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O burkini e a liberdade

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Sou pouco de comentar nas redes sociais, até porque é um convite ao ataque imediato de acidez gratuita, muito provavelmente proveniente de imbecis. Perda de tempo, portanto. Foi, aliás, Umberto Eco que disse que «a Internet veio dar voz aos imbecis». E concordo com este grande estudioso da comunicação.

 

Porém, se há algo que me dá urticária e me obriga a comentar é quando o tema é liberdade. A minha e a dos outros. E, claro, tive de dar a minha opinião no meio dessa imensidão de posturas que se insurgiram contra ou a favor do burkini. Recorde-se que a cidade francesa de Nice proibiu as mulheres muçulmanas de irem à praia de burkini, uma peça completa de banho.

 

Compreendo o medo. Têm toda a razão em ter medo, aliás andamos todos com receio e já olhamos um pouco com mais atenção para quem anda ao nosso lado na rua. Mas isto é levar ao exagero esse mesmo medo. O medo não pode toldar a nossa ação e os nossos princípios.

 

O bom da Europa é que somos livres. Desde que a cara esteja descoberta (e sublinho isto), qual o problema em tomar banho vestido? A mim não me incomoda ver fio dental, burkini ou um mergulhador ou surfista todo coberto. Qual a diferença? É o corte da peça? Se somos livres, temos de defender os nossos valores e não respondermos na mesma moeda da intolerância.

 

Mete-me muita confusão aquele argumento de que quando as ocidentais viajam para alguns países muçulmanos também têm de se cobrir. Neste sentido, as muçulmanas cá têm de se adaptar aos nossos costumes. Desculpem, mas isto é mesmo descabido. Se promovemos a liberdade, a democracia e a tolerância, que sentido faz este argumento? Os estrangeiros não têm liberdade de vestir o que querem na Europa? Ou são só os muçulmanos? Mais uma vez digo, desde que a cara esteja destapada, cada um tem o direito de vestir o que bem entender. E se isso for dar um mergulho tapado, pois que seja. E os surfistas, e os mergulhadores, e as freiras, e os fatos chineses para proteger do sol?

 

O outro argumento de que assim deixamos passar um símbolo de opressão das mulheres muçulmanas também não me convence. Pois bem, também não gosto de ver mulheres a tapar os cabelos e muito menos sem sequer se ver os seus olhos. Mas essa libertação terá de começar dentro da sociedade muçulmana. Nós não conseguiremos chegar lá e destapar todas as mulheres. Será um caminho lento, de décadas ou talvez séculos. Nunca será pela força ou imposição. Muito provavelmente, esta geração nem se sentiria confortável em se descobrir mais. Lembro-me agora que a minha avó materna usava sempre lenço. Na geração seguinte, esse costume caiu em Portugal. As mulheres assim o quiseram.

 

Liberdade, liberdade. Não vamos deixar que outros nos façam perder o que tanto nos custou a ganhar. Somos na essência livres, democráticos e tolerantes. E assim devemos continuar.

 

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