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O estado da infertilidade em período de pandemia

Estima-se que possam ter sido suspensos, entre os meses de março e maio de 2020, cerca de 2000 a 3000 tratamentos. Atualmente todos os centros de PMA se encontram a funcionar, mas com novas regras e procedimentos adaptados à nova realidade.

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A 16 de  março de 2020,  a Sociedade de Medicina da Reprodução (SPMR), devido ao aparecimento em Portugal dos primeiros casos de COVID-19, divulgou uma recomendação a todos os Centros de Procriação Medicamente Assistida (PMA) no sentido de não se iniciar qualquer tratamento de fertilidade e para cancelar todos tratamentos já iniciados, envolvendo ou não o recurso a técnicas de PMA. Contudo, a 24 de abril de 2020, emitiu um novo comunicado recomendando que, uma vez revogado o estado de emergência nacional decretado a 18 de março e face à evolução da pandemia em Portugal, todos os centros públicos e privados podiam retomar de forma progressiva a sua atividade, incluindo os tratamentos de PMA. Assim na maioria dos centros os tratamentos estiveram suspensos, no mínimo durante 2 meses, tendo-se assistido a uma retoma gradual das suas atividades em maio e junho de 2020.

 

Atualmente todos os centros de PMA se encontram a funcionar, mas com novas regras e procedimentos adaptados à nova realidade. Enquanto se aguardam os resultados do inquérito feito, pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) a todas as Unidades de PMA, sobre o impacto da pandemia nos tratamentos de infertilidade, estima-se que possam ter sido suspensos, entre os meses de março e maio de 2020, cerca de 2000 a 3000 tratamentos.

 

Durante estes tempos de incerteza  e de alguma apreensão é muito importante a tranquilização dos pacientes informando-os que, por um lado, todos os centros de PMA para estarem a funcionar têm que dispor dos requisitos e condições de segurança exigidos pela Direção-Geral da Saúde (DGS), nomeadamente, terem um plano de contingência bem delineado de modo a diminuir o risco de exposição dos utentes e da equipa de profissionais  ao coronavírus, e que nestas condições é possível efetuar com confiança os procedimentos e as consultas presenciais.

 

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Podem ser assim realizados todo o tipo de tratamentos, contudo, no sentido de garantir uma maior segurança, é muito importante ser exigido também, a todos os profissionais e pacientes intervenientes, um código de conduta que tem que ser cumprido escrupulosamente, no sentido de serem evitadas exposições desnecessárias ao novo coronavírus, tanto no trabalho como na  vida social e familiar. Foram também introduzidas, nos centros de PMA, alterações aos protocolos utilizados, como por exemplo todos os pacientes, antes e durante os ciclos de tratamento, terem que responder, a questionários de autoavaliação sobre sintomas e sinais relacionados com a infeção pela COVID-19, ou terem que realizar o teste de diagnóstico do SARS-Cov-2 antes de determinados procedimentos, como a realização da colheita de gâmetas ou da transferência de embriões, teste que sendo positivo obriga ao cancelamento do tratamento.

 

Como as principais dúvidas e preocupações dos pacientes dizem respeito ao desconhecimento das repercussões da infeção pelo SARS-CoV-2 sobre os embriões e gâmetas, bem como sobre a grávida e o feto, outro componente muito importante na tranquilização de todos é o fornecimento de informação atualizada, sobre as evidências científicas disponíveis a respeito da infeção, da sua prevenção e possíveis riscos que se apliquem a todas as etapas do processo reprodutivo, incluindo a gravidez.

 

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Assim, embora ainda haja poucos trabalhos científicos conclusivos sobre a doença, pode-se afirmar que:

  1. a) Não há ainda indicadores categóricos que digam que as mulheres grávidas sejam mais vulneráveis à infeção pelo SARS-CoV-2 e às suas complicações do que a população em geral e estudos clínicos publicados (a grande maioria em mulheres infetadas no 2º e 3º trimestre) apontam para uma evolução mais ou menos favorável da gestação. No entanto, há peritos e entidades de saúde, como por exemplo, a CDC (“Centers for Disease Control and Prevention”), que afirmam que no caso das grávidas, poderá haver um risco maior de infeção devido a alterações fisiológicas e imunológicas induzidas pela gravidez, e que por esta razão devem merecer um cuidado especial;

 

  1. b) Alguns estudos têm apontado para um aumento ligeiro do risco de parto pré-termo e para uma taxa de aborto entre 8% e 10% em grávidas infetadas. Estes dados parecem apontar para uma evolução relativamente favorável da gravidez na COVID-19;

 

  1. c) A transmissão vertical do vírus entre a grávida e o feto, embora sendo considerada rara, já foi descrita em pouco mais de uma dezena de casos. No entanto a experiência em todo o mundo é a de que os recém-nascidos, de grávidas infetadas, têm um bom prognóstico e seu estado de saúde não difere muito dos nascidos de grávidas sem infeção;

 

  1. d) Por não ter sido identificado, até agora, o recetor específico que permite a este novo coronavírus entrar nas células, parece muito pouco provável que ele seja capaz de infetar os gâmetas (óvulos e espermatozoides) de pacientes com a doença, ou de contaminar estas células em Laboratórios de PMA. Deste modo atendendo ao rigor das regras de vigilância e atuação nestes laboratórios, relativamente a outros agentes infeciosos, é de pressupor que a contaminação laboratorial por este vírus seja muito difícil de acontecer.

 

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Termino com algumas considerações e orientações, que considero serem fundamentais, para que os tratamentos de Infertilidade em Portugal prossigam com estabilidade e segurança, e que são:

– O cumprimento responsável, por parte de todos os intervenientes, do distanciamento social.

 

– O respeito escrupuloso de todas as regras exigidas pelos Centros de PMA, durante a execução dos tratamentos, como a utilização de material de proteção individual adequado, a desinfeção frequente das mãos, o cumprimento da etiqueta respiratória e sempre que seja solicitada, a resposta fidedigna aos questionários sobre os sinais e sintomas suspeitos desta doença, bem como a realização atempada de testes de diagnóstico para SARS-Cov-2, pedidos em determinadas fases do processo.

 

– Embora a decisão de tentar conceber seja inteiramente pessoal, ela precisa ser tomada com base no estado de saúde de cada pessoa, nas condições locais, isto é, no estado da pandemia em determinada região e deve ser sempre alicerçada numa cuidadosa análise da relação custo-benefício de cada caso concreto.

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