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Miopia, uma epidemia escondida entre as crianças

A OMS estima que 52% da população mundial sofra de miopia em 2050. Os fatores genéticos não são suficientes para justificar um aumento tão avassalador, sendo a excessiva exposição aos dispositivos eletrónicos apontada como a grande causa para este aumento. Refrear a utilização diária dos dispositivos por parte das crianças é urgente, para que não ajudem a engrossar as estatísticas.

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«É um número absolutamente avassalador, caracterizado pela Organização Mundial de Saúde como uma epidemia. Está a agravar-se e é uma situação muito preocupante, até porque se prevê que cerca de 10% destes 52% serão altos míopes, ou seja, 1000 milhões de pessoas terão mais de que seis dioptrias de miopia. E as miopias elevadas estão associados a problemas significativos do ponto de vista patológico. São pessoas que têm mais probabilidade de ter glaucoma, cataratas, degeneração da retina, vários tipos de degeneração que conduzem normalmente à incapacidade visual», começa por alertar Raúl de Sousa, presidente da Associação de Profissionais Licenciados de Optometria (APLO).

 

No ano 2000, a prevalência de miopia na população era de 22%, segundo um estudo global da OMS, que concluiu que estes aumentos documentados da prevalência da miopia e da alta miopia em todo o mundo são um sério problema de saúde pública, a crescer a cada ano até atingir metade da população mundial em 2050.

 

Os dispositivos eletrónicos – computadores, telemóveis, tablets, etc.- fazem parte da vida de todos nós, hoje em dia, tanto nos momentos de trabalho e de estudo, como de lazer. E as crianças não fogem à regra, sendo expostas aos mesmos desde muito cedo. A utilidade da sua ubiquidade para nos dar a informação que queremos no momento, para nos ajudar a realizar tarefas ou para nos facilitar a comunicação com os outros é indiscutível. Porém, o seu uso desregrado está associado a vários problemas visuais.

 

VEJA TAMBÉM: MIOPIA? ASTIGMATISMO? CUIDADOS REDOBRADOS COM A SAÚDE DA VISÃO DAS CRIANÇAS

 

Uso excessivo de dispositivos eletrónicos

O número excessivo de horas em visão próxima, postura corporal incorreta, distância de trabalho inadequada, brilho excessivo e exposição a radiação potencialmente perturbadora do ciclo circadiana são alguns exemplos de problemas promovidos pelo uso excessivo dos dispositivos eletrónicos. Hiperemia, visão desfocada, diplopia, tendinites, dores musculares, stress psicológico e fadiga ocular são alguns do sinais e sintomas apresentados pelos utilizadores destas novas tecnologias, segundo a APLO.

 

No caso das crianças, é demais evidente os danos definitivos que o tempo excessivo à frente de um ecrã está a provocar. Relativamente à miopia, que se caracteriza pela dificuldade de ver ao longe, Raúl de Sousa esclarece que «há um conjunto genético que está fortemente associado ao seu desenvolvimento. Mas aquilo que verdadeiramente mudou nos últimos anos foi a utilização muito frequente de dispositivos eletrónicos e uma adoção de um modo de vida muito afastado daquilo que era a atividade ao ar livre».

 

«Só a genética não chega para explicar o que está a ocorrer»

 

Esta situação já se nota fortemente em algumas geografias do mundo decorrentes do seu estilo de vida. «Em determinados países asiáticos, como Singapura, mais de 80% da população é míope. Ou seja, só a genética não chega para explicar o que está a ocorrer. Percebe-se que há estes fatores associados à falta de exposição ao ar livre e de prática de atividade física e que vão representar uma limitação significativa», acrescenta o presidente da APLO.

 

Ou seja, «o comportamento é que é um comportamento de risco: o passar um número de horas muito elevado em visão próxima. Não são os dispositivos eletrónicos que têm de ser diabolizados. Por exemplo, ler faz bem e é um excelente exercício para o cérebro, mas ler durante oito horas também não é recomendado».

 

Pandemia agrava situação

Se o excesso de exposição a dispositivos já era uma realidade antes da pandemia, esta veio aumentar ainda mais esta exposição, ao impôr a redução de atividade física no exterior e consequente falta de exposição à luz solar. Tudo fatores que agravam o desenvolvimento regular e saudável da criança.

 

Na saúde visual, os efeitos também se fazem sentir. A OMS já considera a miopia a epidemia do século XXI, prevendo os já referidos 52% de pessoas a sofrerem de miopia a meio do século. Em abril deste ano, um estudo específico realizado na Argentina, sobre o desenvolvimento de miopia em crianças em confinamento, no decorrer da pandemia de COVID-19, concluiu que «as taxas médias de progressão anual durante o confinamento domiciliário da pandemia foram mais rápidas do que no ano anterior, em contraste com a desaceleração geral da progressão à medida que as crianças envelhecem».

Carolina Picotti, médica, oftalmologista pediátrica e autora deste estudo publicado na revista The Lancet, explicou ao jornal El País que os raios solares libertam dopamina na retina, e que esta substância evita que o globo ocular se torne mais longo, resultando em miopia. «Se as crianças não saem para o ar livre e não recebem luz de sol, os seus corpos não geram este neurotransmissor e a doença dispara. Nenhuma luz artificial pode substituir os raios solares na geração de dopamina».

