Home»LAZER»DICAS & VIAGENS»Mértola: pelos caminhos perdidos do contrabando

Mértola: pelos caminhos perdidos do contrabando

Era pela calada da noite que dezenas de homens e mulheres percorriam os trilhos mais difíceis pelo mato e atravessavam as águas fronteiriças entre o Baixo Alentejo e a Andaluzia espanhola – nus e com a roupa atada à cabeça - com 25 kg de ‘carga’ às costas. Entre as décadas de 1930 e 1960, o contrabando fez parte destas gentes, como forma de sobrevivência. E não há aldeia ou monte que não tenha histórias para contar. Agora, essa experiência difícil vai poder ser (um pouco) vivida em percursos noturnos que vão arrancar em maio.

Pinterest Google+

Nas décadas de 1930 e 1960, um conjunto de circunstâncias criou as condições ideias para se gerar um intenso contrabando entre as zonas fronteiriças do Baixo Alentejo e da Andaluzia, em Espanha. (Veja imagens na galeria acima).

 

Café, amêndoa, farinha, ovos, grão, feijão, açúcar, entre outros víveres, eram passados pela calada da noite para Espanha, que vivia as dificuldades da Guerra Civil Espanhola (1936-39) e posterior regime fascista, do General Franco. De lá, vinham para um Alentejo profundamente pobre e sem condições tabaco, sapatos, alpergatas, perfumes, roupa, isqueiros… e outros bens que dificilmente circulavam num país debaixo de uma dura ditadura, o Estado Novo (1933-74).

 

VEJA TAMBÉM: MÉRTOLA, A VILA MUSEU

 

E era assim, à luz das estrelas e ao som dos animais da noite, que homens e também algumas mulheres se aventuraram, de forma intensa por mais de três décadas, para conseguirem fazer face às condições difíceis da vida de então. Na região, trabalhava-se no campo ou na Mina de S. Domingos (em atividade entre 1854 e 1966). Mas mesmo os mineiros encontravam no contrabando um complemento para a vida difícil que levavam.

 

Em todas as localidades raianas havia contrabandistas. Santana de Cambas, onde existe atualmente o Museu do Contrabando, Sapos, Montes Altos, Pomarão, Mina, Roncão, Espírito Santo, Bombeira, Mesquita, etc, etc, etc..  Começavam aos 15 e aos 50 anos de idade ainda poderiam andar de saco às costas. Por vezes, contrabandistas e elementos da Guarda Fiscal (um corpo de força pública organizado militarmente para o serviço de fiscalização dos rendimentos do Estado) pertenciam à mesma família.

 

O movimento era tal que, entre Mértola e Vila Real de Santo António, onde desagua o rio Guadiana, no Algarve, existiam 26 postos de vigilância da Guarda Fiscal. E por lá continuam, umas edificações cor de rosa ao longo do rio. Mas os mais temidos eram os espanhóis Carabineros. Segundo os Cadernos do Museu do Contrabando, eram diferentes os modos de atuação: «Depois da Guerra de Espanha, a Gaurdia Civil é dona e senhora de uma pistola-metralhadora que lhe deram; a Guarda Fiscal é responsável pela espingarda e pelas munições que lhe confiaram. Eles (os espanhóis) poderão despejar as munições que ninguém lhes perguntará onde e porque o fizeram. Nós (os portugueses) teremos de elaborar um relatório por cada bala que falte no cartuchame, pagando-a do próprio bolso, se se provar que foi gasta contra os interesses o Estado, Por isso, o contrabandista sabe que, acima de tudo, o que interessa em primeiro lugar ao Guarda Fiscal não é a sua vida, mas a sua carga».

 

VEJA TAMBÉM: CÉU NOTURNO DE MÉRTOLA CERTIFICADO COMO DESTINO TURÍSTICO STARLIGHT

 

E tudo se passava assim…

Uma viagem pelos montes e aldeias da região e dois dedos de conversa com as pessoas de mais idade resulta em múltiplas histórias de outros tempos. De coragem, de dureza e de medo. Manuel Bernardo Pereira, 76 anos, vive na localidade de Sapos e é filho e irmão de contrabandistas, já falecidos. E este é o seu testemunho.

 

«O meu pai trabalhou cerca de 30 anos na mina. Eles só descansavam ao domingo. Começavam às 8h00 da manhã e saiam às 16h00. Portanto, tinham essa tarde e noite livre para, ele e outros, irem a Espanha fazer contrabando, para ganhar mais algum a juntar ao da mina que era poucochinho. Uns levavam café, ovos, e em troca traziam dinheiro e encomendas das pessoas daqui, que pediam para eles trazerem sapatos, perfumes, sabonetes, roupa… havia muita necessidade cá. Também havia senhoras que traziam as combinações vestidas, porque, às vezes, quando eram apanhadas, iam à ‘apalpadeira’. Conheci várias mulheres que fizeram contrabando.

Artigo anterior

Mantraterapia: som, vibração e energia

Próximo artigo

Conheça nove raças de cães raras