pela ação hidratante e regulador de pH. • Alfabisabolol, extracto de maça, aveia: anti-irritantes. • Alantoína, pantenol; regeneradores e protectores da zona vulvar. • Polidocanol: antipruriginoso. • Piroctonolamina: anti-séptico.

 

Os detergentes sintéticos: menos agressivos que os sabões comuns, são indicados para zonas sensíveis e têm um pH é neutro ou ligeiramente ácido. São também chamados detergentes dermatológicos ou «sabões sem sabão», foram desenvolvidos para contrariar também o descrito «efeito sabão».

 

Têm pH neutro ou ligeiramente ácido, efeito detergente, fazem espuma e podem apresentar-se em formas sólidas ou líquidas, sendo agradável o seu uso. Estes sabões são feitos, predominantemente, a partir de substâncias sintéticas (não orgânicas) e quase sempre apresentados na forma líquida.

 

Gel: são constituídos por uma fase aquosa (95% de água ou álcool), com pouca ou nenhuma quantidade de lipídios. Têm agentes tensioativos suaves, aos quais se associam agentes gelificantes hidrofílicos que fazem espuma com a massagem e lhe conferem poder adstringente, cujo uso é muito agradável, produzindo sensação de frescura.

 

Toalhetes humedecidos: têm base celulósica embebida em detergentes suaves e com adição de produtos amaciadores, fragrâncias e outros constituintes. Têm pH na faixa de 5 a 6, sendo úteis em algumas situações (higiene fora de casa, sanitários de uso público, etc.).

 

O seu uso não deve ser abusivo, pelo risco de poderem remover a camada lipídica da pele. A sua aplicação deve ser muito suave e não agressiva. Também podem ser sensibilizantes, pelas substâncias que contêm.

 

Sabonete em barra: é o mais utilizado na higiene feminina em geral, seja pela tradição ou pelo preço. Apesar da sua popularidade, facilidade de uso e preços mais acessíveis, o uso rotineiro pode trazer consequências indesejadas, uma vez que, pela sua composição e pH alcalino, podem promover secura e diminuição da acidez da pele vulvar e região adjacente.

 

Como fator negativo dos sabonetes em barra, considera-se, além do pH alcalino ou menos ácido, a maior probabilidade do uso compartilhado por outras pessoas do domicílio, aumentando o risco de contaminação.

 

Sabonetes líquidos íntimos: são produtos à base de ácido láctico, por este ser um componente natural da pele, que diferem entre si pelos vários excipientes associados. Existem muitos compostos presentes nos sabonetes líquidos, sendo os mais importantes: • Ácido láctico. • Glicerina. • Sais de ácidos gordos.

 

O seu principal atributo é manter o pH mais próximo do ideal para o desenvolvimento e manutenção das células da pele. Os sabonetes líquidos específicos para higiene da genital feminina são recomendados apenas para uso da genitália externa e não são indicados para fazer lavagens vaginais. Também não são indicados para tratar infeções ou inflamações genitais e recomendam-se produtos hipoalergénicos.

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