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Mértola: pelos caminhos perdidos do contrabando

Era pela calada da noite que dezenas de homens e mulheres percorriam os trilhos mais difíceis pelo mato e atravessavam as águas fronteiriças entre o Baixo Alentejo e a Andaluzia espanhola – nus e com a roupa atada à cabeça - com 25 kg de ‘carga’ às costas. Entre as décadas de 1930 e 1960, o contrabando fez parte destas gentes, como forma de sobrevivência. E não há aldeia ou monte que não tenha histórias para contar. Agora, essa experiência difícil vai poder ser (um pouco) vivida em percursos noturnos que vão arrancar em maio.

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Daqui à fronteira com Espanha é pouco mais de meia hora a andar, e a seguir está Puebla de Gúzman. Mas a malta que não tinha trabalho ia mais longe, a Villa Nueva del Castelejo, Trigueiros ou a Társis. Mas aí já eram duas ou três noites a caminhar, porque eles só caminhavam de noite. De dia tinham de estar quietos para ninguém os ver. Quando a ribeira enchia e não dava passagem, eles passavam através de cordas. Tinham ferros na terra, nos dois lados, e cordas escondidas. E ia um amarrado a passar a ribeira – se a água o levasse os outros puxavam-no – e já do outro lado amarrava a corda nos ferros escondidos na margem espanhola. E passavam assim as cargas e eles também.

 

Às vezes, os contrabandistas tinham três ribeiras para passar, Bica, Malagão e Chança. Amarravam a roupa num fio e punham à cabeça. Punham as duas pontas do fio na boca. Passavam nus, de inverno e tudo, gelados. Era muito ingrato. Um vizinho meu morreu afogado na ribeira. Além da carga que levavam, se fossem 3 ou 4 dias, tinham de levar comida: 2 ou 3 latas de conserva, chouriço, toucinho e pão. Bebiam nos barrancos e nas fontes que só eles conheciam. A carga estava salvaguardada por plásticos, para não se estragar na ribeira.

 

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Os vizinhos sabiam quem era contrabandista. Isto era um meio pequeno. Os que não trabalhavam na mina quase todos faziam contrabando. Às vezes, eram quadrilhas grandes. 12, 13, 14. Vinham de outros montes e juntavam-se aqui nos Sapos. Eles escondiam a carga no palheiro do meu avô e nos de outros. Ao lusco-fusco abalava tudo em fila. Eu era pequenino e via-os abalar. Mas iam espaçados, 3 ou 4, e depois mais outros 3 ou 4, porque se os apanhassem não os apanhavam todos.

 

Na verdade, eles [a Guarda Fiscal] não tinham muito interesse em apanha-los. Eles queriam era o café ou o açúcar, as mercadorias que eles levavam. Porque se os prendessem tinham de lhes dar de comer. Eles até lhes davam oportunidade para fugirem. Mandavam um tiro ou dois para o ar para eles largarem a cargas e fugirem. Depois a carga era entregue à alfandega que havia na Mina de S. Domingos. Os guardas estavam logo à saída dos montes, era aqui, nos Bens, em Santana, Salgueiros… porque nos campos eles não sabiam por eles onde passavam. Mas das povoações tinham de sair.

 

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Havia também quem mandasse e tivesse uma quadrilha própria. Esses é que ganhavam o dinheiro e fizeram fortunas. Quem quisesse falava com eles e arranjavam carga para levar. Havia um preço mais ou menos tabelado. Alguns tinham 20 ou 30 contrabandistas à conta deles. O contrabandista era o que ganhava menos.

 

Também sempre houve maldade entre pessoas do mesmo ofício. Eu recordo-me de que, numa noite, abalaram daqui vários contrabandistas, isto há mais de 50 anos. Há um individuo que teve uma desavença. Era 4 ou 5 que iam daqui e esse individuo a 800 metros daqui pôs-se de noite com uma capa vestida e quando os contrabandistas iam a passar pensaram que eram guardas e largaram as cargas e fugiram. Ele escondeu-as. Mas alguém desconfiou dele e nessa noite foram ter com ele a casa e disseram-lhe que ou devolvia as cargas ou teria problemas. E ele devolveu.

 

Eu recordo-me também de, quando estava no Pomarão, um guarda ter ido ao poço com uma enfusa buscar água. E sentiu um barulho. Então, era um contrabandista que vinha denunciar os colegas ao guarda. Aquilo era desavenças entre eles. Ou os outros não o queriam na quadrilha deles ou era outra razão, e ele revoltava-se e denunciava-os. Era assim…».

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