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Estafetas para antissociais: a proliferação dos robots de entregas autónomos

Os robots de entrega poderão oferecer às marcas uma oportunidade única para melhorar a experiência de entrega e fornecer valor adicional aos clientes.

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No último livro que li (“Naufrágio”, de João Tordo), o protagonista foi, por muito tempo, infoexcluído e desconhecedor da possibilidade de encomendar comida com entrega feita por um estafeta de mota ou bicicleta. As entregas em casa feitas por um estafeta de uma das plataformas da Uber, ou da Glovo, já não nos é estranha. Na verdade, não deve haver um dia em que não vejamos as mochilas amarelas ou verdes de transporte a circular nas mesmas vias que nós.

 

Apesar disso, ainda conseguimos (eu pelo menos) ser surpreendidos com as novas tecnologias de entrega. Nestas férias da Páscoa, cruzei-me, pelos passeios da Universidade do Arizona, com uns robots de entrega em serviço. Na mesma semana ouvi a notícia de que a cidade de Nova Iorque passará a ter robots a policiar a cidade ao serviço do departamento de polícia de Nova Iorque (NYPD).

 

Não é novidade que, após a Covid-19, o consumidor se habituou a recorrer a entregas de comida ou outras compras online, fazendo crescer a chamada “economia sem contacto” e o interesse do consumidor e das marcas por soluções mais automatizadas.

 

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Será que estes robots de entrega se vão tornar uma visão comum nas ruas das cidades?

Estes robots podem entregar refeições, roupa, acessórios ou as compras de supermercado. Pelo que li, há um grande interesse quer de retalhistas quer das empresas de entregas, da Fed Ex à Domino’s, mas também dos correios. É um fenómeno interessante e global (tenho andado a dormir?). Facilmente se percebe que as entregas automatizadas com estes robots têm potencial para levar os bens ao consumidor de uma forma rentável e eficiente para além de descongestionarem os centros das cidades e diminuírem as emissões de gases de efeito de estufa libertadas pelos veículos de entregas o que permite às organizações reduzirem a sua pegada de carbono 😉.

 

Fui sondar como funcionam estes estafetas (para antissociais 😊). Depois de um consumidor fazer uma encomenda, recebe um código através de uma mensagem de texto. Quando o robot de entrega – que viaja à velocidade estonteante de 6 km/h -, chega à porta, o consumidor utiliza o código para abrir um contentor isolado onde está(ão) armazenado(s) o(s) artigo(s) encomendado(s) até um máximo de 9kg. Claro está que, até pelo preço a que está o combustível, estas entregas são muito mais baratas do que as entregas tradicionais por estafeta motorizado (o robot anda a “pé” 🤖) e funcionam bem para entregas em curtas distâncias e para encomendas pequenas.

 

Muito do que já se sabe dos robots de entregas deve-se aos testes pilotos que têm sido realizados, mas será que o consumidor (e as marcas) está pronto para recorrer a este serviço? Como em todas as tecnologias há os “early adopters” que estão sempre prontos a experimentar as novidades e, neste caso, poderão considerar que esta será uma opção mais eficiente e conveniente, comparada com os métodos habituais, uma vez que podem reduzir custos e tempos de entrega. Outros consumidores poderão duvidar da segurança e fiabilidade dos robots, sobretudo se quiserem transportar bens valiosos ou frágeis. Alguns consumidores podem continuar a preferir a interação humana (os antissociais vão adorar esta tecnologia).

 

Parte do sucesso dos robots de entregas (nesta fase do artigo já lhe devia ter dado um nome para facilitar; num artigo da ScienceDirect chama-lhes ADRs – robots de entrega autónomos; convenhamos, há nomes mais bonitos e criativos; o robot aspirador cá de casa é o Yoda 😊) dependerá da forma como irão responder às preocupações dos consumidores e da experiência de utilização (confiança, emoção, sensibilidade ao preço, …) que conseguirem proporcionar, contudo, devem estar cá para ficar já que a McKinsey & Company previu que estes robots farão 85% das entregas até 2025 (isto colocará desafios ao emprego dos estafetas de hoje mas isso seria outro artigo e de outro âmbito).

Claro que existem desafios à utilização desta novidade:

  • Para começar o alcance e duração da bateria – mais uma razão para serem utilizados em locais restritos como zonas urbanas, campus universitários ou zonas de escritórios.
  • Para ser viável comercialmente seria necessária uma frota considerável, com um local de armazenagem onde pudessem carregar baterias e ficar seguros – para além do fato de que se essa frota for libertada nas ruas, em escala, puder vir a causar transtornos como aconteceu quando se introduziram as trotinetes (se não houver legislação adequada).
  • A questão da segurança também será um tema – embora tenham um sistema de alarme e uma câmara para impedir o roubo, haverá sempre a possibilidade de alguém querer levá-los ou destruí-los. E há sempre a possibilidade de hackers tentarem roubar o que está lá dentro ou causar algum dano. Também já há relatos de um robot que se incendiou (sem outros danos para terceiros).
  • No caso da acessibilidade podem ser úteis a levar encomendas a pessoas que não tenham possibilidade de as ir levantar, mas podem também tornar-se um obstáculo nas vias para pessoas com algum tipo de limitação, como os invisuais ou pessoas com baixa mobilidade, por exemplo, já que partilham o mesmo espaço público.
  • Para além de todos estes pontos colocam-se as questões regulatórias e legais, bem como questões éticas, que ainda não existem ou não são claras.

 

Mas o foco não está só no consumidor ou na tecnologia. As marcas terão de conseguir aproveitar esta tecnologia para melhorar a experiência de entrega, a tão falada “extra mile”. E como poderão fazê-lo?

  • Fornecer rastreabilidade em tempo real, para o consumidor acompanhar o progresso da encomenda do início ao fim. Isto reduz a ansiedade sobre a chegada da encomenda e aumenta a transparência do processo de entrega.
  • Oferecer opções de personalização, i.e., as marcas poderão dar a possibilidade por exemplo do consumidor escolher um horário específico de entrega ou uma localização que funcione melhor para ele. As marcas podem também personalizar o serviço, por exemplo, fazendo com que o robot saúde o cliente pelo nome.
  • Promovendo as entregas sem contacto que muitos consumidores passaram a preferir sobretudo depois da pandemia. Alguns clientes podem apreciar a segurança adicional e conveniência de uma opção de entrega sem contacto.
  • Acrescentar serviços adicionais como por exemplo permitir a devolução de itens.

 

Os robots de entrega poderão oferecer às marcas uma oportunidade única para melhorar a experiência de entrega e fornecer valor adicional aos clientes. Ao alavancar a tecnologia eficazmente, as marcas podem diferenciar-se da concorrência e proporcionar uma experiência de entrega mais personalizada, conveniente e segura.

 

Ainda há um caminho a percorrer para que estes estafetas sejam vistos pelas ruas das cidades da mesma forma que vemos as 🚲 ou as 🏍 ou os🚗 ou as 🛴, conduzidos por um humano. O conceito tem potencial, é inegável, mas o seu sucesso está dependente da resposta dos consumidores, da capacidade das cidades para os receberem e das marcas aproveitarem a oportunidade para inovar na sua “extra mile”.

 

Vamos esperar para ver.

 

 

 

 

 

 

 

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