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Odete Costa, uma mulher de causas

Fundou o “Movimento Lírio Azul”, cujo principal objetivo é promover a igualdade de género, em setembro de 2014. Mas há mais de 20 anos que esta mulher do norte tem dedicado a sua vida a variadas causas sociais.

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Odete Costa trabalha longe dos holofotes mas o fruto do seu empenho tem tocado e mudado a vida de milhares de portugueses. Licenciada em História pela Faculdade de Letras do Porto, Odete Costa dedica-se há mais de 20 anos a várias causas sociais e, hoje, não imagina a sua vida de outra forma. Mãe de três rapazes, acredita que a solidariedade e o voluntariado são valores essenciais na educação dos jovens. A residir na Póvoa de Varzim, Odete Costa faz parte da história de várias instituições solidárias nortenhas. Em setembro de 2014, fundou o Movimento Lírio Azul que, a par da promoção da igualdade de género, apoia crianças em risco ou hospitalizadas, a comunidade surda e as pessoas amputados. Falamos com Odete Costa sobre este projeto e sobre o estado da solidariedade em Portugal.

Há 20 anos envolveu-se em causas sociais e não mais parou. A solidariedade é uma grande parte de si?
Sim. Não imagino a minha vida de outra forma. Gosto muito de estar envolvida na comunidade, assim como gosto de acompanhar o que acontece no meu país e no mundo. A defesa de causas sociais, sejam elas de grande dimensão ou apenas locais ou pontuais, acrescentam sempre alguma coisa à nossa vida, acho que não só crescemos como ficamos mais humildes. Ao longo dos anos dediquei-me a muitas causas, algumas no anonimato, outras com grande visibilidade, e aprendi muito com todas as experiências. Acredito que todos temos uma responsabilidade social, existe uma “obrigação” moral e social de partilhar com outro e essa partilha nem sempre tem que ser na forma de dinheiro. Eu acredito na partilha de oportunidades e na partilha do conhecimento. Eu acredito no empreendedorismo social, no voluntariado e num trabalho em rede.

O seu mais recente projeto é o Movimento Lírio Azul. Pode falar-nos sobre ele?
O Movimento Lírio Azul (MLA) foi imaginado e fundado por mim, na Póvoa de Varzim, em 2014. É um movimento cívico feminino de âmbito nacional, aberto a toda as mulheres que se identificam com as nossas causas, muito concretamente a igualdade de género. As três causas sociais que também fazem parte deste movimento são o apoio à criança (carenciada, em risco social ou hospitalizada); a comunidade surda (com destaque para a Associação de Surdos do Porto) e pessoas amputadas (Projeto Borboleta & ANAMP). Estas causas estão todas interligadas com a nossa causa de base, que é a igualdade de género.

Quantas mulheres fazem parte do movimento e de onde são oriundas?
Centenas de mulheres, em todo o país, já aderiram ao Movimento. Curiosamente, e para grande satisfação nossa, já temos mulheres fora de Portugal! Inicialmente eu tinha imaginado o MLA apenas em termos nacionais mas rapidamente começaram a surgir convites para fazer parte de projetos mais alargados e além fronteiras. Neste momento o MLA já está iniciar projetos sociais com a revista “Mulher Africana” e a ONG Sapana, o que permite desenvolver projetos do MLA, em parceria com estas organizações, noutros países e continentes como, por exemplo, África e Índia.

Qual é o perfil da mulher do Movimento?
Quando uma mulher se identifica com este projeto e quer fazer parte deste movimento cívico feminino, então passa a ser “Lírio”. Qualquer mulher, a partir dos 16 anos, pode ser Lírio. Para as crianças e mais jovens temos a classificação de “Lírio-petit” – esta classificação surgiu pelo facto de algumas mulheres dizerem que queriam despertar as filhas para o movimento. As Lírio-mor e as Lírio-coordenadoras já são mulheres convidadas por mim para desempenharem tarefas dentro da estrutura do movimento. Não existem quotas nem joias de inscrição, a participação é gratuita. Não existe qualquer limitação em termos de ideologia política, credo religioso ou estatuto social. Ser “Lírio” é uma questão de atitude: são mulheres fortes e determinadas, que não aceitam a injustiça social seja por motivos de género, condição social ou deficiência. No entanto, as nossas atividades e eventos não estão vedadas as homens! Apesar de ser um movimento cívico feminino, e precisamente por defendermos a igualdade de género, não excluímos o homem das nossas iniciativas.

Quais os pilares do movimento?
A ideia que está por detrás deste movimento é o valor feminino e a união das mulheres.

