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Jejum: a reprogramação e purificação do corpo na Ayurveda

Antes de se iniciar um jejum, precisamos de ter em conta a nossa constituição individual. A realização de um jejum efetuado sem ter em consideração a constituição pode gerar efeitos prejudiciais e indesejáveis.

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Na Ayurveda, a necessidade de alimento, de sono e de intimidade podem ser considerados os pilares tríplices que sustêm a vida, constituindo o denominador comum que une todos os seres humanos entre si e todas as formas de vida. Aceitando o poder sustentador desta tríade, torna-se importante questionarmos a quantidade e qualidade de que necessitamos de cada um destes pilares, para a alcançarmos e mantermos o equilibrado estado de saúde e bem-estar quotidiano.

 

De forma geral, uma pessoa consegue, em média, sobreviver quarenta dias sem ingerir um alimento sólido, suportar vários dias sem sono e sustentar toda uma vida sem a prática de atividade sexual. Existem ainda seres excecionais, que se abstêm de alimento; outros, cujos olhos mantêm constante estado de alerta e vigília, evitando fecharem-se para dormitar; e muitos que se abstêm de todo o contacto sexual. Na verdade, as necessidades de cada organismo individual variam de acordo com fatores genéticos e ambientais.

 

Desde a infância, é instilada na mente de cada indivíduo a ideia de que necessitamos de três refeições substanciais por dia, e de oito horas de sono. Da mesma forma, a necessidade de contacto sexual é admitida em quase todas as ideologias.

 

A prática do jejum surge então como uma forma de autoconhecimento, pois é somente através da negação voluntária de um impulso básico que os efeitos desse impulso podem ser claramente compreendidos de forma muito particular e individual. A partir dessa compreensão, conseguimos reprogramar o nosso comportamento, em harmonia e consonância com as nossas próprias necessidades. Portanto, existem práticas específicas para o jejum de alimento, de sono e de sexo. Uma quarta prática lida com o singular ego humano, por meio do jejum da fala.

 

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Jejum e os três humores

Antes de se iniciar um jejum, precisamos de ter em conta a nossa constituição individual. A realização de um jejum efetuado sem ter em consideração a constituição pode gerar efeitos prejudiciais e indesejáveis.

 

Uma pessoa de constituição Vata deve apenas jejuar por cerca de três dias. Evitar o alimento aumenta a leveza do corpo, e assim o Vata pode ficar prejudicado se o jejum for demasiado prolongado, podendo gerar medo, ansiedade, nervosismo e fraqueza.

 

A mesma restrição feita ao jejum prolongado aplica-se ao indivíduo com constituição Pitta. Um jejum que ultrapasse os quatro dias agravará o Pitta, aumentando o elemento Fogo no corpo. Esse Pitta desenvolvido poderá causar reações psicofísicas de raiva, ódio e perturbações.

 

No entanto, as pessoas com a constituição Kapha podem (e devem) fazer jejuns prolongados, permitindo-lhes sentir uma agradável sensação de leveza, maior perceção, aumento da clareza e da compreensão, e abertura de consciência.

 

O jejum de alimento

O jejum alimentar pode ser dividido em três categorias, com base na motivação da pessoa em empreender o jejum. O jejum de purificação é feito para limpar o organismo, como se de um tónico se tratasse. O jejum de cura é feito para livrar o organismo de algum distúrbio específico. O jejum ascético é feito com o único propósito de negar os impulsos do corpo; como exemplo, temos os jejuns prolongados praticados pelos yogues.

Jejum de cura

Para equilibrar a energia do corpo e purificar o sistema digestivo, a literatura yogue recomenda um programa específico de jejum.

 

Consumimos ao longo do ano, uma variedade espantosa de géneros alimentares. Cada alimento e cada ingrediente, de cada alimento, devem ser vistos como um composto de substâncias químicas que exercem efeitos específicos sobre o organismo.

 

A menos que conheçamos bem todos os princípios para uma dieta correta, e consigamos segui-los todos, para além de respeitarmos a regularidade das refeições, os alimentos específicos a serem evitados, o modo de preparação e outros fatores que afetam a nossa dieta, a química do corpo é inevitavelmente afetada, dando azo ao surgimento da doença e do sofrimento.

 

O método mais fácil de equilibrar o sistema do corpo consiste no descanso do aparelho digestivo, por intermédio da adaptação do organismo à ingestão de um único item alimentar durante um período prolongado. O ideal é que este tipo de jejum seja posto em prática durante os equinócios e solstícios, a fim de harmonizar o corpo com a partida e a chegada das estações.

