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Epidemia silenciosa: na batalha contra a hepatite C #TodosContam

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que, atualmente, cerca de 1% da população mundial tenha sido infetada pelo vírus da hepatite C (VHC), o que representa cerca de 70 milhões de indivíduos. Sete vezes a população de Portugal. Já em Portugal, embora não existam estatísticas oficiais, calcula-se que 40.000, quase 0,5% da população, possa estar infetada com o vírus.

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A hepatite C é uma inflamação do fígado provocada pelo vírus da hepatite C (VHC) que, quando crónica, pode conduzir à cirrose, insuficiência hepática (fígado a deixar de cumprir as suas funções) e cancro do fígado. Contudo, uma vez que os infetados podem sentir-se saudáveis e não apresentar qualquer sintoma durante mais de 20-30 anos, o número de indivíduos com infeção crónica é de alguns milhões em todo o mundo e, por esse motivo, foi apelidada de epidemia “silenciosa”.

 

Até ao momento, estão identificados seis genótipos diferentes do VHC, sendo que estes ainda se dividem em subtipos, classificados com letras. Ou seja, o vírus sofre mutações existindo vários tipos. O facto de ser possível identificar dois tipos diferentes do vírus VHC numa mesma pessoa, tem dificultado o caminho para uma vacina, entre outros fatores. No nosso país, os mais frequentes são o 1b, responsável por cerca de metade das Hepatites C e o que mais afeta as pessoas que foram contaminadas por meio de uma transfusão sanguínea. Por sua vez, o genótipo 3a é mais comum nos consumidores de drogas intravenosas que, normalmente, são doentes mais jovens. Nos últimos anos, temos também vindo a assistir a um aumento do genótipo 4, que representa já 10 a 12% dos casos.

 

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De qualquer modo, a identificação do tipo de vírus numa pessoa deixou de ser relevante já que os novos medicamentos, que têm eficácia perto dos 100%, são igualmente eficazes para qualquer tipo de vírus.

 

Embora os sintomas nem sempre sejam claros, na fase aguda é normal apresentar-se cansaço, mal-estar geral, febre, perda de apetite, náusea, intolerância ao álcool, dores na zona do fígado ou, raramente, icterícia. Quando a infeção se torna crónica, pode acontecer desenvolver-se cirrose ou cancro do fígado sem qualquer sintoma.

 

Quando se trata de saúde, sabemos que o mais importante é a prevenção e, no caso da hepatite C, este lema também é válido. Usar preservativo em relações sexuais com múltiplos parceiros, desinfetar e tapar as feridas, evitar a partilha de objetos pessoais como escovas de dentes, lâminas de barbear, tesouras e, no caso dos consumidores de drogas, evitar a partilha de seringas e outros instrumentos usados na preparação e consumo de drogas injetáveis e inaláveis, são algumas medidas essenciais no que toca à prevenção e que, com certeza, farão toda a diferença na redução do número de infetados.

 

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A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu como meta o ano de 2030, para que todos os países eliminassem a hepatite C e, na verdade, nunca estivemos tão perto. Contudo, isto vai depender muito de um esforço conjunto e coordenado, entre diferentes atores da esfera médica, científica, política e social. E até da comunicação social.

 

Embora ainda não tenhamos chegado a uma vacina, a ciência já alcançou resultados fantásticos, e atingimos uma percentagem de eliminação vírica de aproximadamente 97% com os tratamentos atualmente existentes. Algo sem paralelo quando nos referimos a infeções víricas, crónicas e oncogénicas, ou seja, com risco de cancro. Tal não se conseguiu em termos de eficácia nos antivíricos com o VIH e a hepatite B. No caso particular de Portugal, é de louvar o acesso universal ao tratamento para todos os doentes infetados pelo vírus da hepatite C, concedido a partir de 2015. Foi um marco e um exemplo para o Mundo.

 

E porque todos contam na batalha contra a hepatite C, é de louvar o papel desempenhado pelas várias instituições que, no terreno, têm desenvolvido um trabalho valioso junto dos grupos de risco, falamos, particularmente, da Ares do Pinhal, Crescer, Vitae, Comunidade Vida e Paz, CASO, GAT, Abraço, Liga Portuguesa Contra a SIDA, Fundação Portuguesa “A Comunidade Contra a SIDA, SOS Hepatites, muitas em colaboração com o SICAD e igualmente os Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. Estamos, portanto, no bom caminho e tenho a certeza de que com a ajuda de todos vamos ganhar esta batalha. Mas temos de testar, basta o anti-VHC.

 

Por Rui Tato Marinho,

Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

 

 

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