Home»AMOR»RELAÇÕES»O ciúme nas relações

O ciúme nas relações

O ciúme pode ditar o final de uma relação, se não for gerido de forma saudável. Conheça histórias na primeira pessoa e a opinião da psicóloga Catarina Lucas, que tem debruçado o seu trabalho sobre as relações dos casais.

Pinterest Google+
PUB
Mariana e Gonçalo namoravam há dois anos, quando Gonçalo começou a dar sinais de desconfiar da fidelidade da namorada. Na altura, Mariana, de 22 anos, não atribuiu muita importância às recorrentes perguntas do namorado sobre onde estava e com quem. Mais tarde, estranhou que este lhe pedisse para ver as mensagens do seu telemóvel.Este, explica, foi o “sinal de alarme”: “Como tinha o telemóvel com um código de segurança, ele pediu-me para ver as mensagens, mas nessa altura tive a sensação de que ele já devia ter tentado aceder ao telemóvel antes, às escondidas. Por alguma razão, só naquela altura é que percebi que alguma coisa de errado se passava. Aquilo pareceu-me demasiado e disse-lho.” Foi este o ponto de partida para a primeira grande discussão do casal.
“Nem queria acreditar em tudo o que o Gonçalo estava a dizer-me. Ele estava completamente alterado, como se fosse outra pessoa, a acusar-me de andar a encontrar-me com o meu ex-namorado. Mais tarde percebi que ele andava desconfiado há três ou quatro meses. Mas o problema é que o meu ex-namorado era da minha turma na faculdade, não havia forma de o evitar totalmente, mas o Gonçalo não tinha razões para sentir qualquer ciúme.” O casal discutiu violentamente durante algumas semanas, até que Mariana decidiu terminar a relação. “Percebi que o Gonçalo nunca ia deixar de ter ciúmes do meu ex-namorado e não quis viver com aquela situação. Custou-me muito mas, olhando para trás, acho que foi a melhor decisão.”A psicóloga Catarina Lucas tem debruçado o seu trabalho sobre a relação dos casais. O ciúme, destaca, “é uma característica presente não apenas no ser humano, sendo por vezes encontrado em algumas espécies animais.”
A especialista explica o que está na base do ciúme: “A ideia generalizada de que muitas pessoas traem gera receios e ansiedade relativamente a si e ao relacionamento. Com a imagem de ‘amor eterno’ em declínio, o ciúme tem uma porta entreaberta para se intrometer na relação, uma vez que as pessoas quando iniciam uma relação já possuem a dúvida da infidelidade. Nesta perspetiva, o ciúme teria como função a manutenção da relação com o parceiro.” No entanto, o problema é outro: “Contrariamente a outros sintomas, que duram enquanto a causa se mantém, o ciúme perdura além das causas, pois pode iniciar-se mesmo sem elas. Na verdade, o ciúme pode surgir após uma traição, sendo que, a partir desse momento, a pessoa começa a imaginar novos quadros de infidelidade, existindo uma generalização. O outro passa a ser olhado como um potencial traidor, tendo início os comportamentos de controlo e os conflitos. Todavia, outros fatores podem justificar o ciúme, nomeadamente a baixa auto-estima, raiva, desconfiança, tristeza, incerteza relacional, interferência de terceiros e o tipo de relação.”

Estudo sobre o ciúme em Portugal

A psicóloga realizou um estudo com uma amostra de 1169 portugueses, concluindo que o ciúme não é uma característica maioritariamente masculina, antes pelo contrário: “É o sexo feminino que evidencia níveis mais elevados de ciúme, o que não significa linearmente que a mulher é mais ciumenta, podendo esta ter apenas maior facilidade em demonstrar o ciúme sentido.” No entanto, os ciúmes têm diferentes motivações em cada sexo: “Segundo a psicologia evolucionista, os homens, numa tentativa de se certificarem que os filhos gerados num relacionamento são seus, justificam o seu ciúme pela suspeita da traição da mulher. Já as mulheres, justificam o ciúme pelo medo de que seus companheiros se envolvam com uma rival, sendo o ciúme uma estratégia de manutenção da relação.”

