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O terror do terrorismo

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Numa semana em que os atentados de Paris tomaram conta da imprensa internacional, tinha decidido não escrever sobre este tema. Até que, esta tarde, um encontro profissional com alguém que se tornou já um amigo me fez mudar de ideias e perceber que tenho uma palavra a dizer sobre tudo isto.

 

Moro em Roterdão, aquela que é a cidade europeia com mais muçulmanos. São mais de um milhão os que vivem na Holanda, o que representa quase seis por cento da população do país. A grande maioria dos muçulmanos que habitam nos Países Baixos, o nome mais correto para denominar a terra das tulipas, é oriunda da Turquia e Marrocos. No entanto há minorias substanciais de países de todo o mundo: Iraque, Irão, Afeganistão, Somália e Suriname, uma das mais importantes ex-colónias da Holanda.

 

Tenho amigos muçulmanos. Tenho também amigos hindus, budistas, protestantes, católicos. E não me assusta a diferença. Antes, engrandece-me! Sinto-me grata por começar uma refeição com um minuto de silêncio para uma oração quando me sento à mesa com protestantes ou por partilhar de magníficas iguarias feitas por famílias hindus, livres de carne de porco. Elogio o hijab de uma muçulmana da mesma forma que falo com uma cristã sobre o último vestido que ela comprou na Zara.

 

De manhã, bebo o meu chá verde com vista para a varanda do vizinho da frente, onde este faz a oração matinal, e não deixo de apreciar a beleza do ritual enquanto ele se curva continuamente na direção de Meca. Tal como apreciei a beleza dos cânticos budistas num templo na Tailândia, a delicadeza das oferendas do hinduísmo balinês e tal como, desde sempre, me emociono com os cânticos de uma cerimónia católica.

 

Ainda que o povo holandês seja reconhecido pela sua tolerância, há sinais de crescimento da discriminação contra emigrantes, particularmente muçulmanos, desde o ataque terrorista do 11 de Setembro de 2001. A islamofobia é particularmente forte no discurso do líder da extrema direita holandês Geert Wilders que, assustadoramente, tem vindo a ganhar mais seguidores.

 

Por outro lado, o presidente da câmara de Roterdão, Ahmed Aboutaleb, ele próprio descendente de marroquinos, pronunciou-se no seguimento do ataque a Paris, dizendo que «é fundamental erradicar a Isis» mas, por outro lado, é importante ter uma postura inclusiva em relação aos muçulmanos e «evitar a forma de pensar que divide o nós do eles». O político incitou ainda a que os muçulmanos levantem a voz contra a Isis e pede para o povo holandês não esquecer que a maioria dos muçulmanos não é composta por terroristas.

 

O medo é o maior inimigo do bom senso e o real perigo, no meio da tragédia dos últimos meses que rodeia a questão do acolhimento dos refugiados da Síria e a ligação disto com a Daesh (a nomenclatura que a Isis não quer que se torne pública), o real perigo é, na verdade, a perda de humanidade, o deixarmos que o terror nos leve a capacidade de sentirmos empatia, solidariedade, amor. Está na hora de enfrentarmos este terror com a maior arma de que dispomos: bondade perante as suas vítimas e esperança num futuro em que todas elas recebam a ajudam de que precisam.

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