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Perturbações de ansiedade em crianças: aprenda a lidar com o problema

Saiba como se manifesta a ansiedade nas crianças e o que podemos fazer para controlar a doença.

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Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, entre as quais se destaca a perturbação da ansiedade, que afeta 16,5% da população.

 

No caso das crianças, estas podem ficar ansiosas com coisas diferentes em idades distintas. A psicóloga Filipa Jardim da Silva explica que «entre os seis meses e os três anos de idade, é muito comum que as crianças pequenas tenham ansiedade de separação, traduzindo-se em choro quando são afastadas dos seus cuidadores. Este é um estádio adaptativo no desenvolvimento de uma criança e habitualmente para por volta dos dois a três anos de idade».

 

Em idade pré-escolar é também muito comum que as crianças desenvolvam medos ou fobias especificas. «Os medos comuns na primeira infância incluem animais, insetos, tempestades, alturas, água, sangue e escuridão. Esses medos geralmente desaparecem gradualmente por conta própria. Podem ainda surgir contextos que promovem experiências de ansiedade para as crianças, como a mudança de escola, a avaliação escolar e a integração com os pares», esclarece a psicóloga.

 

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No entanto, fora destes medos comuns, pode surgir uma ansiedade que se torna num problema quando limita a vida diária das crianças. Por exemplo, é normal alguma preocupação num dia de avaliação escolar, mas se essa ansiedade gerar vómitos, mal-estar físico já é considerado um nível de ansiedade mais intensa que condiciona o quotidiano.

 

Filipa da Silva Jardim alerta para o facto de que «a experiência deste tipo de ansiedade mais intensa pode prejudicar o bem-estar mental e emocional das crianças, afetando a sua autoestima e confiança. É por isso que muitas crianças se tornam fechadas e desenvolvem estratégias de evitamento de todas as situações que as deixam inquietas».

 

Existem assim alguns gatilhos, que facilmente podem despoletar uma crise de ansiedade nos mais novos. «Podem ser alvos típicos de medos na infância como os animais, os insetos, as alturas e a escuridão, mas também podem passar por situações novas, desconhecidas, geradoras de impotência ou que impliquem exposição e/ou avaliação, como por exemplo a separação de pais, a morte de uma pessoa próxima, a mudança de casa, a mudança de escola ou até a realização de avaliações na escola», enumera a psicóloga.

 

Apesar destes sintomas existirem podem ser muitas vezes desvalorizados ou confundidos com birras pelo que é importante que os adultos percebam como se manifesta a ansiedade nas crianças e, por sua vez, como ajudar a controlá-la.

 

A psicóloga esclarece que «quando crianças pequenas se sentem ansiosas, nem sempre conseguem compreender ou expressar o que estão a sentir. No entanto, estes são alguns sinais que poderão ser detetados por adultos: aumento de irritabilidade ou choro fácil, dificuldade acrescida de separação dos adultos de referência, dificuldades em adormecer, despertares noturnos, pesadelos ou regressão a nível do controlo de esfíncteres nas crianças que já deixaram a fralda».

Já nas crianças mais velhas, podem observar-se outros sintomas: «Falta de confiança para experimentar coisas novas ou aparente incapacidade de enfrentar desafios simples do dia-a-dia, dificuldades de concentração, alterações no sono e no comportamento alimentar, explosões de raiva, pensamentos negativos, ansiedade antecipatória e evitamento de alguns contextos geradores de desconforto».

 

Perante a análise destes sintomas existem diferentes tratamentos que os pais podem colocar em prática. «Quando a ansiedade da criança é severa, persistente e interfere com a sua vida quotidiana é importante que os pais procurem ajuda junto do seu médico pediatra e junto de um psicólogo clínico. Em muitas situações o acompanhamento psicológico e a orientação parental são dois recursos fundamentais para a superação destas dificuldades. Fomentar um sono de qualidade e promover uma alimentação diversificada a par de atividade física regular são pilares de autocuidado importantes no crescimento saudável de uma criança, para uma gestão otimizada de emoções».

