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Isabel Saraiva: «Há uma campanha de sedução direcionada aos jovens que torna atraente o consumo do tabaco»

A campanha digital “DIZ NÃO AO TABACO” tem como objetivo alertar para o aumento do consumo de tabaco entre os adolescentes e desmistificar as habituais desculpas dos fumadores. ‘Eu só fumo socialmente’ ou ‘Eu consigo parar quando quiser’ são algumas das desculpas que os adolescentes habitualmente usam quando questionados sobre o que os motiva a fumar e que dão o mote ao movimento #SóQueNão, promovido pela associação RESPIRA. O Dia Mundial Sem Tabaco assinala-se a 31 de maio.

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Estudos recentes apontam que há cada vez mais jovens a fumar aos 15 anos, que aos 18 anos mais de 60% já experimentou tabaco e que dois terços destes se tornam fumadores. Números muito preocupantes até porque, segundo a RESPIRA – Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e Outras Doenças Respiratórias Crónicas, é cada vez mais difícil passar a mensagem junto dos jovens, devido ao pouco investimento público em campanhas de prevenção, às fortíssimas campanhas da indústria tabaqueira para a divulgação das novas formas de tabaco e ao preconceito associado ao cigarro como instrumento de sociabilização e estatuto social.

 

O tabagismo é um grave problema de saúde pública, pois é responsável pela diminuição da qualidade e duração da vida do próprio, com a agravante de ser um fator de risco também para todos aqueles que se encontram frequentemente expostos ao fumo passivo.

 

O tabaco é responsável por 25 a 30% da totalidade dos cancros, 80% dos casos de DPOC, 90% dos casos de cancro do pulmão e 20% da mortalidade por doença coronária, segundo esta associação. No âmbito do Dia Mundial Sem Tabaco, que se assinala, a 31 de maio, falámos com Isabel Saraiva, presidente da Fundação Europeia do Pulmão e da RESPIRA.

 

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Aos 18 anos mais de 60% dos jovens já experimentaram tabaco. Destes, dois terços vão tornar-se fumadores. O que está a falhar nas campanhas de sensibilização?

De acordo com a OMS as indústrias de tabaco gastam por ano 9 biliões de US dólares (cerca de 8,2 mil milhões de euros) em publicidade e marketing tendo como um dos alvos preferenciais os jovens. Desde a utilização da social media tornando o tabaco num produto atrativo, elegante, fácil de consumir, passando pelo patrocínio de eventos, bolsas para estudantes, toda uma campanha de sedução direcionada para os jovens torna atraente o consumo do tabaco.

 

Faltará uma política pública que demonstre com firmeza e sem ambiguidades os efeitos do tabaco, independentemente da forma como é consumido, na saúde dos jovens. Faltará uma consistente e persistente campanha de informação que chame a atenção para o custo em termos de saúde, para os próprios e para a sociedade, do consumo de tabaco.

 

Atualmente está cada vez mais enraizada a cultura da vida saudável, na alimentação, nos cuidados com o corpo e a mente. Como é que estas novas tendências não se refletem na diminuição do consumo de tabaco?

As técnicas de publicidade e marketing tendem a associar, como aliás fizeram no passado, o consumo de tabaco, nas suas diversas formas, como um ato atraente de liberdade e rebeldia, conquistando assim muitos jovens que se querem ver e afirmar como rebeldes e atraentes.

 

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Muitos optam pelo cigarro eletrónico por acharem que é menos danoso. É um mito?

Existe abundante evidência dos malefícios dos cigarros eletrónicos, que, não devemos esquecer, contêm a altamente viciante nicotina, para além de outras substâncias tóxicas. Os nossos pulmões foram feitos para receber ar, puro de preferência. Qualquer outra substância causa danos muitas vezes irreparáveis à saúde.

 

Quais os argumentos dos jovens para se terem iniciado no tabaco, seja normal, seja eletrónico?

Para além do (falso) sentimento de liberdade muitos jovens não têm nem a informação nem o conhecimento dos efeitos do tabaco no seu corpo, não só no imediato como também no longo prazo. Um prazer imediato e aparentemente sem consequências facilita a iniciação ao tabaco nas suas diversas formas.

 

Quais os principais riscos para os jovens ao iniciarem-se no tabaco?

O tabaco em todas as suas formulações aumenta os riscos de doenças do aparelho respiratório e do aparelho circulatório e sobretudo, no caso de raparigas fumadorasm também tem efeitos na fertilidade.

 

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Lançaram uma campanha dirigida especificamente aos jovens. Quais as vossas expectativas?

A Respira é uma associação de Pessoas com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, motivada maioritariamente pelo consumo de tabaco. Está no nosso ADN explicar, mutas vezes com os nossos casos pessoais, o que o consumo daquela substância faz às nossas vidas. Aproveitamos todas as efemérides relacionadas com o combate aos hábitos tabágicos para disseminar informação que alerte para os danos e os custos desta prática. Temos a expectativa de colaborar num movimento que deve envolver toda a sociedade no caminho para uma sociedade sem tabaco.

 

O que é necessário fazer a nível governamental para se baixar o número de fumadores jovens?

Reforço das políticas públicas como, por exemplo, aumentar os impostos do tabaco e de todos os produtos relacionados; proibir toda a publicidade inclusive nos social media; proibir a venda a menores de idade de tabaco e produtos relacionados; providenciar o acesso a consultas de cessação tabágica, difundindo amplamente as vantagens das mesmas; providenciar o acesso às terapêuticas antitabágicas de eficácia comprovada e segurança legalmente reconhecida; manter em permanência a informação dos perigos do tabaco, utilizando os media, criando parcerias com escolas e comunidades de jovens.

 

Que mensagem deixa aos jovens para não fumarem?

Procurem falar com ex-fumadores. Avaliem com objetividade as consequências dos hábitos tágicos. Vivam a vida de forma rebelde. Contestem, reclamem, procurem caminhos diversos, mas sem tabaco, que a prazo destrói a parte mais importante das nossas vidas, a saúde!

 

 

 

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