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Impacto da pandemia no planeamento familiar e na saúde reprodutiva

A redução do acesso a serviços básicos traduziu-se na dificuldade em adquirir contracetivos, no aumento de gravidezes indesejadas, na limitação ao acesso à interrupção voluntária de gravidez e no aumento de violência sexual e de género, entre outras.

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A pandemia da COVID‑19 é a maior crise sanitária e socioeconómica dos últimos tempos. A nível mundial, teve um profundo impacto na saúde sexual e reprodutiva das populações de vários países. A redução do acesso a serviços básicos traduziu-se na dificuldade em adquirir contracetivos, no aumento de gravidezes indesejadas, na limitação ao acesso à interrupção voluntária de gravidez e no aumento de violência sexual e de género, entre outras.

 

Em várias regiões do mundo, a pandemia aprofundou as desigualdades na acessibilidade aos cuidados de saúde das mulheres, e muitas delas correm o risco de perder a capacidade de planear as suas famílias, de proteger os seus corpos e a sua saúde.

 

Em Portugal, o aparecimento súbito e inesperado da pandemia exigiu a restruturação dos serviços de saúde e os seus profissionais foram alocados a outras tarefas para dar resposta às necessidades impostas pela nova realidade. Todavia, a disponibilização de métodos contracetivos, a contraceção de emergência e o acesso à interrupção voluntária da gravidez foram considerados serviços mínimos essenciais e continuaram a ser assegurados durante a pandemia.

 

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De facto, em 2020 verificou-se o menor número de nascimentos em Portugal desde 2015. Tal poderá decorrer da disponibilidade mantida ao acesso de métodos contracetivos, o que permitiu aos casais planear os seus projetos de família, mas também será importante considerar o impacto da pandemia na saúde sexual.

 

O Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana da Universidade do Porto concluiu que, como consequência da pandemia, 47% dos participantes manifestaram uma redução da frequência da atividade sexual e 40% indicaram uma redução da satisfação sexual.

 

Impacto nas vítimas de violência

O impacto da pandemia também se manifesta nas vítimas de violência. De acordo com o relatório anual da APAV, em 2020, houve uma diminuição do número de pedidos de ajuda por parte de vítimas de violência doméstica, embora se mantenha uma maior incidência nas mulheres.

 

O confinamento e o teletrabalho exigiram que as pessoas permanecessem mais tempo em casa e sujeitaram as mulheres a uma superior proximidade aos seus agressores, o que poderá justificar uma maior dificuldade em procurar ajuda. De facto, um estudo realizado neste âmbito, pela Escola Nacional de Saúde Pública, refere que a maioria das vítimas não faz denúncia e realça que um terço das vítimas disse ter sido agredida pela primeira vez durante a pandemia.

 

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Prevenção da saúde feminina

A prevenção de doenças é fundamental nas várias fases de vida da mulher. Segundo a DGS, apesar do impacto da pandemia, o Plano Nacional de Vacinação manteve uma elevada taxa de cobertura. A vacinação das adolescentes com o esquema completo da vacina contra o Vírus do Papiloma Humano (vírus sexualmente transmissível e responsável pelo cancro do colo do útero), mantém-se muito elevada e atingiu um valor igual ou superior a 95%.

 

Em relação às grávidas, a cobertura vacinal para proteger os seus bebés de tosse convulsa, continuou muito elevada, estimando-se que tenha chegado aos 90%. No entanto, o rastreio do cancro da mama e do colo do útero tiveram uma diminuição importante, pelo que têm sido criados incentivos para recuperar os programas de rastreio.

 

De destacar que é igualmente importante que as mulheres não tenham receio de frequentar os serviços de saúde. Estes são locais seguros, onde o risco de contágio é praticamente nulo, devendo as mulheres comparecer nas consultas agendadas.

 

A pandemia COVID-19 constitui, assim, um verdadeiro desafio ao planeamento familiar e à saúde sexual e reprodutiva. A saúde e os direitos reprodutivos das mulheres devem ser salvaguardados e os serviços devem garantir a prestação continuada de cuidados de forma a proteger e apoiar os mais vulneráveis.

 

A pandemia COVID-19 veio salientar a importância de se adotarem estratégias que antecipem, assegurem e disponibilizem universalmente o acesso a estes cuidados de forma a que estes não sejam afetados negativamente por mudanças de prioridades.

 

Por Vera Silva

Médica de família

Coordenadora do Grupo de Estudos de Saúde da Mulher da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

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