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Infeção por Streptococcus do grupo B: Prevenção e tratamento na grávida

O rastreio entre as 35-37 semanas de gravidez pode detetar as gestantes que têm maior possibilidade de estarem colonizadas por esta bactéria no período do parto.

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A prevenção da infeção neonatal por esta bactéria tem de se fundamentar em práticas que levem à redução da exposição do feto ou recém-nascido ao Streptococcus do Grupo B (SGB). Estas práticas têm como objetivo impedir a contaminação do aparelho genital feminino quer durante a gravidez quer durante o trabalho de parto. Como o aparelho digestivo inferior (cólon e reto) é um reservatório natural do SGB, e considerando que perto de 20-35 % das gestantes têm colonização crónica ano-retal e vaginal intermitente, o problema consiste em erradicar esta bactéria do colo uterino e vagina.

Durante os anos 80 e 90, baseadas em estudos que apontavam que a toma de antibióticos durante o trabalho de parto de grávidas com risco de transmitirem ao recém-nascido (RN) esta bactéria seria capaz de prevenir o aparecimento de doença neonatal precoce em cerca de 50% dos casos, foram empreendidas várias estratégias de atuação, que passaram por exemplo:

  1. a) Dar profilaticamente antibiótico a grávidas com fatores de risco, mas que não fizeram rastreio prévio sistemático;
  2. b) Efetuar rastreio a portadoras assintomáticas da bactéria e realizar profilaxia antibiótica a grávidas que apresentavam rastreio positivo.

Conclui-se que a administração de antibióticos indiscriminadamente a todas as grávidas não se justificava, uma vez que os benefícios não ultrapassavam os riscos e os custos associados.

Nos anos 2000/2001 foram revistos e comparados os estudos anteriores e em 2002 foi publicado um protocolo que hoje em dia é consensual e que recomenda a profilaxia antibiótica a grávidas portadoras do SGB identificadas por exame cultural sistemático ou nas gestantes em que não foi feito o rastreio, mas que apresentam fatores de risco. Desta forma foi possível obter-se uma eficácia na prevenção de doença neonatal precoce de perto de 90%.

Contudo é conveniente salientar que a execução integral desta estratégia não permite eliminar a totalidade dos casos de infeção do recém-nascido por SGB

A terapêutica habitualmente usada é a Ampicilina na dose de 2 gramas via endovenosa no início do trabalho de parto, seguida da administração de 1 grama de Ampicilina de 4h em 4h até ao nascimento. Em mulheres com alergia à penicilina as terapêuticas antibióticas de 2º linha recomendadas são a Clindamicina na dose de 900mg de 8/8h, via endovenosa e a Eritromicina na dose de 500mg de 6/6h, via endovenosa. No caso de pacientes sem risco elevado de reação alérgica, um outro antibiótico proposto como alternativa é a Cefazolina 2 gramas, via endovenosa, dose inicial e depois 1 grama de 8/8h, até ao parto.

Depois do parto, se a mulher for assintomática, a terapêutica antibiótica pode ser interrompida. Por outro lado, se a puérpera apresentar sintomas, tiver tido uma corioamnionite ou tiver um quadro clínico de sépsis terá que ser estabelecida uma antibioterapia de espectro mais largo.

O rastreio, entre as 35-37 semanas de gravidez, realizando a cultura de zaragatoa vaginal e rectal pode detetar as gestantes que têm maior possibilidade de estarem colonizadas por esta bactéria no período do parto, isto é, as que têm um risco mais elevado de transmissão vertical mãe-filho.

É importante sublinhar que a colonização da mulher no início da gravidez não tem valor prognóstico na infeção do feto e que o tratamento de mulheres assintomáticas colonizadas por SGB, antes ou no decurso da gravidez, não oferece qualquer proteção aos recém-nascidos.

Os principais fatores de risco para infeção neonatal por SGB a ter em consideração são:

  • Colonização materna por SGB identificada entre as 35 e 37 semanas de gestação.
  • Gravidez anterior com infeção neonatal precoce por SGB.
  • Infeção urinária por SGB, em qualquer altura da gravidez.
  • Parto antes das 37 semanas (prematuridade) e rotura prematura de membranas
  • Presença de corioamnionite (infeção do líquido amniótico e placenta) que ocorre mais frequentemente na rotura das membranas > a 18 horas.

 

Quadro clínico, morbilidade e mortalidade no recém-nascido

As formas como a infeção precoce se apresenta no RN vão desde a bacteriemia assintomática ao choque séptico. O quadro infecioso revela-se usualmente nas primeiras 24 horas de vida como septicemia (25 a 40% dos casos), pneumonia (35 a 55% dos casos) ou meningite (5 a 10% dos casos). A taxa de mortalidade oscila entre 3 a 6% no RN de termo, sendo mais alta nos prematuros (10% de mortalidade entre as 34 e as 36 semanas de gestação e 30% antes das 33 semanas). O choque séptico e a prematuridade são as condições que mais induzem a morbilidade a longo prazo. A cegueira e atraso mental grave podem ocorrer como sequelas em 10 a 30% dos sobreviventes de meningite. Podem ainda ocorrer outros distúrbios como deficiências motoras, surdez e atrasos de desenvolvimento. Para o diagnóstico exato de infeção por SGB no RN é crucial isolar-se a bactéria no sangue, líquido cefalorraquidiano, aspirado da traqueia ou numa zona de supuração (exe: osso, líquido pleural). A hemocultura faz parte de um rastreio completo e a punção lombar, com cultura e exame do líquido cefalorraquidiano, deve realizar-se nos RN com suspeita de sépsis ou meningite. Os antibióticos globalmente considerados os mais adequados para o tratamento da infeção por SGB no recém-nascido são a Penicilina e a Ampicilina.

 

 

 

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