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«O leite materno sofre constantes alterações e adapta-se às necessidades do bebé»

Na Semana Mundial de Aleitamento Materno, que decorre de 1 a 7 de agosto, descubra os benefícios do leite materno, para a mãe e para o bebé, segundo a enfermeira Joana Regadas Nunes.

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O grupo de trabalho da Iniciativa Hospital Amigo dos Bebés do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) lançou recentemente um e-book sobre aleitamento materno que promete ser uma ajuda para a saúde das mães e dos seus bebés.

 

Joana Regadas Nunes, enfermeira do Serviço de Obstetrícia do HFF e responsável pela realização do e-book, pretende dar a conhecer os benefícios do aleitamento materno, não só para as mães como para os seus filhos. O e-book aborda algumas técnicas de aleitamento materno e dá algumas dicas para superar os principais desafios desta prática.

 

 

Que benefícios traz o aleitamento materno, para mãe e filho?

Os benefícios do aleitamento materno quer para a mãe, quer para o bebé são múltiplos. No que respeita ao bebé podemos destacar que o colostro constitui a primeira vacina natural, pois oferece proteção contra infeções, estimula o apetite do/da bebé e tem ação laxante que ajuda na expulsão do mecónio (primeiro cocó do bebé). O leite materno é muito nutritivo e sofre constantes alterações, quer ao longo da mamada, quer ao longo da vida do bebé, adaptando-se às suas necessidades. Para além disso, o sabor do leite materno sofre também alterações consoante a alimentação da mãe, o que permite que a posterior introdução de outros alimentos seja facilitada.

 

O ato de mamar leva a que o bebé tenha um crescimento adequado das estruturas dentárias e do maxilar, desenvolva corretamente a mastigação, a fala e a função respiratória. Dadas as suas propriedades, o aleitamento materno reduz a probabilidade de surgirem doenças como a diabetes, hipertensão, entre outras. Reduz também o risco de obesidade e previne o desenvolvimento de alergias no bebé.

 

VEJA TAMBÉM: A IMPORTÂNCIA DO ALEITAMENTO MATERNO PARA A SAÚDE ORAL DO BEBÉ

 

Para a mãe, o aleitamento materno reduz o risco de hemorragia uterina e promove a recuperação pós-parto. A mulher que amamenta tem um gasto calórico de cerca de 700 Kcal diárias, o que favorece a recuperação do peso anterior à gravidez. O ato de amamentar constitui o único método de prevenção do cancro da mama.

 

Durante a amamentação, a vinculação entre a mãe e o bebé é promovida e fortalecida. Na verdade, associada à vinculação está a diminuição do risco de depressão pós-parto na mãe e, futuramente, o bebé vai ter mais facilidade no relacionamento com outras pessoas, promovendo a sua socialização.

 

Não podemos falar do aleitamento materno sem referir as vantagens económicas e ambientais. O leite materno está sempre pronto, disponível e à temperatura adequada, não envolvendo nenhum custo económico nem qualquer impacto ambiental.

 

 

Em meio hospitalar, após o nascimento do bebé, qual o papel do enfermeiro no que respeita ao apoio da mãe que deseja amamentar?

O ato de amamentar, embora natural, não é totalmente instintivo, tornando-se imperativa a aprendizagem da técnica da amamentação para garantir o sucesso da mesma. É fulcral a existência de profissionais habilitados para apoiar as mulheres e família nesta prática.

 

É importante que os enfermeiros e toda a equipa multidisciplinar direcionem os seus cuidados no sentido da promoção do Aleitamento Materno desde o nascimento do bebé até ao momento da alta, bem como referenciação para apoio ao aleitamento materno após a alta, se necessário. Logo após o nascimento é de extrema importância promover o contacto pele-a-pele e o aleitamento materno na primeira hora de vida.

 

Ao longo de todo o internamento, os profissionais têm um papel fundamental, através do apoio à díade/tríade durante a amamentação através de ensinos acerca do aleitamento materno como os posicionamento, sinais de boa pega, horários e duração da mamada, prevenção e resolução de possíveis problemas, estando disponíveis para observar as mamadas e atuar em conformidade, garantindo que, no momento da alta, a mãe está apta e confiante em relação ao aleitamento materno, envolvendo também o pai/pessoa significativa em todo o processo.

 

Para o sucesso do Aleitamento Materno, o estado psicológico da mulher é muito influente sendo imperativo que todos os profissionais de saúde incentivem e elogiem a mulher que deseja amamentar, envolvendo-a em sentimentos positivos, para que esta se sinta capaz e confiante nesta prática.

 

Neste sentido, o Hospital Professor Doutor Fernando da Fonseca (HFF) tem disponível o Curso de Conselheiros de Aleitamento Materno, de acordo com as diretrizes da UNICEF, disponível a todos os profissionais, de modo a especializar e uniformizar os cuidados inerentes ao aleitamento materno. Existem também diversos apoios ao Aleitamento Materno disponíveis a nível hospitalar e da comunidade, como consultas de amamentação, cantinhos de amamentação, visitas domiciliárias, entre outros.

