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Paula Simão: «A principal patologia causada pelo consumo de tabaco é a doença oncológica»

O tabaco constitui a principal causa evitável de morte antes dos 70 anos de idade em Portugal. Está associado a um vasto leque de doenças, entre as quais o cancro. Falámos com Paula Simão, pneumologista na ULSMatosinhos, que nos traça um cenário alargado do impacto deste malefício. A 31 de maio assinala-se o Dia Mundial Sem Tabaco.

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A OMS diz que o tabaco mata cerca de metade dos seus consumidores. Existe imensa informação sobre os seus malefícios. Porque é que se continua a fumar?

A dependência do tabaco é considerada uma doença, à semelhança de outras toxicodependências. A nicotina, pelo seu enorme potencial aditivo, é o constituinte que primariamente justifica que grande parte dos fumadores, ainda que devidamente advertidos sobre os malefícios de fumar, ou que inclusivamente apresentem doenças associadas ao tabagismo, mantenham o hábito.

 

Esta droga, libertada no fumo do tabaco e inalada pelo fumador, é absorvida principalmente através dos pulmões, alcança o cérebro em segundos e proporciona a libertação de dopamina, uma substância química associada à sensação de prazer. O acto de fumar é sentido como uma recompensa positiva, gerando necessidade de experimentar continuadamente esta sensação prazerosa. Instalada a dependência à nicotina, o fumador passa a sentir de forma desagradável a sua falta, o que se traduz pela síndrome de abstinência. O fumador é então impelido a manter o consumo de nicotina para anular esta recompensa negativa.

 

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O tabaco é também o principal causador de doenças evitáveis.  Quais as principais patologias causadas pelo tabaco?

O tabaco constitui a principal causa evitável de morte antes dos 70 anos de idade em Portugal. É também um importante causador de doença e incapacidade prematura entre os fumadores portugueses. A principal patologia causada pelo consumo de tabaco é a doença oncológica. O envolvimento cancerígeno não se limita às vias respiratórias (faringe, laringe, traqueia, brônquios e pulmão), acabando também por afetar o sistema digestivo (boca, esófago, estômago, intestino, recto, fígado e pâncreas) e os sistemas genital e urinário (rins, ureteres, bexiga e colo do útero). Pode ser, igualmente, causa de uma forma grave de leucemia.

 

A associação a doenças cardiovasculares – doença cardíaca coronária, aneurisma da artéria aorta e acidente vascular cerebral – e a doenças respiratórias – doença pulmonar obstrutiva crónica, asma, pneumonia e tuberculose – é igualmente bem reconhecida. A ligação causal do tabaco à diabetes e à aterosclerose está também comprovada.Fumar pode ainda causar disfunção sexual, compromisso da fertilidade, gravidez ectópica e defeitos congénitos dos embriões durante a gravidez.

 

Paula Simão, pneumologistaOs malefícios de fumar são vastos e abrangentes. Mais do que alertar para os malefícios de fumar, tão bem expressos nas advertências de saúde impressas nas embalagens de produtos do tabaco, vale a pena sensibilizar os fumadores para os benefícios em parar de fumar. Estes fazem sentir-se a partir dos primeiros 20 minutos sem fumar e ocorrem em todos os fumadores, mesmo naqueles que deixam de fumar em idades mais avançadas. É certa e indiscutível a recuperação de qualidade de vida, mas também o ganho em esperança de vida, a melhoria da auto-estima e o retorno financeiro, que resultam do abandono do tabaco.

 

Paula Simão, pneumologista

 

Que impacto têm as doenças respiratórias na vida das pessoas e da sociedade?

No plano individual, as doenças respiratórias têm impacto direto sobre o bem-estar e a produtividade, sendo causadoras de incapacidade prematura, sofrimento e elevados custos pessoais. Porém,  o impacto social é igualmente importante. O enorme impacto e sofrimento humano resultante das doenças respiratórias crónicas (DRC) e o facto de serem a 1ª causa de mortalidade em internamento hospitalar, justifica a prioridade dada em Portugal ao Programa Nacional para as Doenças Respiratórias (PNDR),

 

Nos últimos anos, surgiram os cigarros eletrónicos. Há a ideia de que não fazem tanto mal como o tabaco convencional. Qual é a realidade?

A ideia de que o cigarro electrónico não faz tão mal como o tabaco convencional não passará provavelmente de um mito. Não existe qualquer evidência científica robusta que apresente o cigarro electrónico como alternativa segura de consumo de nicotina ou que o aconselhe como forma de tratamento eficaz na cessação tabágica.

 

A composição dos cigarros electrónicos disponíveis no mercado não é inteiramente revelada pelas empresas que os fabricam e o seu perfil de segurança e eficácia não é, igualmente, bem conhecido. São várias as entidades que desaconselham a sua utilização e alertam para o seu potencial nocivo, como são exemplos a Sociedade Europeia Respiratória, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia e o Infarmed. A “Lei do Tabaco”, recentemente actualizada, cada vez o aproxima mais dos produtos do tabaco no que concerne à proibição de locais para a sua utilização, à composição e rotulagem das embalagens comercializadas, à sua venda, publicidade e patrocínio.

 

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