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Nuno Gama à conquista do mundo

No ano em que comemora 20 anos de marca, o estilista apresenta-se no Brasil e lança linha de produtos gourmet

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Que expetativas tem então para o Brasil?

Já não tenho. Tenho um sonho que é conquistar o mundo com o meu trabalho e com isso ajudar a recuperar a cultura portuguesa. Por isso, não vou para o Brasil à espera de realizar dez negócios, vou com a esperança de encontrar os meus pares e de criar estrutura para as coisas poderem avançar.

Mas a marca assenta bastante nos símbolos nacionais.

Sim, mas eu tento fazer isso do ponto de vista internacional. Ou seja, da mesma maneira que os turistas vêm a Portugal e dão valor às nossas coisas, ao pastel de nata, ao galo de Barcelos, ou seja, à nossa iconografia, eu tento transformar isso numa vertente conteporânea, tanto na forma de ver como de fazer. Tento com a nossa cultura ir ao encontro dos outros.

Como é que surgiu a incorporação dos símbolos nacionais que estão sempre presentes nas suas coleções?

Foi desde o início. Tudo isto tem a ver com a minha própria realidade, que é esta condição de ser português. Posso ser mais ou menos internacional, mas este é o meu ser. É o sol que apanhei, a comida que comi, o vinho que bebi, as gargalhdas que dei, a infância maravilhosa que tive na serra da Arrábida… É a minha realidade,  tenho orgulho nela e não gosto que a olhem de forma depreciativa.

Acho que houve uma grande evolução. Mas primeiro que tudo temos de perceber que a moda portuguesa é um fenómeno novo, que cresce com um handicap, no período de recessão da indústria textil nacional. Não ajuda nada à moda. Perante uma indústria textil com dificuldades – uns mais que outros – há também que perceber quem trabalha o quê e como. Deveria haver mais união entre as pessoas. Por vezes há industriais a criar marcas, mas pode ser complicado para eles porque não é o seu metier. Fazer uma marca não é só juntar umas peças, é muito mais do que isso. E se calhar fazia muito mais sentido haver um intercâmbio entre todos nós. No fundo, estamos aqui a perder um negócio de milhões no mundo. Poderíamos fazer concorrência e continuamos a não fazer nada.

Então acha que o problema na moda portuguesa é a falta de diálogo entre todos?

Acho que faltam aqui várias coisas. Há intervenientes a mais a destabilizar todo o sistema. O facto de haver um evento em Lisboa e outro no Porto é um exemplo. Depois há várias pessoas a falarem várias línguas diferentes e a “puxarem a brasa à sua sardinha” e a puxarem pouco a brasa ao nosso país. Era importante que qualquer governo que tenhamos pense o quão importante é esta realidade. Porque existem aqui patrimónios que já geram milhões. A nossa indústria textil é muito boa. Existe também uma geração mais nova, com novas linguagens, que estão com muita vontade de fazer coisas. Fazem-se investimentos em mais do mesmo, quando há aqui um potencial gigantesco.

E em termos criativos, estéticos, o que acha da moda que se faz por cá?

Acho que a moda portuguesa é exatamente igual à moda de qualquer outro país. A moda, há uns anos atrás, era francesa, italiana, japonesa… hoje em dia é do mundo inteiro. A Internet introduziu democratização também na moda. E o que é bom, autêntico, que marca diferença e é bem feito tem pernas para andar em qualquer parte do mundo. É isso que as pessoas esperam da marca, do que a marca tem para dizer. No fundo, estamos a falar de roupa igual ou parecida a muita outra, o que muda é a alma que lá está dentro.

Aí está bem posicionado porque imprime muito a cultura portuguesa nas suas peças.

Eu não estou nem bem nem mal. É esse o meu cariz. Cada um tem de descobrir a sua própria linguagem, e todos nós temos algo a dizer.  Se nos sentassemos todos a uma mesa, com um livro de culinária e os mesmos ingredientes, nenhum prato sairia igual, porque todos somos diferentes. E é essa diferença que é preciso ter a coragem de pôr cá fora e dar aos outros.

Como caracteriza então a moda Nuno Gama?

Há uma reminescência de elegância algures no processo criativo. Gosto muito dos gentlemen, dos dandy, ou seja, dos elegantes da nossa história. Mas gosto também  de destabilizar essa parte, à minha maneira, com sentido de humor e com todas as ferramentas que utilizo, como as ironias do contemporâneo, na forma de fazer, na construção.. . é a maneira como se perverte tudo isso e se embala no final. Acho que o Nuno Gama acaba por ser um homem contemporâneo que tem uma vida cosmopolita. Eu não faço coleções para portugueses fechados em Portugal, faço coleções para cidadãos do mundo. A minha função é ter uma resposta para todos os contextos da vida do meu cliente.

Daí ter todo o tipo de peças, calçado, acessórios, joias…

Sim. E neste momento estamos a preparar uma linha completa de gourmet, que vai sair antes do final do ano, composta por azeite, vinho, azeitonas, etc.. Vai sair também um  livro. Estou ainda a trabalhar no relógio Nuno Gama, que terá um cariz muito português.

