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José Diogo Madeira: «Estamos a produzir uma quantidade enorme de gente desenquadrada, solitária e infeliz»

Foi jornalista económico durante uma década, cofundou, administrou e dirigiu o ‘Jornal de Negócios’ e integrou a direção de outras tantas empresas. Mas deixou de se reconhecer no mundo empresarial e quis mudar de vida. Hoje, dedica-se à meditação e quer levar o seu benefício a todos. Acaba de lançar o livro ‘Volta a Ti’, o seu quinto livro, mas o primeiro em que perde finalmente a vergonha e assume a sua vocação espiritual.

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Tem um percurso (ainda) invulgar. Porque deixou o mundo dos negócios para abraçar uma vida mais espiritual?

Passei 20 anos a criar, desenvolver e vender empresas. Chegou um momento em que isso deixou de fazer sentido. Foi também o tempo em que percebi que o modelo económico em que vivemos está esgotado, que pelo caminho esgotou os recursos naturais do planeta, e que não promove a felicidade das pessoas. Já não quero fazer parte desse jogo, agora quero estar do lado dos que criam riqueza. Ser rico, ao contrário do que o sistema nos quer fazer crer, não é ter muito dinheiro, é ter o coração cheio. E também me quis libertar de todo o stress que a vida empresarial traz, as inúmeras reuniões, as correrias de um lado para o outro, os momentos de tensão. Tento, aos poucos, libertar-me de tudo isso. Menos é mais, às vezes muito mais.

 

O que lhe revelou o percurso como jornalista e empresário sobre a alma humana?

Que as pessoas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos líderes empresariais, vivem obcecadas por dinheiro, poder, prestígio. Mas que, at the end of the day, são absolutamente infelizes. E que pelo caminho estão disponíveis para cometer todo o tipo de atrocidades morais, éticas e até ambientais, para conseguirem amealhar mais e mais… A alma humana, na verdade, eu acho que se mantém sempre pura e generosa. Mas as personalidades humanas são muito pouco dignas, infantis e autocentradas. As pessoas não se conhecem a si próprias. Quem investe tempo em se sentar tranquilamente e perguntar a si mesmo, afinal, quem é este ou isto aqui que vive continuamente comigo?

 

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É esse mundo competitivo em que se vive atualmente que nos afasta da nossa essência? Como nos prejudica?

O sistema económico assenta na competição entre os países, as empresas e as pessoas. “Só o mais forte e capaz sobreviverá” é o mantra. Mas isso transforma toda a vida humana numa terrível experiência competitiva. Desde pequenos, que os nossos pais, cheios de boa vontade, nos inculcam a ideia de ser o melhor na escolar, nas atividades extracurriculares. Até há aquela coisa dos quadros de excelência, os melhores alunos são anunciados pubicamente como se isso fosse uma coisa positiva, quando é altamente perverso para as crianças serem estimuladas a competir umas contra as outras. O resultado de tudo isto é que o sentido de separação impera desde miúdos, em vez de imaginarmos que somos e participamos no mesmo, somos ensinados ao “salve-se quem puder”. O resultado está à vista, as pessoas vivem umas contra as outras e não umas com as outras, gerando os infelizes que todos conhecemos, os ansiolíticos que se consomem, a miséria pessoal e física, a degradação da Terra enquanto casa comum de todas as espécies vivas. Somos, supostamente, o animal mais inteligente do universo conhecido, mas estamos a destruir todo o planeta e a produzir uma quantidade enorme de gente desenquadrada, solitária, infeliz. O que fizemos da nossa humanidade?

 

Como chegou ao mundo da meditação? Como fez este caminho? Demorou muito tempo?

