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Fátima Cardoso: «O cancro é a nova epidemia»

Em 1900, uma em cada 20 pessoas sofria de cancro. Em cem anos, o número disparou para uma em cada três pessoas. Prevê-se que, daqui a dez anos, uma em cada duas pessoas venha a sofrer de cancro em algum momento da sua vida. Uma «epidemia», segundo Fátima Cardoso, vice-presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, que nos conta em que estado está a investigação no mundo, para tentar travar este problema.

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Têm surgido alguns estudos animadores que mostram que se está a fazer caminho em várias frentes para tentar encontrar a cura ou estabilizar a evolução do cancro. Pode explicar-nos as grandes linhas de investigação atuais?

Há várias coisas que temos em fase de experimentação. A terapia genética, que é a introdução de alguns genes dentro do tumor tentando que isso leve à morte das células tumorais, é algo que já se estuda há muito tempo. Mas sempre que se tentou passar para a parte clínica foi difícil por várias razões. Ou são tumores a que se tem acesso e se consegue injetar diretamente no tumor, ou então, se são tumores que estão em órgãos internos e tem de se injetar no corpo, tem muitos efeitos laterais porque afeta também as células normais. Uma das noções mais importantes que não podemos esquecer é: as células tumorais são células nossas, não são como uma infeção, não são um organismo externo. São células nossas que perderam a capacidade de autocontrolo e ganharam a capacidade de se dividirem muito mais do que as células normais e de se imortalizarem, ou seja, dificilmente morrem. Há algo que se chama ‘morte celular programada’, que todas as células têm: nascem, fazem a sua função e depois morrem. Mas as células cancerígenas não morrem. A terapia genética vai sempre atingir alguns genes que também existem nas células normais e, portanto, tem toxicidade.

 

Pelo facto de as células tumorais serem nossas células, conseguem escapar ao nosso sistema imunitário. Outro tipo de terapia é aquela em que se tenta ensinar o sistema imunitário a reconhecer estas células como anormais e passíveis de serem destruídas. É um tipo de imunoterapia e está na génese da investigação sobre as células dendríticas. As células dendríticas são glóbulos brancos que todos temos, e a função delas é assinalar o que não é normal para que outros glóbulos brancos as possam destruir. Mas, durante muitos anos, houve sempre a mesmo problema: era demasiado tóxico.

 

Depois, derivando desse tipo de tratamento em imunoterapia, no ano passado, finalmente, houve um breaktrough no melanoma. O medicamento que foi aprovado para o tratamento do melanoma realmente permite respostas muito boas num tumor que matava muito rapidamente, em cerca de seis meses. É um anti-PDL1 (programm death L1 – morte programada do L1). As células tumorais utilizam esse recetor para se esconderem e o que o medicamento faz é inibir esse recetor. É como se tirasse a máscara da célula tumoral, que passa a ser reconhecida como célula estranha, e o organismo consegue reagir contra ela.  É um dos sucessos mais recentes da imunoterapia mas, para já, tem funcionado apenas em tumores que são muito ligados à parte imunológica, como o melanoma. Nos tumores mais frequentes, os chamados tumores sólidos e complexos, como o cancro da mama, da próstata ou dos intestinos, não temos tido ainda grande eficácia. Mas continuam vários estudos e tentativas de utilizar este tipo de tratamento nesses tumores.

 

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Ainda dentro da imunoterapia, existiu sempre a vontade de desenvolver vacinas. Para já, a única que é eficaz é a vacina contra o cancro do colo do útero. E não é propriamente a vacina contra o cancro do colo do útero, mas sim contra o vírus responsável pela infeção crónica que depois leva a este cancro. Normalmente uma vacina é desenvolvida contra um micro-organismo, e a percentagem de tumores ligados a infeções é pequena. O cancro é essencialmente uma doença genética.

 

Está a tentar-se descobri um teste sanguíneo, uma análise que permita identificar precocemente a existência de um tumor. Isso permitira um diagnóstico mais precoce e assim uma maior probabilidade de cura.

 

É o mundo inteiro a investigar. A ciência está deveras avançada. Porque é que ainda não se conseguiu vencer esta doença?

É porque estamos a lutar contra nós próprios. Não é um organismo estranho, uma bactéria, um vírus que estamos a combater. Tudo o que as células tumorais têm existe também nas células normais. E sempre que tentamos fazer algo contra as células tumorais acaba sempre por ter consequências nas células normais. Nós costumamos dizer, a brincar, que se fosse para curar o cancro nos ratinhos já o tínhamos curado. O problema é que nós não funcionamos como os ratinhos de laboratório.

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