Home»S-Vida»Hipertiroidismo no verão: a intolerância ao calor

Hipertiroidismo no verão: a intolerância ao calor

Sabe que a intolerância ao calor pode ser um sinal de alteração no funcionamento da tiroide? Isto pode acontecer particularmente no verão. O verão, com altas temperaturas, dias cheios de sol e luminosos convida a uma ida à praia e maior atividade ao ar livre. Contudo, isto pode ser muito desconfortável, até quase insuportável, para quem tem uma disfunção da glândula tiroideia, nomeadamente hipertiroidismo.

Pinterest Google+

No hipertiroidismo já há uma produção e libertação exageradas de calor pelo organismo, mesmo este estando em repouso. A tiroide é uma pequena glândula que se encontra na face anterior do pescoço, de secreção endócrina, ou seja, produz duas hormonas que são libertadas diretamente para a corrente sanguínea– a T4 (tiroxina) e a T3 (triiodotironina).

 

Pelo sangue chegam a todas as células, tecidos e órgãos do nosso organismo. Ajudam-nos a utilizar a energia, regulam a temperatura corporal, permitem o crescimento e desenvolvimento na criança e o funcionamento a um ritmo normal do coração, cérebro, músculos, sistema digestivo e todos os outros órgãos. Pensa-se que entre 5 a 10% dos portugueses tenha alguma forma de doença da tiroide. As mulheres são cerca de 10 vezes mais afetadas que os homens.

 

As duas alterações da função da tiroide são o hipertiroidismo e o hipotiroidismo. Este último é cerca de 10 vezes mais frequente que o primeiro. O hipertiroidismo é, geralmente, mais grave e pode aparecer de uma forma mais ou menos súbita. No hipotiroidismo, a tiroide produz menos hormonas que o habitual. O hipertiroidismo acontece quando a glândula tiroide funciona e produz hormonas em quantidades excessivas.

 

Com um excesso de T4 e principalmente de T3 todo o organismo está “acelerado”. Esta situação deve ser rapidamente tratada pois se prolongada pode causar uma “exaustão” e falência em alguns dos órgãos, nomeadamente no coração. O excesso de hormonas tiroideias em circulação provoca um aumento no metabolismo, ou seja, na velocidade a que o organismo funciona. O metabolismo acelerado provoca um maior consumo de energia e uma maior libertação de calor.

 

O termóstato do nosso corpo – hipotálamo, também funciona para que seja mantida uma temperatura superior, tornando todo o corpo mais quente. A pele torna-se mais quente, rosada (por aumento da circulação sanguínea) e suada. Os doentes com hipertiroidismo têm grande intolerância ao calor e geralmente não se sentem bem em ambientes quentes e fechados ou se expostos diretamente a uma fonte de calor como o sol, na praia.

 

A atividade física intensa pode-se tornar insuportável porque aumenta também a produção de calor e as frequências cardíaca e respiratória que habitualmente já estão aceleradas no hipertiroidismo. Quando surge uma intolerância ao calor mais exagerada que o habitual no verão e, principalmente, se for acompanhada de um ou mais dos seguintes sinais e sintomas: sudorese intensa, alterações do humor, irritabilidade, agitação, perda inexplicada de peso apesar de aumento do apetite, tremor das mãos, palpitações, aceleração do trânsito intestinal ou diarreia, irregularidades menstruais na mulher, aumento do volume do pescoço (bócio), pode apontar para um hipertiroidismo.

 

Através de uma análise ao sangue, na qual são quantificadas as hormonas da tiroide, é possível diagnosticar o hipertiroidismo. Então deve-se iniciar uma medicação específica que reduz a síntese das hormonas tiroideias pela tiroide – anti tiroideu de síntese. Enquanto o hipertiroidismo não estiver controlado com essa medicação específica o ideal será evitar permanecer em ambientes quentes e fechados, exposição direta à luz solar, preferindo locais arejados e com sombra.

 

A prática de exercício físico intenso também pode ser desaconselhada, principalmente exercício aeróbico, pois o indivíduo com hipertiroidismo cansa-se muito depressa. A principal causa do hipertiroidismo é uma doença autoimune da tiroide, na qual são formados anticorpos que estimulam a glândula tiroideia, chamada doença de Graves. Nesta doença geralmente há um aumento do volume da tiroide – bócio e alterações oculares, como edema das pálpebras (olhos inchados) e proeminência dos globos oculares (olhos saídos e ruborizados, por vezes secos), chamada oftalmopatia de Graves. Neste caso, é também aconselhável evitar a exposição solar, sendo conveniente utilizar óculos protetores com lentes escuras durante o dia. Na altura do verão, em que os dias são mais luminosos e quentes, torna-se mais fácil o diagnóstico do hipertiroidismo.

 

O hipertiroidismo pode ser muito grave, o seu tratamento pode ser complexo e prolongado. Nem sempre se consegue que a tiroide volte ao seu funcionamento normal. Estes doentes devem ser observados, tratados e acompanhados por um médico especialista. A ADTI – Associação das doenças da tiroide – faculta informações úteis acerca da glândula tiroideia e cuidados a ter no caso de hipertiroidismo.

 

Por Maria João Oliveira
Endocrinologista e membro do Conselho Consultivo/Científico da Associação das Doenças da Tiroide (ADTI)

Artigo anterior

Reduza as toxinas na alimentação: da escolha dos alimentos à sua preparação

Próximo artigo

Quiche com base de batata doce