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Lourenço Lucena, O Perfumista

É o único português membro da Sociedade Francesa de Perfumistas, onde está inscrito desde 2006. Lourenço Lucena, o compositor de perfumes, acredita que a perfumaria é a arte de contar uma “narrativa olfativa”.

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Como é que surgiu a hipótese de se tornar perfumista?

Desde pequeno que sou fascinado por aromas e perfumes, e estes sempre tiveram um papel importante na minha vida. Por essa razão, em 2006 decidi procurar uma escola em Paris, onde me fosse dada a possibilidade de entrar nesse fascinante mundo e receber formação. Passados dois anos estava formado como compositor de perfumes.

Teve desde sempre um olfato apurado ou foi algo de que se apercebeu mais tarde?

Desde sempre dei uma importância especial aos aromas e cheiros que me rodeavam. Simplesmente até chegar à idade adulta não tinha racionalizado e dado a devida atenção a isto. Apenas aos 25 anos decidi procurar formação e encontrar uma forma de avaliar a minha sensibilidade e aptidão para trabalhar com os aromas.

Prefere o termo perfumista ou compositor de perfumes?

Ambos são válidos, embora compositor de perfumes seja poético. A composição de um perfume tem uma carga emocional e de entrega enormes, pelo que, mais do que a junção de um conjunto de matérias primas, trata-se de criar uma composição bela, equilibrada e fiel à ambição que levou à sua criação.

Quanto tempo demora, em média, a compor uma fragrância?

Não existem tempos nem fórmulas. Um perfume pode demorar um mês a ser criado ou, em alguns casos, pode demorar um ano.

Qual o perfume mais complexo que teve de criar?

Todos os perfumes que criei, mais do que complexos, são desafios. Até hoje sinto que todos tiveram uma carga semelhante de dificuldade, à exceção do projeto agora desenvolvido para o canal HISTÓRIA. Pensar nos aromas que melhor se ajustam a cada personagem da história, de acordo com o perfil de cada um, não foi tarefa fácil. Um desafio que me obrigou a refrescar a memória da história, estudar as biografias de cada um deles e encontrar, em conjunto com o historiador João Neto, as metáforas olfativas para cada um deles. Que tipo de pessoas eram, quais os seus hábitos, fatos mais marcantes, o que representaram para a Humanidade, foram os ganchos que usei para me inspirar e definir cada caminho olfativo até às personagens. De todos, Hitler foi o mais difícil, já que lhe podemos associar muitas referências olfativas. No final, sobressaiu uma composição que representa o que ele simbolizou: destruição!

Na sua opinião, o perfume perfeito tem de ter óleo de…?

Não existem fórmulas para um perfume perfeito. Um perfume é uma história, uma narrativa olfativa, e o que pretendo quando crio um perfume é contar uma história de uma forma especial e única. História que pode ser uma memória, uma referência a um

encontro, a uma pessoa, a uma viagem ou a uma emoção, que se conta com a escolha de um conjunto de matérias-primas, muitas vezes dezenas delas.

Na sua opinião, o perfumismo é uma ciência ou uma experiência emocional?

É, antes de mais, arte aliada a muito trabalho.

Acha que o olfato é um sentido que tem sido subestimado?

O olfato é o único sentido humano não sujeito a cognição e, de facto, subestimado. Ainda assim, vivemos tempos em que valorizamos o único, o exclusivo e genuíno e, por essa razão, acredito que muita coisa pode mudar nesta matéria nos próximos anos.

O marketing olfativo é uma realidade. Por exemplo, temos cadeias multinacionais de moda que têm uma fragrância própria e exclusiva, espalhada em todas as lojas. É verdade que a memória olfativa é muito poderosa?

Sim, a memória olfativa é uma ferramenta sensorial única. Quando uma marca trabalha a sua identidade a um nível olfativo, está a demarcar o seu território com um novo layer e, naturalmente, a criar mais vínculos com o consumidor. No final, o que se pretende é criar uma experiência sensorial mais integrada e mais demarcada.

Quando alguém quer um perfume personalizado, o que procura conhecer da pessoa antes de iniciar o trabalho?

Tudo! Criar um perfume personalizado tem essa necessidade, conhecermos o interior e o exterior da pessoa que o vai usar. Só assim faz sentido, caso contrário perde essência e torna-se superficial.

É o único português membro da Société Française des Parfumeurs. Há quanto tempo foi admitido?

Sou membro efetivo desde 2006, data em que terminei a minha formação em Paris.

Tal como devemos descansar o corpo, quando fazemos um esforço acima da média, um perfumista deve descansar o nariz?

Sim. Embora ao longo do processo de trabalho vá tendo momentos de pausa, é fundamental que se renove o olfato. É um trabalho de detalhe, de encontros e harmonias entre matérias primas, pelo que tenho que estar não só totalmente focado, como com o nariz e memória a cem por cento.

Qual o método certo para comprar um perfume?

A escolha de um perfume é algo pessoal e íntimo. Por isso, a escolha de um perfume é algo que não deve ser feito à pressa. Numa ida à perfumaria não se deve experimentar mais do que quatro de cada vez, e sempre na nossa pele.

Qual é o cheiro de que se recorda melhor?

Muitos! Tenho a memória carregada de boas recordações, sempre associadas a aromas e cheiros. Os mais marcantes são indiscutivelmente os pessoais e relacionados com os meus filhos e a minha mulher.

Que cheiro lhe recorda Portugal?

É uma composição rica, intensa e confortável. Um bouquet floral frutado, com um citrino alaranjado tranquilo, em harmonia com uma brisa marinha discreta e um fundo amadeirado consistente e misterioso pela presença de algumas especiarias subtis.

Por Joana de Sousa Costa

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