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Mapa para a (in)satisfação sexual

Espero não induzir o leitor em erro. Este não será mais um texto/mapa para o conduzir à satisfação sexual, ou para evitar o aborrecimento. Se o título a tal induz, será mais justo desenganá-lo já. E com toda a certeza encontrará rapidamente outras linhas cujo intento será facilitar-lhe o encontro amoroso ou oferecer-lhe algumas propostas para revolucionar a sua vida sexual.

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A forte mediatização do tema ‘sexo’ leva-nos a ser constantemente invadidos com mensagens sobre este. Pela cadência e intensidade com que surgem, torna difícil a nossa imunidade às mesmas. Quase todas nos levam ao mesmo ponto: a ideia de que há um padrão para atingir o bem-estar sexual, ao qual dificilmente se pode escapar, se queremos ser felizes em plenitude. Uma das vigas mestras deste padrão é a ideia de não podermos ser completos sem o desejo intenso do encontro sexual e a de que, para que ele seja satisfatório, deve ter determinadas características, tais como o tempo de duração, performance, frequência ou a idade dos atores em causa.
Existem por isso mapas para todos os gostos ou necessidades. Sejam as dez dicas da semana para ser mais eficaz na arte de dar prazer a um companheiro. Sejam as pistas para ter a noite mais louca ou para despertar o impulso sexual desaparecido no seu companheiro ou companheira – há das mais variadas sugestões para os trazer de volta à “normalidade” e que prometem até fazer levantar os mortos de tanto prazer que vão sentir.

 

Para os que se sentem atacados pela insegurança encontrarão quizzs para saber se ainda é amado/a ou se se relaciona com um(a) traidor(a). Se a sua preocupação for o orgasmo, algum mapa lhe dirá os passos a seguir para o atingir. Talvez, para que não restem dúvidas se alcançou ou não o céu, até lhe expliquem como é que nós, as máquinas humanas, nos sentimos no clímax do prazer. Para os que procuram diversificar ou inovar, terão sugestões sobre os melhores lugares, posições, manobras (algumas arriscadas) etc, etc, etc..

 

A única advertência é a de seguir as instruções sem ambivalências, tal a complexidade das mesmas e preparar-se fisicamente para um momento (às tantas mais parece que estamos a falar de um confronto) que pode ser deveras exaustivo. E pronto! Com isto, ficam de fora da equação os doentes cardíacos e os acima dos 50, por serem um grupo de risco ou porque – escutemos os nossos juízes! – nestas idades o sexo já não tem a importância de outros tempos da vida – lei é lei! (não da natureza, mas dos homens, claro está).

 

Também a nossa comunidade cientifica canaliza parte da sua energia para descobrir pílulas indutoras de desejo, porque apesar de tudo parece ser mais fácil provocar o que não existe ou não está a acontecer do que aceitar o que e como se deseja. Outras invenções mais fáceis estão já a caminho ou já foram alcançadas. Também os médicos e psis sugerem que a sua relação só será completa, total, com uma prática sexual tal e tal, upa, upa. E podíamos continuar… Mais difícil é encontrar quem lhe diga que seria muito bom conhecer-se tal como é e que haverá uma grande probabilidade de, aceitando-se, ser gostado assim mesmo.

 

Não pense, caro leitor, que quem escreve este texto sente qualquer tipo de aversão pelas práticas sugeridas. Muito pelo contrário, são possibilidades boas para quem se sente bem com elas. O grande problema é o padrão que impõem entre nós e que tende a desajustar aqueles que com ele não se identificam, que sentem de forma diferente ou que simplesmente não o querem cumprir.

Também não tenho em minha posse o mapa para a satisfação sexual. Ninguém tem um que seja universal. Pensado desta forma, acho mesmo que não existe. Parece é que todos os tempos oferecem um modelo de sexualidade e de prazer expectável. A prática clínica e a escuta das pessoas sobre a forma como se sentem e do que é verdadeiramente importante para estas reforça-me a convicção de que somos mais bem-sucedidos nessa tarefa quando nos permitimos a conhecer o que somos e a descobrir o prazer. Libertemo-nos, para tal, de um modelo cultural único daquilo que este expectavelmente é.

 

João Teixeira de Sousa
João Teixeira de Sousa
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