Home»ATUALIDADE»ENTREVISTAS»Gabriela Canavilhas: «A dessacralização da experiencia cultural é essencial para a democratização da cultura»

Gabriela Canavilhas: «A dessacralização da experiencia cultural é essencial para a democratização da cultura»

Nasceu em Angola em 1961. Foi ministra da Cultura no XVIII Governo e é atualmente deputada pelo Partido Socialista. É pianista, com sete álbuns gravados. Desde sempre ligada ao universo da cultura, abraçou agora o papel de embaixadora da exposição “A Divina Comédia De Salvador Dalí”, que está patente no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, até 20 de setembro. Um mote para a nossa conversa.

Pinterest Google+
PUB

Porque se associou a esta exposição, “A Divina Comédia de Salvador Dalí”?

Associei-me a este projeto, porque acredito na divulgação cultural feita com critério, qualidade e rigor e porque valorizo, particularmente, projetos inovadores que quebrem modelos e que procurem outras formas de chegar a novos públicos.

É importante levar a arte às pessoas, como aqui no Colombo, retirando-a dos museus e galerias?

Todas as formas de expandir a experiência do contacto com a arte são bem-vindas. Atualmente, este tipo de mostras de arte é comum em grandes capitais europeias e americanas. A dessacralização da experiencia cultural é essencial para a democratização da cultura.

Um grande centro comercial, como o Centro Colombo, é um espaço de passagem de milhares de pessoas. É, também, um espaço de lazer por excelência, onde uma exposição de arte tem toda a pertinência. Acho que é uma excelente ideia que irá permitir que milhares de pessoas possam usufruir do prazer e da experiência transcendente de conhecer esta obra de Salvador Dalí e, com ela, de perceber melhor os meandros esta obra-prima de Dante Alighieri.

Esta é uma nova tendência, uma espécie de democratização da arte?

Independentemente do investimento público, a participação do investimento privado nas artes foi e será sempre indispensável para consolidar a oferta cultural. Foi assim no tempo de Dante Alighieri e continua a ser no nosso tempo. A responsabilidade social das empresas privadas é tão importante para o equilíbrio da sociedade quanto a obrigação do Estado. O equilíbrio e a parceria permanente entre ambos são a forma mais virtuosa para o financiamento estruturado e permanente das artes.

Como vê a cultura em Portugal? Continua a ser um interesse de elites?

Julgo que aos poucos o interesse se tem vindo a estender a todas as faixas da sociedade. Quando acontece a oportunidade de um contacto com arte, fica a semente do gosto e a necessidade de repetir. Para ser franca, hoje as elites, no sentido socioeconómico, são menos sensíveis à cultura do que a classe média com níveis académicos elevados.

Como tem evoluído o comportamento dos portugueses face à cultura?

Os estudos internacionais são-nos desfavoráveis. Colocam-nos no fim da lista dos países europeus. Mas para quem está no meio cultural há três décadas, como eu, o facto é que se tem assistido a uma evolução significativa, que importa sublinhar – quer nos públicos, i.e., na fruição, quer nos agentes artísticos, ou seja, na produção cultural. Hoje temos públicos diversificados para quase todo o tipo de oferta cultural, e, devo acrescentar, público cada vez mais conhecedor. Também do lado da produção houve um aumento, quer na qualidade, quer na quantidade.

A educação cultural deve começar de pequeno. Acha que deveria haver mais incentivo nas escolas?

Sem dúvida. Do lado da cultura tem sido feito um grande esforço para aproximar as instituições culturais da educação, nomeadamente através dos serviços educativos dos museus, dos teatros, da ópera, etc. Mas, do lado da educação, ainda falta fazer muito mais ao nível do conteúdo dos programas educativos. Todas as crianças deveriam ter acesso a cinco horas semanais de contacto com arte: aulas técnicas, práticas, teóricas, tv de qualidade, leitura, teatro, concertos. Tudo isto supervisionado pelas famílias e validado pela escola como formação.

Foi a última ministra da Cultura. Que repercussões no país teve a extinção deste ministério, e na promoção de iniciativas públicas?

Teve como consequência a desvalorização imediata em 75% do seu orçamento. E a desvalorização politica da sua ação. Mas o mais grave foi o sinal que passou à população portuguesa: a cultura não merece ser tutelada por um ministério. É algo menor, basta um secretário de Estado.

O que acha necessário fazer para promover a cultura em Portugal?

Esta pergunta é todo um programa político! Julgo que este não é o local próprio para a responder. Diria apenas que se deverá retomar uma estratégia de colocação da cultura a par de outras área essenciais da governação do país, dotá-la de meios financeiros suficientes para a sua ação e dar-lhe tempo, autonomia e respeito. Os agentes culturais farão o resto.

A televisão é a maior “educadora” do povo. Como vê a programação na televisão de sinal aberto, que privilegia futebol, programas formatados, em vez de diversidade cultural?

O problema mesmo é que a televisão seja considerada a maior educadora do povo… é sinal de que as famílias estão ausentes, a escola não é a tempo inteiro, como devia ser, em casa das crianças há poucos livros, etc.

A RTP deveria ser tutelada pelo Ministério da Cultura. É a única maneira de a aproximar do seu papel de educadora e de agente cultural das famílias.

Já foi ministra, agora é deputada. Como é ser mulher na política em Portugal?

Não é fácil. É a primeira vez na minha vida pública em que senti que ser mulher não facilitou a minha ação. Na vida política pública, as mulheres são muito mais atacadas. Na vida partidária, mesmo no meu partido, que tem sido o maior defensor da igualdade de género, da introdução das cotas, etc. existe uma dominação masculina. O problema é que entre a legislação e a vida real há um gap: a realidade.

A percentagem de mulheres na política continua a ser muito menor que a dos homens. Que impacto isto tem na sociedade?

Não expressa a vida real.

Pertence enquanto deputada à Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação. Acha os valores se estão a perder em Portugal?

Não pertenço à Comissão de Ética, mas sim à de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e à de Educação e Cultura. Mas quanto à Ética, devo dizer que os valores éticos estão realmente em crise, até no Parlamento, que, no fundo, apenas espelha a sociedade portuguesa. Quando se ataca o parlamento e os deputados, é bom lembrar que estes são eleitos entre os portugueses, emanam da sociedade portuguesa, são parte de um todo…indissociáveis do resto dos portugueses.

Os valores perdem-se quando não se ensinam. Algures, no meio do percurso, foram-se perdendo, não foram ensinados. A culpa é de quem não os ensinou, não de quem não os aprendeu.

É pianista. Costuma tocar?

Sim, mas menos do que gostaria.

Por Sónia Santos Dias

Artigo anterior

Museus no mundo proíbem paus de selfies

Próximo artigo

Porque é que gostamos de quem é parecido connosco?