 

De acordo com Picotti, as conclusões do trabalho, que teve a participação de mais 16 oftalmologistas de todas as regiões da Argentina, demonstram que a miopia dos participantes, com idades entre 5 e os 18 anos, cresceu em média 40% entre 2019 e 2020, o ano em que estiveram em confinamento. «A percentagem de aumento da miopia não só é muito alta como também confirma a hipótese de que os fatores ambientais e não só os genéticos podem intensificar ou atenuar esta doença», declarou ao jornal.

 

Raúl de Sousa assinala que se «a situação já era de epidemia, de repente, explodiu por completo. A pandemia só veio acelerar esta situação, porque passámos a dizer para terem aulas e fazerem mais coisas nos dispositivos».

 

Carolina Castro, 10 anos, é uma dessas crianças. A pandemia apanhou-a quando frequentava o terceiro ano e na altura apenas tinha permissão para usar o telemóvel aos fins-de-semana e durante pouco tempo. A chegada da pandemia trouxe a necessidade se ligar aos amigos e à escola através de uma intensa utilização de ecrãs, tanto no telemóvel como no computador. Recentemente foi diagnosticada com miopia. «Reparámos por acaso que ela não conseguia ler uma placa indicadora num centro comercial e marcámos logo uma consulta junto de um optometrista. O diagnóstico foi uma surpresa, porque nenhum dos pais tem qualquer problema visual e aos 5 anos, numa consulta com um oftalmologista, verificámos que estava tudo bem. Se ela não teria desenvolvido miopia, caso não tivesse havido pandemia e este excesso de utilização de ecrãs, é algo que nunca saberemos», comenta a mãe, Sandra Castro.

 

No sentido de atenuar os efeitos nocivos desta situação, a APLO disponibiliza algumas recomendações sobre telescola, teletrabalho e ergonomia visual, onde explica, por exemplo, a posição correta a estar no computador, a iluminação, mas sobretudo onde se recomenda fazer intervalos a cada 10-15 minutos, fixando um objeto longínquo por alguns segundos. Sendo que se entende por objeto longínquo algo que fique no fundo da divisão, a partir de 5 metros de distância, sensivelmente. Ao fim de 30 minutos, deve-se fazer uma pausa de 2-3 minutos e ao fim de 2h deve-se parar por 15 minutos.

 

O que fazer para prevenir a miopia

Tendo toda esta informação nas mãos, o que fazer para travar ou ajudar a prevenir que a miopia se desenvolva nas crianças?  «Vamos começar por preveni-la. Para preveni-la, necessitamos de limitar o a exposição a estes dispositivos eletrónicos. Antes dos dois anos de idade, não deveríamos estar expostos a dispositivos eletrónicos. Daí para diante, as recomendações da Organização Mundial de Saúde é que não se ultrapasse meia hora por dia. E a partir dos seis anos e daí em diante ninguém deveria ultrapassar mais de uma hora em dispositivos eletrónicos – telemóvel, computador, tudo o que se passa ao alcance do braço», assinala Raúl de Sousa.

 

De salientar que a miopia não é reversível, uma vez instalada, dado que o olho se desenvolveu nesse sentido. «A miopia não tem cura, a miopia pode ser mitigada no sentido em que podemos retardar a sua progressão e evitar que se entre naquela miopia alta que tem consequências patológicas que podem já não ser sequer tratáveis e que conduzem à incapacidade visual», explica o optometrista, que acrescenta: «Há obviamente tratamentos cirúrgicos como, por exemplo, cirurgia a laser, pode-se fazer implanto-refrativa, que é colocar numa lente dentro do olho, mas isso não retira aquilo que é um olho míope».

 

Exposição a dispositivos eletrónicos:

0 – 2 anos: nenhuma

2 – 6 anos: máximo 30 minutos/dia

6 – adulto: máximo 60 minutos/dia

 

Portanto, para evitar tudo isto, é aconselhável não exceder a exposição a ecrãs, manter atividade física ao ar livre e testar a visão da criança com exercícios simples em casa para verificar se existe algum problema.

 

Como? «Sentando-se no sofá, olhando para os rodapés dos noticiários, tapar um olho e constatar se a visão é igual num e noutro. Este é o primeiro sinal nas crianças. A outra avaliação da visão requer obviamente um especialista. Por isso, ir à consulta de um optometrista é também algo que deve ser colocado nos hábitos de todos os portugueses. Outra coisa que podemos também fazer é perceber a postura. Por exemplo, a criança aproxima-se das coisas para ler? Este é um sinal típico de miopia. Tem dificuldades de aprendizagem? Mal há indícios de um problema de aprendizagem a primeira coisa a ser testada é a visão, porque é normalmente o problema mais frequente», explica Raúl Sousa.

 

Deve-se também implementar a regra dos 20|20|6 para atividades ao perto, nomeadamente na leitura, ou seja, 20 minutos de leitura ao perto e vinte segundos de descanso ao longe a seis metros, distância já considerada ao longe. Isto porque «quando olhamos para o outro lado da sala, estamos a descansar os olhos, porque eles quando olham para perto contraem um músculo e a permanência desse músculo em contração durante muito tempo está de facto associada ao desenvolvimento da miopia», explica o optometrista.

 

Quanto mais cedo a miopia for detetada e tratada, melhor. Assim, caso se detete alguma irregularidade no dia a dia, deve-se procurar um ortopedista devidamente certificado para fazer o despiste. Uma vez que «se tiver uma boa estimulação, o organismo desenvolve-se o melhor possível. E boa estimulação é mostrar ao olho o que é que é ver bem e pô-lo a trabalhar naquilo que é a sua capacidade total», finaliza o presidente da APLO.

 

20/dezembro/2021

 

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