Porque hoje em dia é preciso diversificar…

Sim, e as pessoas esperam isso. Uma marca é como um sistema solar, com vários planetas à volta. Há um centro sobre o qual as coisas andam à volta, e aquilo que eu posso fazer é infindável.

Quando é que começou a lançar estes produtos paralelos?

Foi ao longo de todo o percurso e quando foram aparecendo os parceiros certos. Às vezes, quando estou a desenhar uma coleção, tenho uma ideia, mas depois penso como o poderei fazer? Onde está a pessoa certa que faz isto bem feito, a tempo e horas e pelo preço correto? É preciso reunir estas condições todas. É preciso ter os parceiros para desenvolver os produtos. A explicação para eu ainda não ter feito a coleção de senhora é exatamente essa. Ainda não encontrei os confecionadores certos para desenvolver um produto feminino equivalente ao que tenho no masculino.  O núcelo masculino já se habituou a um grau de qualidade que no mínimo é bom. Tento o excelente sempre . O que quer que se faça dentro da marca tem de ter esse padrão de qualidade.

Mas já tem esboços?

Tenho muita coisa. Vou oferecendo aos meus amigos.

E em relação a estes 20 anos que passaram, que balanço faz?

Passaram a voar. Continuo a adorar fazer o que faço, continuo fascinado pela descoberta das coleções que quase têm vontade própria.  E apesar das intempéries e das pedras todas que encontrei pelo caminho – que me ajudaram a crescer – é genial ver as descobertas que fazemos e a força que descobrimos que temos. Os 20 anos também é isso, é mais maturidade, segurança, tranquilidade e objetividade.

A maior pedra foi o incêndio em 1998. Perdeu tudo?

Sim. Tinha 12 lojas nessa altura. Estava a começar a fazer os desfiles lá fora. Tinha loja já no Luxemburgo, já estavamos a preparar abrir em Paris… e em duas horas foi-se tudo. Ardeu tudo o que tínhamos. Acabou ali aquela etapa.  Foi exatamente numa altura (outubro) em que estavamos a fazer a transição do que ía para as lojas, tinhamos o material em armazém e com o prejuízo que tivemos foi impossível recuperar. Quase que ia morrendo também. Durante muito tempo tive a sensação de solidão, de não ter sentido na vida, de não ter vontade de fazer nada. É um momento muito complicado que não desejo a ninguém. Eu trabalhava para aquilo 24h por dia e de repente o que é que isso vale perante a própria vida? É muito complicado nós percebermos que nos esforçamos muito por uma coisa, colocamos lá todas as nossas energias e depois a vida troca-nos as voltas. Achamos que não é justo e questionamos o que se passa.

E o que aprendeu com tudo isso quando se questionou?

Hoje em dia sou uma pessoa completamente desprendida. Primeiro jogo pelo seguro em relação às coisas. E sou muito mais ligado à relação que tenho com a minha família, com os meus amigos, com as pessoas de quem gosto. Mesmo com aqueles com os quais não tenho relação, faço disso um desafio e tento perceber porque não conseguimos ter uma melhor relação. Tento aprender com essas pessoas e evoluir de alguma forma. No fundo, acho que sou uma pessoa muito mais metafísica. Sou mais ligado à relação, à forma como se vivem as coisas do que propriamente à parte material. O material não vai comigo quando morrer. Acho, sim, que temos que dar o nosso melhor, mas é agora, aqui, neste momento.

Acha que ficou então uma melhor pessoa?

Eu acho que não era má pessoa, mas acho que fiquei muito mais forte e com muito mais capacidades do que tinha anteriormente. Os “males que vêm por bem” muitas vezes é a maneira que a vida encontra para nos ensinar coisas.

E depois como voltou?

Fiquei algum tempo a lamber as feridas. Depois disso, o comendador Joaquim Cardoso convidou-me para ir para a Maconde como coordenador de moda masculina. Fiquei lá com eles e recuperei novamente o bichinho que tinha dentro de mim, a vontade de voltar a fazer coisas. E depois chegou uma altura que já era mais forte do que eu. Lembro-me que houve uma ModaLisboa em que eu só pensava que tinha de voltar. Eu queria dizer coisas. Eu estava ali a rebentar a assistir aos desfiles, porque aquilo estava tudo dentro de mim. Eu tinha caderninhos onde desenhava coleções. Não deixei de o fazer, só que era para mim. E voltei em 2004, com uma imagem nova, um novo logotipo.

Onde se vê daqui a 20 anos?

Aonde a vida me levar. Não tenho essa espetativa. Isso perdi com o incêndio. Construo a marca todos os dias e concerteza que um dia gostava de a deixar nas mãos de alguém que a levasse de alguma forma.

Pensando então num tempo mais próximo, já está a pensar na próxima coleção, a da primavera/verão 2014?

Já, sim. Apetece-me falar da minha infância, da  Arrábida. Eu sou um workaholic, tenho que assumir, não consigo desligar-me e estou sempre a trabalhar. E, neste momento, eu gostava de dizer às pessoas o quão fantástica foi a minha infância, o que recordo dessa altura e é giro para se usar hoje. Eu passei a  minha infância com calções de xadrez e t-shirts às riscas. Acho gira essa imagem. Estou a rever o que eu tenho na minha memória do vestuário dos Anos 70 que eu possa então trazer para agora.

Por Sónia Santos Dias

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