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O desafio dos cuidadores informais na pandemia

Quando os pais, por força da pandemia, começam a viver o dia e a noite na casa dos filhos, dá-se a descoberta de uma nova pessoa.

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Ouvimos falar dos desafios que enfrentaram os pais das crianças durante a pandemia por estarem em teletrabalho e terem ao mesmo tempo de lidar com filhos 24 h por dia, terem de ser professores e ainda desempenhar o papel de pais durante as brincadeiras ao final do dia, como tantos estavam habituados. No entanto, não se fala com a mesma intensidade do papel que esses mesmos pais tiveram de desempenhar como cuidadores informais dos seus próprios pais.

 

Para tal, tiveram de acolher nas suas próprias casas os idosos da família, visto que, os centros de dia foram encerrados e os apoios domiciliários reduzidos. E aqui começa o grande desafio.

 

Eu diria que é aqui que se dá o confronto com a realidade. Acredito que um filho (refiro-me a filhos entre os 50-60 anos de idade) não tem a noção real de como estão os seus pais psicológica e socialmente, pois somente se relacionam com eles uma ou duas vezes por semana, o que faz com que não saibam as suas rotinas, hábitos e até características peculiares que os definem.

 

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É bastante diferente estar com os pais durante um almoço, uma tarde ou até um jantar. Nesses momentos é bastante difícil percecionar algumas alterações cognitivas ou outras mudanças comportamentais relevantes, pois a maioria das vezes são vistas pelos filhos como normativas do envelhecimento.

 

Quando os pais, por força da pandemia, começam a viver o dia e a noite na casa dos filhos, dá-se a descoberta de uma nova pessoa. Os filhos entram em negação e conflito direto com os pais e são assombrados por pensamentos do género: “Ele não era assim”, “Ele só me está a dizer/fazer isto para me contrariar e se tentar impor na minha própria casa”.

 

Os filhos deparam-se com um pai que não o reconhece e os pais deparam-se com um filho que não os compreende. A meu ver, esta grande dificuldade prende-se com o facto destes filhos a que me refiro terem muito pouca experiência na relação com pessoas mais velhas. Pois há uns anos os seus avós e tios-avós faleciam bastante cedo e, portanto, estes filhos nunca experienciaram o processo de envelhecimento como um todo e raramente tiveram que cuidar de um adulto mais velho.

 

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Costumo referir a frase: “Cuidar de uma criança é instintivo, pois já fomos crianças e já nos relacionamos com um irmão, um primo, um filho de um amigo. No entanto, nunca fomos idosos e também nunca cuidámos de um”.

 

Aqui entra a pesquisa e a procura de informação sobre o que é o envelhecimento, quais as características que o definem como normal e como patológico, o que se espera de um filho que teve que assumir o papel de cuidador informal e quais as espectativas do pai em relação aos cuidados prestados.

 

Termino esta reflexão com a ideia de que os filhos, para desempenharem o papel de cuidador informal, deverão ser formados e informados sobre todos os desafios e exigências inerentes a esta nova responsabilidade.

 

Por Marta Torres

Psicóloga

 

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