Numa sociedade cada vez mais igualitária, porque é que este projeto faz sentido?
O MLA tem o slogan “Valor no Feminino” porque acreditamos no valor da mulher. Não é possível construir um mundo mais justo sem envolver a mulher. Enquanto houver discriminação em relação à mulher, a sociedade não evolui. Para além deste slogan, também temos o lema “Resolvi ignorar certas coisas e estou a gostar do resultado”. Pode parecer uma frase dura, até estranha, mas não é. Uma mulher MLA não julga pelo exterior, não valoriza o que nos pode separar – o credo religioso, ideologia política, estatuto social -, uma mulher “Lírio” valoriza apenas a pessoa. Quando olhamos para uma pessoa, para dar emprego por exemplo, ou simplesmente para entrar nas nossas vidas, devemos “ignorar” o que não importa e apenas dar valor ao Ser. Mas já não devemos – nem podemos – “ignorar” as injustiças sociais. A intriga, a inveja, a mentira e o “gossip” não são aceites no MLA. Lamentavelmente, quando uma pessoa, particularmente uma mulher, tem sucesso, passa a ser motivo deste tipo deste tipo de comportamentos. Ao “ignorar” este comportamento mesquinho fica mais forte. Uma mulher “Lírio” não se deixa influenciar por coisas negativas porque tem atitude e capacidade de se afirmar pela positiva. Estas duas frases resumem a postura que se pretende de uma mulher que faz parte deste movimento.

Tem várias ligações à vida política. As duas atividades andam de mão dada?
Eu entendo a política como serviço, como missão. Eu gosto muito da vida política, particularmente a política autárquica porque está muito próxima das pessoas (e dos seus problemas), mas cada vez tenho menos paciência para certas manobras políticas e a dita “politiquice”, onde vale tudo. Infelizmente, muitos políticos, particularmente nas autarquias, ainda não perceberam que os tempos mudaram e cada vez mais as pessoas estão, em termos locais, afastadas dos partidos. Uma das coisas que sempre me fez confusão, é a forma como muitos autarcas gerem o apoio social que é dado nos municípios. Eu não acredito na dependência de subsídios das instituições nem posso aceitar que uma autarca venha cobrar politicamente um apoio (legitimo) a uma associação ou coletividade.

Em termos legislativos, o que gostava que mudasse neste campo?
Muito terá que mudar a nível de legislação para terminarmos com muitas injustiças sociais e abusos de poder dos políticos, mas para que isso aconteça será preciso apostar numa mudança de mentalidades. Em pouco tempo já passei por diversas provações por ter entrado na política mas não estou nada arrependida, muito pelo contrário. Felizmente, e ao contrário do que referi anteriormente, também existem bons exemplos de políticos empenhados! O MLA foi recebido por muitos Presidentes de Câmara, em todo o país e de diferentes partidos políticos, que aceitaram o nosso desafio e que reconhecem o enorme potencial do nosso projeto. Muitas vezes eu recordo as palavras do Papa Francisco “Os  cristãos  não  podem lavar  as  mãos,  devem  entrar  na política  porque  a  política  é  uma das formas mais altas de caridade porque procura o bem comum. Os cristãos devem trabalhar na política. A  política  é  suja,  diz-se.  Mas, porquê? Será porque os cristãos não entraram nela com o espírito do Evangelho?”. Acho fantástica esta frase, muito inspiradora. Mas, para conseguir mudar mentalidades, precisamos da ajuda de todos. E é neste contexto que movimentos e organizações, como o MLA, podem ajudar.

Qual é o seu desejo a curto prazo para este projeto?
Desejo que este movimento continue a crescer e a fazer parcerias estratégicas. Em breve vamos divulgar alguns projetos e atividades sociais que estão ser definidos em diversos pontos do país. Por incrível que pareça, o MLA já tem eventos agendados até março de 2016, alguns de âmbito internacional, e com o apoio confirmado de diversas figuras públicas.

Como é que gere os vários papéis da sua vida: mãe, mulher, esposa, empreendedora, mulher de causas?
Sou casada há 26 anos e mãe de três rapazes de 25, 24 e 17 anos. Do mesmo modo que não imagino a minha vida sem uma intervenção ativa na sociedade, também não consigo imaginar a minha vida sem este meu papel de esposa e mãe. Não consigo separar as coisas. Nem sempre é fácil, mas é certamente possível conjugar as diversas facetas da minha vida.

A família apoia a sua dedicação às causas sociais? É essencial para si que as crianças cresçam com o valor da solidariedade?
Evidentemente que só é possível estar há 20 anos envolvida em projetos sociais, porque tenho a compreensão e apoio da família. Acho que os meus filhos nem conseguem imaginar a mãe de outra forma, tal como o meu marido. Estou certa que também contribuiu para uma educação cívica mais consciente dos nossos filhos, onde a solidariedade e o voluntariado são muito valorizados.

Qual o seu desejo para o futuro?
Não tenho planos a longo prazo, apenas posso dizer que estarei onde fizer falta. Espero continuar a ser útil e a servir quem mais precisa, seja a título individual ou através de organizações. Neste momento, em termos sociais, estou muito focada no MLA e espero conseguir continuar a provar que o empreendedorismo social é o melhor caminho para uma sociedade mais justa e que a luta contra a pobreza e a exclusão social deve ser feita assente em projetos isentos e meritórios, e não na dependência de subsídios ou em poderes instalados, nomeadamente poderes políticos. Os próximos anos serão decisivos para um projeto social desta natureza, e eu, na qualidade de fundadora e presidente deste movimento, vou procurar dar visibilidade às causas sociais que apoiamos, na esperança de um mundo melhor.

Por Joana de Sousa Costa

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