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Estamos a medicar os sentimentos das mulheres?

A psiquiatra Julie Holland defende que as mulheres não podem deixar a indústria farmacêutica medicar os seus sentimentos num artigo de opinião para o jornal “The New York Times”

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Num artigo de opinião publicado esta semana no jornal “The New York Times”, a psiquiatra Julie Holland lança o debate sobre o excesso de medicação a que as mulheres estão sujeitas, apenas pelo facto de serem temperamentais, terem sentimentos voláteis e serem mais sensíveis.

A autora começa por dizer que investigações cientificas mostram que as mulheres são mais capazes de expressar os seus sentimentos porque o cérebro feminino reserva mais espaço para a linguagem, memória, audição e observação dos sentimentos alheios. De seguida alerta: “Mas isto tem implicações sociais. A emoção das mulheres é sinal de saúde, não doença; é uma fonte de poder. Mas estamos sob constante pressão para controlar as nossas emoções. Fomos ensinadas a pedir desculpa pelas nossas lágrimas, a suprimir a nossa raiva e a temer sermos chamadas de histéricas”.

A psiquiatra acusa a indústria farmacêutica de usar este medo e abusar da publicidade em televisão e revistas. Como resultado, os números de mulheres americanas que consomem medicação psiquiátrica, como antidepressivos e antipsicóticos, nunca foram tão altos. Uma em cada quatro mulheres está sob medicação regular, em comparação com apenas um em cada sete homens.

Julie Holland explica que muitas mulheres são erradamente medicadas, muitas vezes por médicos de outras especialidades, o que cria uma nova normalidade, em que as mulheres procuram assistência química desnecessariamente. “A nova normalidade medicada vai contra a dinâmica biológica da mulher; os químicos do corpo e cérebro devem estar em fluxo. Para simplificar, pense na seratonina como o químico cerebral que controla a sensação de bem-estar. Se esta estiver muito alta, a mulher não se preocupa com nada; se estiver muito baixa, tudo vai parecer um problema sério.”

Nos dias que antecedem a menstruação, quando a sensibilidade emocional está mais alerta, as mulheres podem estar mais irritáveis e insatisfeitas. “Eu digo às minhas pacientes que os pensamentos e sentimentos que surgem nesta altura são verdadeiros, por isso o melhor é reavaliarem o que sentem durante o resto do mês, quando os níveis de hormonas e neurotransmissores estão mais programados para a mulher se acomodar às necessidades dos outros”:

A especialista explica que a maioria dos antidepressivos aumentam a transmissão de seratonina, o que vai provocar a sensação de que está tudo bem mas podem deixar a mulher adormecida física e emocionalmente. Ou seja, diminui o interesse sexual, a mulher fica mais racional e menos emocional e, em alguns casos, as mulheres ficam menos capazes de sentir coisas como empatia, irritação, tristeza, erotismo, preocupação e expressão de outros sentimentos.

Ainda que admita que em alguns casos a medicação é a única solução, Julie Holland chama a atenção para a confusão entre um problema psicológico e tristeza ou lágrimas: “Choramos quando estamos assustadas ou frustradas, quando vemos injustiças ou quando nos sentimos tocadas. Umas mulheres choram mais facilmente do que outras mas isso não significa que somos fracas ou estamos fora de controlo”.

Para finalizar, a psiquiatra aconselha: “Temos de parar de rotular a tristeza e ansiedade como sintomas desconfortáveis e apreciá-los como saudáveis e parte da nossa biologia adaptável.”

Por Joana de Sousa Costa

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