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O fim do Dr. Google

Nos últimos anos, surgiu uma nova medicina, assente num único médico, capaz de efetuar todos os diagnósticos e que revolucionou o mundo da medicina, o Dr. Google.

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Até há alguns anos atrás, a sociedade estabelecia diversas atribuições aos médicos, muitas vezes, transformando-os em verdadeiros deuses, donos de um saber único, impossível de ser questionado ou colocado em causa.  A capacidade de interação e intervenção do médico no ambiente social tinha um poder “assombroso” e a sua palavra era lei.

 

Vivemos numa sociedade, cujo estado é totalmente protetor, o que origina que o cidadão exija que o médico e a medicina lhes resolvam todos os problemas. O doente cria a crença, a expectativa de que o médico tem sempre a solução e o vai proteger todos os males.

 

Entretanto, especialmente nos últimos anos, surgiu uma nova medicina, assente num único médico, capaz de efetuar todos os diagnósticos e que revolucionou o mundo da medicina, o Dr. Google.

 

Multiplicam-se assim pacientes em hospitais e clínicas, já com diagnósticos efetuados, carecendo apenas de medicação para dar seguimento ao tratamento. Isto se, efetivamente, não for possível adquiri-la sem receita médica.

 

Mas mais acesso a informação não significa que haja mais conhecimento, até porque a informação pode não ser exata. Mas, inevitavelmente, esse maior acesso à informação por parte do doente molda e determina as suas expectativas.

 

Mudança com a pandemia

No entanto, sem que nada o fizesse prever, um novo vírus surgiu e pouco se sabia sobre ele. O Dr. Google carecia de informação, e a insegurança, o medo e a incerteza fez muitos questionarem o mundo da saúde no geral, e os médicos em particular.

 

A incerteza e constante alteração da informação fizeram colocar em causa o poder e o conhecimento de todos os profissionais de saúde. Não havia, não há respostas ainda claras e objetivas. Era, é preciso analisar e estudar. Desfez-se a crença no Dr. Google e reforçou-se a esperança nos profissionais de saúde, apelidados de “verdadeiros heróis”.

 

Agora neste novo mundo, os heróis terão novos papéis e a relação médico-doente será diferente. A relação existente entre o médico e o doente é uma relação existente desde os primeiros tempos da medicina, não vai desaparecer, vai inevitavelmente transformar-se, já está a transformar-se.

 

A transformação da relação médico-doente não é algo que necessariamente envolva custos elevados, pode apenas requerer imaginação e compreensão mútua dos diferentes papéis que são pedidos a cada uma das partes, numa palavra, empatia.

 

O estabelecimento de um ambiente empático exige dois momentos: primeiro a interiorização da situação emocional do doente e, em segundo, dar a conhecer ao doente que o médico o compreende. O doente percebe a empatia do médico por aquilo que este diz, mas também, ou até mais, por aquilo que o doente observa a partir do médico e, em função desta perceção, deposita ou não confiança no médico.

 

No novo mundo, a empatia reinará. A medicina no novo mundo terá como objetivo a descoberta da pessoa, encontrando as origens da doença e do sofrimento desenvolvendo métodos para o alívio da dor.

 

No novo mundo, reforça-se a ideia de que um bom médico não se define somente pelo nível dos seus conhecimentos, mas também pela sua capacidade de comunicar. Através da comunicação, investigam-se e valorizam-se sintomas, emoções, sentimentos e preocupações, reconhecem-se e modelam-se expectativas, dão-se explicações, lidam-se com motivações, acordam-se planos terapêuticos, ou seja, constrói-se uma relação médico-doente.

 

No novo mundo, pacientes exigem que os médicos comuniquem e que através da sua comunicação lhes dêm segurança, tranquilizem e definam um caminho rumo à cura.

No novo mundo não haverá espaço para os médicos que queiram ser só médicos, precisam de querer ser a pessoa por detrás do médico. Afinal, como dizia Abel Salazar, “o médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”.

 

E esse médico, claramente, não é o Dr. Google. É o seu fim…

Pense nisso!

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