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Populações migratórios de água doce caíram 76% em quatro décadas

Novo relatório global diz que as principais causas do decréscimo de população são a sobre-exploração, degradação, alteração e perda de habitat, todas elas ligadas ao impacto e ação humana.

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A WWF lançou o Índice Planeta Vivo dedicado aos peixes migratórios de água doce, mostrando que, globalmente, estas populações sofreram um declínio de aproximadamente 76% entre 1970 e 2016, particularmente acentuado na Europa. Segundo a organização, as principais causas do decréscimo de população são a sobre-exploração, degradação, alteração e perda de habitat, todas elas ligadas ao impacto e ação humana.

 

O primeiro relatório global sobre o estado dos peixes migratórios de água doce foi publicado hoje pela World Fish Migration Foundation, entidade à qual pertence a WWF, e pela ZSL (Zoological Society of London). O relatório revela um declínio médio de 76% nestas populações no período de 1970 até 2016, incluindo um declínio de 93% na Europa. Este número é maior que o registado nas espécies terrestres e marinhas, mas em linha com o declínio geral observado nas populações de vertebrados de água doce (83%), e tem origem no aumento da necessidade global de energia, com as barragens hidroelétricas e outras barreiras a impedirem os peixes de acasalarem e de se alimentarem, na sobrepesca, alterações climáticas e poluição.

 

Portugal não escapa a esta realidade, tal como o X-Ray do Douro indicou recentemente. A fragmentação dos rios portugueses é um fenómeno que se verifica há décadas, e na Bacia do Douro, a maior a nível ibérico e uma das maiores da Europa, a Rede Douro Vivo identificou 57 grandes barragens, 40 mini hídricas e 1105 pequenas e médias barreiras/açudes, num total de 1205 barreiras que impedem que os rios exerçam em pleno as suas funções, e das quais 165 poderiam ser retiradas.

 

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Além de serem fonte de recursos indispensáveis a toda a vida (fornecendo-nos de forma direta água e alimento), os rios são parte essencial de um ecossistema cujos benefícios têm um valor muito elevado. Verdadeiros sistemas reguladores, purificam a água que bebemos. São casa de 10% de todas as espécies já registadas, transportam os nutrientes e sedimentos necessários até ao mar e impedem a erosão do solo. São também autênticos corredores ecológicos: através deles, as plantas e os animais conseguem deslocar-se entre áreas agora fragmentadas pelo Homem.

 

“Esta não é apenas uma questão ambiental. Peixes migratórios como o salmão, a truta e o peixe-gato da Amazónia, são essenciais para atender às necessidades de segurança alimentar e garantir os meios de subsistência de milhões de pessoas em todo o mundo”, lembrou Ângela Morgado, Diretora Executiva da ANP|WWF. Responsáveis por suportar uma complexa rede alimentar, estes peixes têm também um papel crucial em manter os nossos rios, lagos e zonas húmidas saudáveis. Hoje, as suas populações estão sob forte ameaça devido ao impacto da ação humana, e requerem ação urgente para travar e reverter o declínio alarmante.

 

Arjan Berkhuysen, Diretor da Fundação Mundial de Peixes Migratórios afirma, “Perdas catastróficas nas populações de peixes migratórios mostram que não podemos continuar a destruir os nossos rios. Isto terá consequências devastadoras para as pessoas e a natureza de todo o mundo. Nós podemos e devemos agir agora, antes que estas espécies importantíssimas desapareçam de vez.”

 

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A degradação, alteração e perda de habitat representam metade das ameaças aos peixes migratórios. As zonas húmidas são habitats essenciais às espécies de peixes migratórios, mas, globalmente, estão a desaparecer a um ritmo três vezes mais rápido que as florestas, com as barragens hidroelétricas e outras barreiras a impedirem os peixes de acasalarem e de se alimentarem.

 

“Os peixes migratórios são fonte de alimento e meios de subsistência de milhões de pessoas, mas isso raramente é tido em conta em tomadas de decisão. Em vez disso, a sua importância para a economia e para os ecossistemas continua a ser subestimada – e as suas populações continuam a colapsar,” afirmou Stuart Orr, Diretor de Água Doce na WWF. “O mundo precisa de implementar um Plano de Recuperação de Emergência que reverta a perda dos peixes migratórios e de toda a biodiversidade de água doce – para benefício das pessoas e da natureza.”

 

Ainda há a oportunidade de inverter o panorama atual, através de mais pesquisa para perceber o destino dos peixes migratórios e através do desenvolvimento de soluções práticas que restaurem e protejam estes animais. Os autores do relatório, em conjunto com todas as organizações envolvidas, apelam à comunidade global para proteger os rios e para abordar as ameaças existentes, aderindo a iniciativas de conservação e a leis que protejam, investindo em alternativas, renováveis e verdadeiramente mais sustentáveis, aos milhares de barragens hidroelétricas que estão a ser construídas por todo o mundo.

 

“O declínio global em espécies de água doce continua a não ser tido em conta nas tomadas de decisão a nível nacional e internacional”, afirma Ângela Morgado, Diretora Executiva da ANP|WWF. “Este relatório vai, esperamos nós, aumentar a importância dada a este declínio de biodiversidade sem precedentes e levar às ações urgentes e necessárias para salvaguardar este componente essencial de biodiversidade.”

 

 

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