 

Ainda persiste, até aos dias de hoje, o mito de que o ‘leite é mau e fraco’. É importante reafirmar que o leite com aspeto mais líquido e transparente tem igual valor nutricional para o bebé…

O aspeto mais líquido e transparente do leite inicial (colostro), os picos de crescimento dos bebés, durante os quais os bebés solicitam alimento mais frequentemente, juntamente com a opinião menos positiva dos pares e pressão da comunidade, podem levar a mãe a pensar que o seu leite é fraco ou insuficiente. O colostro, apesar do seu aspeto, é muito rico em nutrientes e tem propriedades imunológicas, tão necessárias ao bom desenvolvimento e saúde do bebé!

 

Na verdade, o leite materno é o melhor alimento para oferecer em exclusivo ao bebé até aos 6 meses, sendo complementado com a introdução faseada de outros alimentos após os 6 meses até aos 2 anos e daí em diante até que a mãe, bebé e família o desejem. Considero fundamental informar as mulheres e toda a comunidade relativamente às especificidades do Aleitamento Materno de forma a desmistificar e desenraizar estes mitos e crenças, empoderando as mulheres para a prática do Aleitamento Materno.

Portugal é um país onde a amamentação é prática valorizada entre as mulheres?

Em Portugal, a temática do aleitamento materno e suas vantagens tem sido cada vez mais abordada. No entanto, há relativamente poucos anos, através de uma agressiva campanha publicitária, a sociedade foi levada a crer que o melhor método de alimentar os bebés era através do leite de fórmula. Para contrariar esta corrente, a OMS e a UNICEF, através de iniciativas como o Código Internacional de Marketing do Substituto do Leite Materno e a Iniciativa Hospital Amigos dos Bebés, tem promovido a mudança de comportamento relativamente à prática de Aleitamento Materno.

 

Através da formação dos profissionais e de diretrizes especificas de atuação, o Aleitamento Materno tem sido promovido, protegido e apoiado junto da população servida pelas instituições creditadas como Hospitais Amigos dos Bebés. No entanto, existe ainda um longo caminho a percorrer…

 

Neste sentido, elaborei este e-book, que é um documento esteticamente apelativo, de fácil consulta e linguagem simples, disponível a todos que o queiram consultar na página oficial do Hospital Professor Doutor Fernando da Fonseca, na esperança de contribuir para a literacia em saúde e mudança de comportamentos.

 

A amamentação pode prolongar-se após os dois anos caso a família deseje?

A OMS recomenda o Aleitamento Materno em exclusivo até aos 6 meses de idade uma vez que é um alimento vivo, completo e ideal, adaptado à insuficiência digestiva e maturidade do bebé e adequado para suprir todas as necessidades nutricionais do mesmo.

 

Após os seis meses, este deve ser complementado através da introdução de outros alimentos até, pelo menos, aos dois anos de idade ou até que a mãe, bebé e família o desejem. Esta prática promove a diminuição da mortalidade e morbilidade infantil e, consequentemente, reduz o absentismo materno, sendo, sem sombra de dúvidas, uma prática promotora de Saúde!

 

“A mulher que amamenta tem um gasto calórico de cerca de 700 Kcal diárias, o que favorece a recuperação do peso anterior à gravidez”.

 

Existem contrapartidas para a criança que ainda mama já com idade de 3 ou 5 anos?

Na verdade, a amamentação após os dois anos de idade não cria dependência psicológica da criança em relação à mãe e deve ser visto como algo positivo. Deste modo, o desmame do aleitamento materno é algo cuja decisão cabe aos intervenientes. Assim a amamentação pode manter-se até que a mãe, bebé e família o desejem.

 

Numa fase inicial, a amamentação pode traduzir-se num processo doloroso e psicologicamente exigente para a mãe. Que mensagem dirige a mulheres que possam estar a passar por isso? 

Numa fase inicial, o aleitamento materno pode tornar-se desafiante e trabalhoso. No entanto, uma técnica correta, associada a uma boa pega do bebé à mama da mãe, diminui grandemente o risco de complicações desta prática. Daí a importância de divulgar e dotar as mulheres e comunidade acerca do aleitamento materno, idealmente durante o período pré-natal.

 

Para a mãe que está a amamentar recomendo que procure um profissional de saúde qualificado para a apoiar e ajudar a superar/contornar os desafios do aleitamento materno, tanto durante o internamento como após a alta da maternidade. Acredite na sua capacidade única de alimentar o seu bebé e disfrute desse momento excecional! Muitos parabéns por ter decidido amamentar o seu bebé!

 

Ao nível da Lei do Trabalho, que sugestões reconhece ser necessárias tendo em vista práticas saudáveis de Aleitamento Materno, que beneficiem mãe e bebé?

A lei vigente em Portugal foi concebida de modo a proteger e promover o Aleitamento Materno existindo diversos artigos no decreto de lei que definem como se deve proceder a fim de prosseguir com o aleitamento materno aquando do regresso ao trabalho. De ressalvar que a dispensa do progenitor para a amamentação, durante o período definido legalmente é, sobretudo, um direito da criança! Infelizmente esta lei nem sempre é respeitada e algumas mães acabam por sofrer pressões para o abandono destes direitos.

 

É urgente promover o Aleitamento Materno e elucidar toda a população para os benefícios e importância desta prática! Considero igualmente importante a criação condições nos locais de trabalho para a mulher proceder à extração do leite e seu armazenamento, bem como a existência de cantinhos de amamentação em locais públicos, para as mulheres que não se sentem à vontade para o fazer em público. Igualmente importante, o não julgar negativamente uma mulher que amamente em público, mas sim reconhecer na amamentação um ato de amor e proteção para com aquela criança!

 

 

 

 

 

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