 

Em conclusão, “os homens manifestam menor preocupação com a infidelidade emocional, sendo que a suspeita de infidelidade sexual é aquilo que mais afeta a sua auto-estima e, aparentemente, perante a infidelidade emocional os homens sentem menos ciúme e menos raiva. Já a mulher, partindo da ideia de que o homem tem sexo sem amor, preocupa-se mais com a infidelidade emocional, já que esta é representativa da existência de amor entre o parceiro e outra mulher, enquanto que na infidelidade sexual pode não existir amor.” Há ainda outra diferença de género na manifestação de ciúme, apontada por Catarina Lucas: “O ciúme por parte do homem está mais relacionado com o estatuto do rival, o que não acontece nas mulheres, cuja atratividade física da rival é mais importante. Por fim, o ciúme no sexo masculino pode manifestar-se de forma mais agressiva, física e emocionalmente, enquanto que no sexo feminino se denota uma diminuição da autoestima e desinvestimento em si, o que vai mantendo o ciúme e medo da perda.”

 

A história de Ana e Francisco

Neste ponto entra a história de Ana e Francisco. Junto desde o tempo da faculdade, onde se conheceu, o casal tinha 27 anos e planos de casamento quando Ana “pôs tudo em perigo”, explica Francisco. “Tinha uma colega de trabalho com quem trabalhava muito proximamente, pois formávamos dupla em quase todos os projetos. Pode parecer cliché, mas fizemos muitas noitadas a trabalhar, com pizza na mesa de trabalho. A Ana não gostava mas nunca levantou grandes problemas, até porque trabalhava na mesma área e compreendia que eu não tinha outra opção. O problema começou no dia em que elas se conheceram no jantar de aniversário de um amigo comum. Quando apresentei a Ângela à Ana percebi que ela agiu de forma estranha e, ao chegar a casa, fez uma cena de ciúmes enorme. A verdade é que a Ângela é uma mulher muito bonita e a Ana passou-se quando a viu, ficou irracional e só dizia disparates.” O casal esteve à beira da rutura e, numa tentativa de salvar a relação, Francisco saiu de casa por uns meses. “A Ana tornou-se impossível e estava a obrigar-me a escolher entre a relação e o trabalho só porque a minha colega era bonita.” Depois de alguns meses de separação e muito diálogo, o casal ultrapassou esta crise e, hoje, estão casados e felizes.

 

Segundo Catarina Lucas, “no amor torna-se bastante difícil definir o limite entre o ciúme normal e o patológico. Há quem diga que toda a relação pressupõe um determinado grau de ciúme com o intuito de testar o amor existente, já que a apatia pode revelar falta de interesse. Supõe-se então que o ciúme apresenta uma dimensão patológica quando causa sofrimento à pessoa que vivencia ciúme ou que é alvo do ciúme, afetando a relação.” Nestes casos, “o ciúme está permanentemente no pensamento do sujeito, torna-se omnipresente, diminuindo a capacidade de a pessoa se centrar em pensamentos alternativos. A partir deste momento não sofre apenas o ciumento mas também a pessoa vítima de ciúme. O alívio do desconforto causado pelo ciúme é conseguido através de comportamentos que visam a comprovação do comportamento do outro. O ciumento duvida de si mesmo e não necessita provas para acusar o parceiro.”

 

No entanto, o verdadeiro risco é quando a linha divisória entre imaginação e certeza se torna muito ténue. Aqui, “as dúvidas podem transformar-se em ideias hipervalorizadas ou delirantes e depois de instaladas segue-se a verificação compulsiva, a procura de provas de infidelidade e o questionamento frequente do parceiro. Este ciúme delirante é um conhecido fator de risco para a violência e homicídio.”

 

Nesta galeria, a psicóloga deixa algumas dicas para a gestão do ciúme na relação.

 

Por Joana de Sousa Costa

Artigo anterior

A alimentação na escola e a dose extra de preocupação

Próximo artigo

Sonhar com flores