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Nuno Cristiano de Sousa: «O défice de atenção não é uma doença da criança, é uma necessidade!»

Segundo os dados da DGE (2015), as crianças até aos 14 anos estão a consumir mais de 5 milhões de doses por ano de metilfenidato, o medicamento receitado para tratar a hiperatividade. São vários os casos mal diagnosticados desta patologia como se uma criança mais irrequieta fosse anormal. Consultámos a opinião do psicanalista Nuno Cristiano de Sousa sobre o caso. Saiba mais.

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Como se define a hiperatividade?

O termo deriva de uma avaliação psiquiátrica, estando o diagnóstico baseado numa perspetiva biológica. Quer isto dizer que as causas desta patologia são atribuídas a disfunções biológicas no cérebro que se atribuem principalmente a causas genéticas e hereditárias. No entanto, a investigação clínica demonstra que há outros fatores associados. A hiperatividade não é por si só uma condição, mas o sintoma de uma conjugação de fatores. Podemos considerar a hiperatividade como um sintoma de ansiedade nas crianças. Como as crianças ainda têm poucas capacidades de resolução de problemas que as preocupam, quando vivem em permanente estado de angústia, tendem a manifestar agitação motora e dificuldade de concentração. Embora não seja exatamente a mesma condição, imagine-se um adulto que, quando está ansioso, tem dificuldade em estar concentrado no trabalho e demonstra um estado físico de tensão.

 

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Qual é o quadro clínico para uma criança ser diagnosticada com a patologia?

O diagnóstico no sistema nacional de saúde é feito com base no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), que discrimina uma lista de 9 critérios, dos quais a criança deve cumprir 6 para que seja considerada hiperativa. O mesmo critério aplica-se para o diagnóstico de défice de atenção. Até à edição DSM-IV-TR, o diagnóstico juntava hiperatividade com défice de atenção, atualmente são categorias diferentes. Alguns desses critérios são agitação motora quando está sentado, corre ou salta em situações em que é inadequado fazê-lo, tem dificuldades em esperar pela sua vez em atividades. Na clínica psicanalítica são considerados outros fatores para analisar este quadro. Tenta-se perceber de que forma é que a criança se relaciona com quem lhe é mais próximo e que preocupações e inseguranças vive em função disso. Nestes casos, tendencialmente são crianças que se preocupam muito com as expetativas externas, têm uma autoimagem de quem não tem muitas competências intelectuais e por isso sentem muito medo de falhar, principalmente em objetivos académicos. Também são crianças que frequentemente imaginam que podem ser um transtorno para os adultos e, por isso, sentem que não podem obter grande afeto e apoio dessas relações.

 

O que faz um remédio para a hiperatividade?

A medicação típica é o metilfenidato (Ritalina, Concerta), que é uma anfetamina que aumenta a produção e reaproveitamento de neurotransmissores no cérebro, como por exemplo a dopamina e a norepinefrina. Estes neurotransmissores têm a função de produzir prazer em resposta a acontecimentos positivos na vida do indivíduo, recompensando a aquisição de novos conhecimentos ou capacidades (aprendizagem), progresso nas relações sociais, relações emocionais e outros eventos. O aumento artificial da dopamina vai ativar a sensação de recompensa e deixar a criança com uma pseudo-sensação de confiança. No entanto, a recompensa não deriva necessariamente do processo de aquisição interna de competências, ou de uma real satisfação de bem-estar.

 

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Segundo os dados da DGE (2015) as crianças até aos 14 anos estão a consumir mais de 5 milhões de doses por ano de metilfenidato. Como atua a medicação psiquiátrica no cérebro de uma criança?

Em traços gerais, o efeito da medicação psiquiátrica não é o de produzir a cura sobre uma doença fisiológica, como quando tomamos antibióticos para matar uma bactéria e ficamos curados. A medicação tem o efeito de compensar quimicamente sentimentos negativos que provocam uma desorganização na vida da criança. Estando a criança com os sentimentos controlados através da medicação, talvez consiga perceber as alterações a introduzir na própria vida, mas não necessariamente, daí a medicação ser verdadeiramente útil quando utilizada em paralelo com uma psicoterapia, cujo objetivo é ajudar a encontrar recursos internos para superar as dificuldades.

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