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Falemos de listas de desejos

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Noite de quarta-feira, dia 30 de dezembro de 2015. O relógio marca 21:30 e estou sentada no sofá com “After Midnight” de J.J. Cale a tocar no gira-discos. Não deixo de notar que é um hábito bem antiquado este de escutar música. Com o fim do lado 1 e a necessidade de virar o disco, abro o computador para escrever a última crónica de 2015. Como em tudo o resto nesta altura do ano, em que cada decisão parece assumir proporções exacerbadas de significância, a ideia de este ser o “derradeiro” texto do ano parece trazer um peso acrescido. Não quero escolher um tópico fora de contexto mas também não me permito cair na banalidade de fazer um resumo dos acontecimentos mais marcantes de 2015.

 

Decido, então, “matar dois coelhos com uma cajadada só” e adiantar a lista de desejos para a noite de amanhã. Tal como no ano passado, à meia-noite de dia 31 vou ignorar os costumes dos convidados da festa a que me juntar e, numa iniciativa solitária, subir a uma cadeira munida de uma mão cheia de uvas passas e 12 desejos.

 

Costumo, como a larga maioria, começar com pedidos mais específicos e pensados, como “aprender holandês de forma mais eficaz” ou “fazer a minha marca crescer e atingir o objetivo de ter cinco lojas até ao final do segundo trimestre do ano”. Com o avançar das badaladas e a boca cheia de uvas meias mastigadas, o cérebro parece não ser capaz de digerir tudo e os desejos caminham para ideias mais generalistas como “ter energia para fazer mais exercício físico”, “viajar mais” e “passar mais tempo de qualidade com as pessoas de quem gosto”. Ao som das últimas badaladas, perco geralmente o senso de contagem e termino com as ideias mais banais: “saúde para mim e para os meus” e “ser feliz”.

 

Deparo-me com duas observações interessantes. A primeira é que, quando formamos desejos ou delineamos objetivos, pedimos sempre mais, nunca menos. Por exemplo, ninguém diz “quero passar menos tempo em frente da televisão e usar o tempo de forma positiva” ou “quero gastar menos dinheiro em coisas de que não preciso e poupar para fazer aquela viagem com que ando a sonhar desde sempre”. Acho que, de forma inconsciente, precisamos alimentar a ideia de que crescemos e evoluímos e a palavra “mais” coaduna-se com esta linha de pensamento.

 

Ainda, e talvez mais importante, noto que deixamos o mais importante para o fim. O “ser feliz” ou “ter saúde” vem no final da lista da maioria. Como se tomássemos a felicidade e a saúde como garantidas e, assim, podemos focar a nossa atenção noutras coisas. A ordem provavelmente inverte-se quando uma destas nos falha.

 

Em retrospetiva, olho para tudo o que 2015 me trouxe e penso que, na verdade, foi a clareza de espírito que traçou o meu caminho. Foi o ter crescido interiormente, o aceitar e gostar mais de ser quem sou, o saber distinguir melhor o que me faz verdadeiramente feliz daquilo que apenas me distrai e o conseguir finalmente dizer não a tudo o que não me traz nada de positivo que me permitiram fazer as escolhas certas ou, pelo menos, aquelas que assumi como melhores para a minha vida.

 

Assim, na verdade para o próximo ano quero apenas continuar a crescer. Tornar-me uma pessoa mais informada, mais sensível, mais útil, mais real, mais produtiva, mais consciente, mais atenta aos meus instintos. Mas também menos vã, menos preocupada, menos rígida, menos preguiçosa, menos gulosa e menos conformada. O meu desejo para 2016 é ser uma versão melhor de mim própria. E fazer mais exercício físico também.

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