 

Durante a crise de ansiedade existem outras coisas que os pais e cuidadores podem fazer para ajudar. A psicóloga refere que é importante «legitimar a ansiedade e tentar explorar com a criança, de acordo com a faixa etária, as suas preocupações, com curiosidade, compaixão e tolerância. É importante que as figuras de referência tranquilizem as crianças e se mostrem disponíveis para escutar e apoiar, de forma incondicional e sem julgamentos. Consoante a faixa etária pode ser útil explicar à criança que a ansiedade pode ser como uma onda grande, que vem, agita, mas depois quebra e se desvanece, ou seja, é uma emoção intensa mas não é permanente e sobretudo é uma emoção que faz parte da vida».

 

Procurar manter algumas rotinas diárias estáveis pode também apoiar na estabilização dos níveis de ansiedade da criança, porque a rotina tem sempre uma componente tranquilizadora para os mais pequenos.

 

«É também útil ensinar a criança a reconhecer os sinais de ansiedade no seu corpo. Identificar a ansiedade em tempo real é um passo importante para que a criança seja capaz de pedir ajuda à sua volta e também para que se possa mobilizar autonomamente a regular o que sente. Pode revelar-se uma mais valia mostrar algumas ilustrações ou procurar livros que ajudem a criança a compreender melhor os seus sentimentos».

 

Em último lugar, mas não menos importante, Filipa Jardim da Silva explica que é importante ajudar a criança a encontrar soluções para gerir a intensidade da ansiedade, sem a evitar. «Ensinar a respirar pela barriga, a distrair-se em momentos de pensamentos negativos, ou mesmo criar uma caixa de preocupações onde a criança poderá colocar frases ou desenhos sobre o que está a sentir de cada vez que a ansiedade surgir, para depois explorar em segurança com uma figura de referência, são algumas das estratégias que as próprias famílias podem assegurar. Em situações de mudanças previsíveis há que preparar a criança, conversando com calma e tranquilidade sobre o que vai acontecer, procurando assim dar-lhe uma maior perceção de controlo e poder».

 

Viver com a ansiedade seja na própria pele ou em pessoas próximas que nos rodeiam nem sempre em fácil, ainda para mais quando se trata de crianças em fase de desenvolvimento. Desta forma, as famílias devem cooperar não só para ajudar a ultrapassar a doença mas também a evitá-la. A psicóloga alerta: «Quanto mais as famílias criarem espaços de diálogo permanente, dando possibilidade às crianças de se exprimirem, num momento de atenção de qualidade, mais estarão a promover contextos geradores de inteligência emocional».

 

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Também os educadores e professores têm um papel essencial na literacia emocional, assim como os profissionais de saúde. «As escolas também podem promover uma relação saudável e consciente com as emoções, fomentando um maior quociente de inteligência emocional e não só um quociente cognitivo. Os profissionais de saúde que acompanham crianças pequenas: médicos de família, pediatras, enfermeiros, psicólogos clínicos e educacionais, devem manter um olhar integrado do funcionamento da criança, procurando olhar para ela num todo, integrado em vários sistemas. Esse olhar integrativo e uma postura atenta e preventiva, é importante para que as crianças não acumulem mal-estar e possam ter apoio especializado e adequado sempre que necessário».

 

É também essencial termos em conta que cada criança é um caso e que nem todas estão propensas da mesma forma a ter preocupações e momentos de stress. «As crianças que tiveram uma experiência angustiante ou traumática, como um acidente de carro ou um incêndio em casa, podem correr mais riscos de desenvolver transtornos ansiosos pelo que quanto mais recursos emocionais tiverem mais capacidade terão de lidar com essa adversidade e assim reduzir o risco futuro.  Discussões e conflitos familiares também podem fazer as crianças sentirem-se inseguras e ansiosas, pelo que contextos promotores de união familiar protegem os mais novos de desenvolver precocemente transtornos ansiosos».

 

Considerada a doença do século XXI, a ansiedade é uma das grandes preocupações dos pais nos dias de hoje. No entanto, é essencial que as famílias não se deixem apoderar pela doença, que consigam criar um ambiente seguro e estável ao redor dos mais novos e que nos casos mais severos procurem ajuda junto dos profissionais de saúde.

 

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