Agora que olho para trás, vejo que sempre tive uma natureza contemplativa. Gosto de estar sozinho e os meus amigos dizem-me que não falo muito. Na verdade, acho que não gosto muito de falar sobre coisas mundanas. Nunca liguei nenhuma a futebol, carros, festival da canção, séries de televisão e coisas desse tipo. Comecei a meditar de uma forma muito artesanal em casa, depois passei pela União Budista, em 2017 cofundei a Reflower que é uma comunidade de praticantes de meditação que reúne gente de todo o país, numa experiência muito enriquecedora. Mas meditar é um exercício que exige muito tempo de prática, muita investigação, leituras, passos para a frente e para trás. Acho que uma vida inteira não chega para navegar pelos meandros da nossa mente, que é o espaço em que a meditação acontece.

 

Diz no seu livro que é tempo de desfazer o que se fez nas últimas décadas. Pode explicar?

As grandes cidades sem jardins, as cadeias de restauração que vendem ração para humanos embrulhadas num marketing apelativo, a hiper dependência e utilizações dos smartphones e redes sociais, a fontes energéticas altamente poluidores e não sustentáveis, a exploração dos animais como fontes alimentares quando são tão sensíveis como nós. Temos de voltar à nossa humanidade original, à proximidade e ao tempo com a família, com os amigos, à comida feita com produtos cultivados de forma saudável, ao tempo de lazer simples em que as pessoas contavam histórias e partilhavam experiências à volta de uma fogueira. Temos de voltar a ser seres humanos e não robôs programados para sermos unidades de produção do sistema económico. Nós não nascemos para sermos produtivos, a produtividade é uma medida das máquinas, não de pessoas sensíveis e especiais que todos somos.

 

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Também diz que somos personagens e que temos de voltar à nossa essência. Como?

Cada um representa uma determina personagem, uma personalidade que herdou do meio familiar, social, cultural e económico onde nasceu e depois, ao longo da vida, desenvolveu. Alguma introspeção permite perceber que essa persona resulta de camadas de maquilhagem que jogamos sobre nós. Mas na verdade, a nossa essência é uma coisa muito mais simples. Somos apenas vida, consciência, capacidade de percecionar que há um mundo à nossa volta e dentro de nós. Depois temos um corpo que funciona como um veículo, é o nosso automóvel, que devemos cuidar e estimar, não vamos receber outro. Num processo de libertação da personagem, acabamos por nos distanciar dela e ficamos muito mais calmos e tranquilos porque entendemos finalmente que nada do que nos acontece é pessoal. Somos apenas uma ínfima parte de toda a vida que coexiste no universo, temos esta capacidade incrível de nos emocionarmos com coisas tão simples como escutar uma música, ver um por do sol ou dar a mão a alguém. Quando nos libertamos da pessoa, não quer dizer que vamos deixar de existir socialmente ou que nos enfiemos numa gruta para o resto da vida num estado reclusivo. Quer dizer que somos felizes com muito pouca coisa, provavelmente com nada mesmo. E que esse estado de felicidade serena não pode ser perturbado por nada do que acontece. Tudo está sempre bem. A pessoa pode ser atacada ou prejudicada, a consciência, a alma em termos religiosos, é imperturbável.

 

As pessoas não têm consciência delas mesmas? Onde elas vivem e quando isso se perdeu?

As pessoas têm um novo colega no trabalho e vão logo bisbilhotar sobre quem é o newcomer. Mas nunca se dão ao trabalho, ou ao prazer, de se sentarem e perguntarem a si próprias sobre quem são, de onde procedem e para onde vão. E, afinal, nós passamos todos os momentos da nossa vida com nós mesmos, não com os outros… O autoconhecimento é a base do auto-amor, do amor-próprio. E só a partir daqui se pode desenvolver o sentido do amor por todas as outras pessoas e coisas e pode quebrar o sentido da separação. Não há eu e tu. Tudo é pleno, completo e universal. Este livro “volta a ti” é um convite para cada leitor empreender essa viagem até ao centro de si mesmo, para se maravilhar com a novidade do que lá vai encontrar, um espaço formidável, uma força inquebrantável, que sempre está e sempre é. Tudo pode rodar e mudar à nossa volta, mas dentro de nós, a nossa essência permanece sólida e inabalável para sempre. Eu até posso mudar de nome, de corpo, de personalidade, mas a minha consciência permanece a mesma, sempre e sempre.

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