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Pode a estimulação ovárica aumentar o risco de cancro na mulher?

Nas últimas décadas, desenvolveu-se a preocupação de que as mulheres submetidas a estimulação ovárica poderiam ter um maior risco de desenvolver cancro de ovário.

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O uso de medicamentos estimulantes dos ovários, com a finalidade de induzir e/ou aumentar a produção do número de óvulos, é o passo inicial dos tratamentos de reprodução medicamente assistida (inseminação intrauterina ou fertilização in vitro), incrementando a hipótese de gravidez.

 

Os medicamentos empregues conduzem ao aumento, no sangue da mulher, dos níveis da hormona folículo estimulante (FSH), que promove o crescimento dos folículos ováricos que contêm os óvulos. Por sua vez, os folículos produzem a hormona Estradiol e, como resultado, a quantidade desta hormona no sangue da mulher também aumenta significativamente. Sabe-se que o estradiol está associado ao desenvolvimento de cancro do aparelho genital feminino e da mama, daí a questão: pode estimulação ovárica aumentar o risco de cancro na mulher?

 

Nas últimas décadas, desenvolveu-se a preocupação de que as mulheres submetidas a estimulação ovárica poderiam ter um maior risco de desenvolver cancro de ovário. Contudo, a neoplasia ovárica não é muito comum, tendo maior incidência na mulher, por exemplo, o cancro da mama, do pulmão e do cólon.

 

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Por outro lado, quando consideramos a pequena proporção da população feminina que foi sujeita a estimulação ovárica e até mesmo a pequena parcela desta que a recebeu o tempo suficiente para que seja supostamente considerada um agente causador de cancro do ovário, torna-se fácil perceber a dificuldade em avaliar o verdadeiro risco deste tipo de medicação.

 

Por outro lado, ainda, a interpretação dos dados estatísticos tem sido muitas vezes obscurecida por questões metodológicas, imprecisões, bem como dificuldades em separar fatores de risco de cancro já conhecidos, como baixa paridade e infertilidade, de qualquer efeito da indução da ovulação e/ou estimulação ovárica controlada.

 

A idade média do diagnóstico, da neoplasia ovárica, situa-se entre os 58 e os 65 anos e cerca de 90% dos casos surgem do epitélio ovárico. Estudos epidemiológicos apontam para a importância de fatores endócrinos, genéticos e ambientais, na etiologia desta doença.

 

A incidência em mulheres com idade inferior a 30 anos é de aproximadamente 5 por 100 000; na faixa etária dos 30-50 anos é de cerca 20 por 100 000, aumentando para 45 por 100.000 aos 60 anos.

 

A paridade é um fator protetor, e esse efeito aumenta a cada gravidez. O uso de anticoncecionais orais é um fator de proteção contra o cancro do ovário e é um dos benefícios não relacionado com a contraceção deste tipo de medicação, por outro lado, a infertilidade e a ovulação contínua são conhecidas por estarem associadas a um aumento do risco de neoplasia ovárica.

 

A dificuldade e o dilema é saber se o tratamento da infertilidade aumenta, na realidade, esse risco em comparação com o risco associado à própria infertilidade, nomeadamente, quando esta está associada a baixa paridade e a tratamentos sem sucesso, isto é, que não resultam em gravidez.

 

Formação da neoplasia do ovário

Uma das teorias mais amplamente aceites de formação da neoplasia do ovário propõe que quistos de inclusão epitelial, formados a cada ovulação, são estimulados a sofrer uma transformação maligna pelas gonadotrofinas que normalmente se tornam elevadas na menopausa. Este modelo pressupõe que os agentes que provocam ovulação múltipla por estimulação pelas gonadotrofinas aumentam o risco de aparecimento de células malignas e consequentemente de cancro ovárico.

 

Outra teoria alternativa conjetura que as gonadotrofinas podem não ser apenas fatores de mutação celular, mas terem conjuntamente um efeito potenciador da duplicação/divisão das células epiteliais do ovário, podendo provocar o desenvolvimento dum tumor pré-existente.

 

Ainda que alguns estudos, no passado, tenham demonstrado um risco maior de ocorrência de tumores do ovário e da mama em mulheres que realizaram estimulação ovárica, sobretudo quando se utilizou citrato de clomifeno (Dufine®) em altas doses e/ou em vários ciclos de tratamento seguidos (mais de 6), trabalhos científicos mais recentes, incluindo metanálises, constataram que a hiperestimulação controlada dos ovários, quer com citrato de clomifeno quer com gonadotofinas, não originou maior risco de cancro do ovário, do útero e da mama, sobretudo quando se levou em consideração as diferentes variáveis com capacidade de influência.

 

Como referi anteriormente, a gravidez e o parto têm uma ação protetora e, por outro lado, o sucesso ou não do tratamento da infertilidade pode influenciar as discrepâncias de risco entre as mulheres submetidas a tratamento e as não tratadas.

 

Assim, torna-se claro que é difícil distinguir entre o efeito dos vários tratamentos e o efeito da infertilidade persistente, sendo certamente necessários mais estudos no futuro para se poder esclarecer definitivamente esta questão.

 

Contudo, analisando os melhores estudos publicados na última década, pode-se concluir que o tratamento com medicamentos indutores da ovulação não parece aumentar o risco de cancro na mulher, não obstante a infertilidade poder, por si só, ser um elemento de risco para o desenvolvimento deste tipo de patologia.

 

Determinados subgrupos de mulheres com infertilidade parecem estar mais sujeitos a um risco maior de cancro como consequência do tratamento da infertilidade, e esse risco depende ainda se a mulher conseguiu ter uma gravidez e um parto como resultado do tratamento.

 

 

 

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