 

O mesmo alimento, preparado exatamente da mesma forma, e servido exatamente às mesmas horas, durante vários dias sem interrupção, proporciona estabilidade de sabor, textura, temperatura, qualidade nutricional e composição química, permitindo que o corpo se acostume com uma rotina estável e inicie o processo de descanso. O grau de descanso é determinado pela natureza do alimento ingerido.

 

Um alimento básico para um jejum de cura

O jejum é recomendado quando existe febre, constipação, dor artrítica ou se houverem toxinas no intestino grosso. O alimento básico recomendado, em especial quando o organismo foi afligido por várias enfermidades associadas à gastrite e indigestão crónica, é o soro de leite coalhado preparado a partir do iogurte.

 

As escrituras hindus consideram este leite coalhado como o néctar da vida, uma dádiva dos deuses aos seres humanos. Este alimento pode ser ingerido por praticamente todas as pessoas, sem exigir quase nenhum esforço do organismo para ser ingerido. Todos os nutrientes do leite são decompostos pela cultura do iogurte, sendo pré-digeridos, de modo que as substâncias químicas necessárias ao organismo podem passar diretamente para os órgãos vitais, com pouco ou nenhum trabalho por parte do corpo.

 

Os condimentos acrescentados à mistura ajudam a fortalecer o sistema digestivo e a compensar qualquer acidez excessiva. Os cominhos, em particular, agem como agentes restauradores dos rins e do fígado.

 

Esta preparação pode ainda ser ingerido como parte da dieta normal, pois ajuda no funcionamento regular do aparelho digestivo. É especialmente útil para pacientes com enfermidades crónicas dos rins e fígado, causadas por excesso de álcool e de descarga sexual.

 

Receita

A duas chávenas de iogurte comum, acrescentamos igual quantidade de gelo picado, misturando com um batedor manual até que o gelo derreta. Removemos a espuma branca que se forma e descartar. Reservar esta mistura de iogurte com água fria.

 

Numa concha ou colher grande de metal, derreter uma colher de chá de manteiga em fogo médio. Quando a manteiga começa a frigir, acrescentar 1/8 de colher de chá de sementes de cominhos, e deixar dourar completamente. Retire a concha do lume e acrescente 1/8 de colher de chá de pimenta-preta, uma pitada de assa-fétida, e uma de sal preto (em alternativa adicionar simplesmente uma pitada de sal marinho).

 

Enquanto a concha ainda está quente, introduza-a completamente na mistura de iogurte com água fria, até que a manteiga e os condimentos subam à superfície. Bater novamente, misturando por completo, e então guardar no frigorífico.

 

Esta receita produz cerca de dois litros de bebida, mais do que o suficiente para um dia. O iogurte utilizado deve ser feito em casa e guardado no frigorífico por um dia antes do uso, para que a cultura tenha tempo de decompor completamente os nutrientes do leite. Se possível, deve-se usar leite integral fresco, para assegurar o máximo benefício, embora o leite comum também sirva.

 

Nenhum outro alimento ou líquido – incluindo a água – deve ser consumido durante o período do jejum, e a quantidade de leite coalhado ingerido deve manter-se até um litro e ¼ em 24 horas.

Devemos tomar um mínimo de um ou dois copos de 250 ml por dia. Além disso, o leite coalhado deve ser consumido até ao pôr do sol, já que pode aumentar o risco de constipações e infeções.

 

O iogurte é por natureza um alimento frio. Se o sistema orgânico necessitar de calor, a pessoa deve tomar a mistura de meia colher de chá de mel e 1/8 de colher de chá de pimenta-preta (ou seja, 7 grãos), que deve ser moída; deve-se fazer a mistura num pires, mexendo no sentido horário com o dedo anular da mão direita (o Tantra recomenda 108 voltas, e afirma que essa prática energiza ainda mais este tónico). A ingestão deve ser lenta, deixando que a mistura de dissolva lentamente na boca, e desça pela garganta (deve-se repetir mentalmente “Vishnu”). Deve evitar-se a ingestão de alimentos e bebidas, sobretudo quentes, durante cinco minutos, para permitir que o organismo absorva a mistura.

 

Este jejum deve ser evitado durante o inverno, em climas frios, ou durante a estação chuvosa. As pessoas com enfermidades respiratórias, bem como aquelas extremamente suscetíveis às constipações e infeções das vias respiratórias, devem evitar de todo fazer este jejum. Nesses casos seria mais aconselhável o sumo de beterraba crua ou ligeiramente fervida, preparadas com a adição dos mesmos condimentos.

 

Em alternativa, o sumo de uva é particularmente indicado para o Vata, tal como o de romã é para Pitta e o de maçã para Kapha. O sumo deve ser bebido diluído com água.

 

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