Home»VIDA»SOCIEDADE»Há cada vez menos casamentos

Há cada vez menos casamentos

Em três décadas, o número de casamentos em Portugal caiu para metade, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. No mês dos casamentos, olhámos para os números, falámos com um sociólogo e com dois casais, para tentarmos perceber o porquê deste fenómeno.

Pinterest Google+

Os dados de maio de 2015 do INE (Instituto Nacional de Estatística) revelaram a queda abrupta do número de casamentos em Portugal nas últimas décadas. Em 1981, foram 76.283 os casais portugueses que deram o nó; já em 2014 este número desceu para 31.478.

O sociólogo João Pombeiro explica que a diminuição do número de casamentos tem a ver com a forma como os casais e a sociedade passou a encarar a função da oficialização de uma relação. “Definitivamente este já não é o caminho quase único para o continuar de uma relação. A tendência parece ser da diminuição. O casamento religioso baixou de mais de 90 mil, em 2000, para pouco mais de 28 mil, em 2011. Mesmo com o aumento das uniões de facto, para 13% em 2011 (quase duplicando em relação a 2001), na forma de conjugalidade, os casamentos representavam ainda 87% em 2011 (a maioria por civil).”

Excetuando Malta, Suécia e Noruega, os restantes países da União Europeia seguem esta tendência de decrescimento do número de casamentos. Mesmo os países maioritariamente católicos parecem abraçar outras formas de compromisso, desvinculando a ideia de relação da de casamento, como confirma João Pombeiro: “Já não é tanto por haver um casamento, religioso ou civil, que se mantém o compromisso de uma relação, de ultrapassar as más alturas, de entender as divergências e o outro, de encontrar uma solução e um caminho comum.”

O sociólogo chama ainda a atenção para o individualismo: “Também me parece que estamos a aumentar o primeiro compromisso de todos: connosco próprios. Se uma das pessoas não se está a sentir bem na relação e não estão a conseguir fazer a relação evoluir para ambos se sentirem bem, haverá hoje em dia uma maior perspetiva de encontrar outra oportunidade, outra pessoa. Pois apesar de os números sobre 2013 indicarem 70 divórcios por cada 100 casamentos, o divórcio é visto como uma etapa para um novo início.”

As histórias de quem disse o “sim”

Joana e Bernardo namoravam há nove anos quando decidiram “juntar os trapos”. Dois anos depois, “quase por brincadeira” o tema casamento surgiu em conversa. Mas a verdade é que daí até à concretização da ideia foi um pulo. “Para nós o casamento foi algo natural, foi uma vontade que surgiu. Nós já nos sentíamos casados e sempre achamos que um papel não iria fazer a diferença (e não fez), mas este ato era quase que como se fosse uma ‘oficialização’ perante a família e os amigos.”

E foi junto da família e amigos que Joana, de 31 anos, realizou o “sonho de menina”. O casal de Vila Nova de Gaia escolheu fazer “uma grande festa, com direito a tudo, para um grupo restrito de família e amigos próximos”, naquilo que resume como “um dia muito feliz”.

Já Sílvia e Carlos assumem que o casamento foi, antes de mais, um ato de tradição e devoção, apesar de viverem juntos há quatro anos. Natural de Braga, a noiva foi desde sempre educada segundo princípios cristãos: “Na minha família todos casaram: os meus pais, os meus tios, a minha irmã, os meus primos e não faria sentido para mim ser de outra forma. Por outro lado, acredito no valor do casamento propriamente dito: do compromisso que é feito um ao outro, da promessa de que havemos de estar sempre lado a lado ‘na alegria e na tristeza, na saúde e na doença’, todos os dias da nossa vida.”

Sílvia confidencia que o casamento pouco ou nada alterou na relação, servindo apenas como uma “oficialização do laço entre as duas pessoas”. Ainda assim, a jovem de 29 anos conta que a maior parte dos seus amigos já casou ou pretende fazê-lo, explicando que considera que esta ainda é “uma prática comum”.

Joana tenta resumir a perspetiva da sua geração sobre este tema: “Muita gente considera que não é preciso casar e acaba por ir ‘viver junto’. Há aqueles que querem ir contra o sistema e seguir a moda, porque o casamento ainda é visto por algumas pessoas como algo tradicional ou como um ritual ultrapassado. E, por fim, acho que muita gente não casa, mesmo com vontade, porque o casamento é um ‘negócio’ caro.” A jovem termina: “Na minha opinião, a união pelo casamento faz todo o sentido quando há amor e certeza. Mas o importante mesmo é que as pessoas sejam felizes, independentemente da forma como escolhem viver e essa escolha pode não passar pelo casamento.”

Por Joana de Sousa Costa

Artigo anterior

Balmain junta-se à H&M no próximo inverno

Próximo artigo

Raquel Costa: “Uma mulher é uma gaja e também é uma senhora e uma rapariga”