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Endometriose: a doença que se esconde atrás das dores consideradas ‘normais’

A propósito do Dia Mundial da Saúde Sexual, que se celebra a 4 de setembro, falamos sobre os sintomas e tratamentos da endometriose com a especialista em Ginecologia e Obstetrícia, Sílvia Roque. Identificada pela primeira vez em 1860, esta doença afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva.

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Segundo a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, esta é uma doença que afeta aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, o equivalente a mais de 176 milhões. Em Portugal, se considerarmos que a endometriose afeta 10% das mulheres em idade fértil, a estimativa é de que existem 350 mil portuguesas que sofrem da doença, no entanto, a maioria ainda não foi diagnosticada.

 

A médica Sílvia Roque explica que «a endometriose é uma doença crónica em que se desenvolve tecido semelhante ao revestimento do útero fora deste. O útero das mulheres é revestido, no interior, por um tecido chamado endométrio. Todos os meses, quando não há gestação, esse tecido descama e é eliminado com o sangue da menstruação. Quando a endometriose existe esse tecido é encontrado noutros órgãos, nomeadamente ovários, ligamentos pélvicos, intestinos, bexiga, apêndice e vagina».

 

Em casos mais raros, o tecido pode ainda ser encontrado em órgãos mais distantes do útero, como no pulmão, na pleura e no sistema nervosa central. Identificada pela primeira vez em 1860, a endometriose continua até hoje a ser um verdadeiro enigma, e apesar de existirem vários estudos nenhum consegue explicar completamente por que motivo surge a doença.

 

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«Os sintomas podem ser vários e com intensidades diferentes. Os principais são: dores intensas durante a menstruação (dismenorreia) e durante as relações sexuais (dispareunia), principalmente na penetração profunda. Em estados mais avançados, apresentam sempre dores podendo condicionar o desempenho da mulher, tanto a nível académico, como profissional, assim como a sua relação com o parceiro. Para além da dor, muitas mulheres referem menstruações abundantes», descreve a ginecologista.

 

A queixa mais comum na endometriose é a dor, que segundo a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose afeta 80% das mulheres. A dismenorreia, mais conhecida como dor menstrual, a dispareunia, dor na relação sexual, que poderá ser muito intensa em casos de endometriose retovaginal, a disquesia, dor ao evacuar, que pode ser um sinal de endometriose gastrointestinal e a disúria, dor ao urinar, que pode significar que a doença está presente no trato urinário.

 

Para além destes tipos de dor, existem outros como dor umbilical, dor abdominal, dor inguinal, dor torácica e ainda hemorragias, menorragias e infertilidade. No caso deste último sintoma, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva afirma que 50% das mulheres inférteis têm endometriose e que 30% a 50% das doentes com endometriose são inférteis.

 

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Segundo a ginecologista Sílvia Roque, o diagnóstico da endometriose é muitas vezes tardio, «normalmente porque os sintomas principais, como as dores menstruais, são desvalorizados pelas próprias mulheres, que os acham normais, por exemplo por as  mães também as terem tido e não terem feito qualquer terapêutica».

 

O primeiro passo a dar por quem sente algum destes sintomas, que inclusive afetam seriamente o seu quotidiano, é procurar um médico especialista em ginecologia. «Após uma história clínica e exame médico pode pôr a hipótese diagnóstica de endometriose. Após um exame ginecológico, segue-se uma ecografia pélvica que se não apresentar endometriomas (quistos dos ovários de endometriose), pode ser aparentemente normal. Se a ecografia pélvica não for conclusiva, ou se houver suspeita a ressonância magnética pélvica pode fazer um diagnóstico ainda mais preciso».

 

Após o diagnóstico existem alguns tratamentos possíveis. A maioria consiste em terapias analgésicas, hormonais e cirurgias, que têm como objetivo aliviar a gravidade dos sintomas e consequentemente melhorar a qualidade de vida das mulheres que deles padecem.

 

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«Um tratamento precoce e eficaz pode prevenir sequelas tardias e melhorar a qualidade de vida da mulher. Geralmente inicia-se por pilula contracetiva, estrogénios e progesterona (dienogest), muitas vezes de forma contínua. No caso das mulheres que tenham contraindicação para os estrogénios, dá-se apenas o dienogest (em comprimidos) de forma contínua», explica a médica.

 

Já em casos mais graves e que não melhorem através destes métodos, pode ser necessária a terapêutica cirúrgica, como a laparoscopia, considerada o meio cirúrgico mais eficaz para o tratamento da endometriose, pois permite uma melhor visualização da doença, uma cirurgia mais minuciosa, menor risco de dor no pós-operatório e menor tempo de recuperação. Estes tratamentos devem sempre ser aliados a outras especialidades como a nutrição, a fisioterapia pélvica e a psicologia.

 

O mais importante a reter é que a dor nem sempre é uma consequência própria da menstruação e que esse pode ser o primeiro sintoma a indicar de que algo não está bem. Desmitificar a presença de dores menstruais e dores durante a relação sexual é importante para um diagnóstico precoce e muitas vezes para conseguir devolver qualidade de vida à mulher.

 

 

 

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