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O “Mundo Barbie” aos olhos de uma psicóloga

Hoje, é muito mais do que uma simples boneca, posiciona-se como um grito a favor da emancipação da mulher.

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Começo por dizer que nunca tive uma Barbie, nunca sequer brinquei com uma. Confesso que não achava qualquer piada à boneca. Preferia as Barriguitas ou qualquer brincadeira de rapazes, que em regra, na altura, era bem mais interessante.

 

Acho que provavelmente se tivesse uma seria a “barbie esquisita”, que por ser diferente está mais relacionada comigo. Mas provavelmente fui a exceção. Se questionarmos a maioria dos adultos, são inúmeros os que se recordam de terem brincado com uma ou várias, durante a sua infância.  Aliás. nos nossos dias, a Barbie continua a existir em milhões de casas espalhadas pelo mundo inteiro.

 

Mas, hoje, se outrora me foi indiferente, no meu mundo de adulta não lhe posso ficar indiferente, afinal é muito mais do que uma simples boneca, posiciona-se como um grito a favor da emancipação da mulher. Agora o filme “Barbie” é isso também!

 

Começa por deixar bem claro, nos primeiros minutos de filme, que as mulheres podem ser o que quiserem. Podem ser tudo, não devem ser tudo. E esta é provavelmente a primeira dica de reflexão.  Qualquer mulher pode desempenhar qualquer função sem renunciar à sua feminilidade, à moda, à maquilhagem ou ao cor-de-rosa. Uma Barbie, metaforicamente, uma mulher, é muito mais que um corpo ideal, uma vida perfeita. Pode ser o que quiser, não deve ser o que os outros querem que seja e nunca tentar ser tudo.  Deve aceitar-se, valorizar-se e reconhecer a sua essência de única e especial.

 

No fundo, o filme “Barbie” coloca a mulher no papel central, num mundo paradisíaco em que os homens assumem as funções mais nulas da sociedade. De forma inteligente e altamente divertida, o filme retrata uma verdadeira ode ao feminismo, tendo a capacidade de demonstrar, de forma irónica, o mundo em que vivemos e o quão estagnada está a nossa sociedade no que respeita à igualdade de género.

 

Com cores fortes e apelativas, o filme relembra a todas as mulheres que, se lutarem, podem ser o que quiserem, desde que se revoltem contra o patriarcado.  De facto, o filme explora formas de opressões com as quais mulheres lidam diariamente, explorando o conceito de patriarcado: um sistema que, desde há milénios, beneficia os homens em detrimento das mulheres, prejudicando a ascensão e conquista de direitos das mesmas.

 

Desafia as normas sociais, incentivando a autorreflexão e o autoconhecimento. Rapidamente somos arrastados para as cores acinzentadas da realidade e, em pouco tempo, a Barbie descobre que vivemos num mundo dominado pelo sexo masculino, em que o respeito pelas mulheres está muito aquém de ser uma verdade.

 

Ao questionar a sua vida perfeita, na “Barbieland”, Barbie decide explorar o mundo real, onde se depara com uma realidade diferente da experienciada até então. É neste âmbito que surge o contraste entre a cidade cor-de-rosa perfeita e a realidade, trazendo à tona questões importantes, como ansiedade, depressão e dependência emocional.

 

A Barbie, que sempre foi vista como um símbolo de beleza e perfeição, passa por uma jornada de autodescoberta, questionando padrões e procurando a sua própria identidade.

 

No filme, a saúde mental é valorizada e reconhecida. A depressão está representada, são evidenciados sentimentos de tristeza, pessimismo e baixa autoestima, características comumente associadas à perturbação psicológica. Por sua vez, quando a Barbie deixa o mundo da fantasia e aparece no mundo real, ela sente-se ansiosa com todas as coisas com as quais tem de lidar: assédios, conflitos, atingir objetivos…

 

A ansiedade é característica em diversas personagens que enfrentam situações desafiantes, potenciando sintomatologia ansiosa e pensamentos intrusivos (inclusive sobre a morte) acerca das suas próprias habilidades, gerando inseguranças (pensamentos de que “não se é suficiente”), preocupações excessivas e dificuldades em gerir esses mesmos pensamentos e emoções.

 

A baixa autoestima é também abordada e chega a ser potencializada pelo medo do fracasso, receio de ser julgado ou rejeitado, levando a perpetuar o mecanismo de defesa de uma procura constante pela perfeição. Por sua vez, a dependência emocional é representada nas personagens que procuram constantemente a validação e aceitação por parte dos outros, colocando a sua própria felicidade nas mãos de terceiros.

 

Esta realidade é identificada particularmente no Ken, que passa por uma descaracterização de personalidade, sobretudo quando canta que é “sempre o número dois”, colocando a nu todas as suas inseguranças.

 

Mas, afinal, por que razão um filme sobre a Barbie está a ser tao popular?

O fascínio que rodeia o filme “Barbie” suscita uma questão intrigante: apesar das mudanças significativas que a icónica boneca sofreu ao longo do tempo, porque é que a Barbie continua a fazer manchetes e a cativar pessoas em todo o mundo com um fervor que parece não ter precedentes?

 

Simples, a nostalgia.  A nostalgia, ou a saudade do passado, algo poderoso que influencia todos os aspetos da nossa vida. E hoje a nossa sociedade é propicia a isso. Estamos na era em que o foco maior é o autocuidado e, neste sentido, a nostalgia atua como catalisador do bem-estar individual.

 

A nostalgia serve como um mecanismo de sobrevivência para superar a angústia e é frequentemente desencadeada em resposta a sentimentos negativos, atuando como uma ferramenta eficaz para reforçar as ligações sociais, aumentar a autoestima e gerar emoções positivas necessárias para evitar o stress ou emoções desagradáveis que surgem perante eventos de difícil gestão.

 

Paralelamente, a nostalgia é universal e, por essa razão, aproxima as pessoas funcionando como um agente de ligação social. O fenómeno Barbie reafirma o poder do passado, afinal é importante encontrar consolo nas memórias e experiências comuns que nos unem num mundo em constante mudança.

 

Por isso, não fique indiferente e vá ver o filme.

 

 

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