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Emigrante ou expatriada?

A terminologia usada para definir a nova geração que muda de país é representativa da mudança de mentalidade quanto à emigração

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Há um ano atrás deixei Portugal e mudei-me para a Holanda. Moveu-me uma história de amor e a vontade de viver uma aventura. O facto de ambos os países pertencerem à União Europeia facilitou a transição em termos burocráticos, além do conforto de manter o meu trabalho como jornalista, que passei a cumprir remotamente.

 

Mas foi quando me dirigi a uma instituição oficial que me debati com a terminologia correta para definir a minha migração. «Um expatriado é um estrangeiro que vive e trabalha noutro país que não o seu», leio no gabinete de apoio aos expatriados em Roterdão. A estes expatriados são oferecidas todas as condições para uma transição tranquila: formações sobre o sistema de saúde nacional e sobre os impostos; um curso de língua holandesa e o apoio de um gabinete especializado para o esclarecimento de qualquer dúvida. E tudo isto acompanhado de chá, café e stroopwaffels, as típicas bolachas holandesas. Uma imagem muito distante da que guardamos das histórias de emigração.

 

O dicionário diz que expatriado é aquele «que está fora da pátria», que foi «desterrado ou exilado». O mesmo livro define emigrante como aquele «que sai voluntariamente do local onde vive para se estabelecer noutro». Assim, de acordo com o dicionário, o expatriado sai da sua pátria por imposição do poder, enquanto o emigrante tem poder de decisão.

 

Posto isto, a utilização do conceito expatriado para definir emigrantes qualificados, muitas vezes colocados em projetos internacionais pelas suas empresas, não parece fazer sentido. Alguns defendem até que a palavra esconde uma diferenciação preconceituosa para criar distância entre os emigrantes com diferentes níveis de formação profissional.

 

Mawuna Remarque Koutonin, ativista social de origem africana, escreveu em março deste ano um pertinente artigo para o jornal “The Guardian”, com o título «Porque são os brancos expatriados e o resto de nós emigrantes?». A jornalista diz que expatriado é um termo hierárquico no léxico da migração humana e destaca o seu conteúdo elitista e etnocêntrico.

 

A memória coletiva da experiência da emigração, que não raras vezes guarda histórias de sobrevivência, sacrifício, falta de poder monetário e incapacidade de adaptação na nova sociedade, leva a um esforço para apagar esta ideia negativa que se reflete na mudança da terminologia.

 

Batalhas de palavras à parte, quando me perguntam se sou expatriada só tenho uma resposta: «Sou portuguesa, mas atualmente vivo na Holanda.» E é a partir daqui que, a cada duas semanas, vos darei conta das minhas aventuras. Tot ziens…ou até breve!

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