Home»ATUALIDADE»ESPECIALISTAS»É possível trair em pensamento?

É possível trair em pensamento?

Pinterest Google+

O dever moral de ser boa pessoa é algo que assombra muita gente. Podemos assumir que uma parte considerável das pessoas tenta ser responsável e íntegra, mas hoje quero falar dos casos em que se sofre constantemente para atingir esse objetivo, das pessoas que vivem numa nuvem de proibições com muito medo de fazer o que não devem, impedidas de pensar sobre os seus desejos e sem conseguir encontrar uma forma saudável de os viver.

 

Deparo-me frequentemente com pessoas, em relações monogâmicas e estáveis, que vivem agoniadas porque sentiram atração por alguém que não o parceiro atual. O sentimento de culpa é tão grande que vivem a fantasia como se fosse uma materialização do desejo.

 

Os bons costumes da sociedade portuguesa estão marcados por uma cultura de crime e castigo, pecado e punição, que foram criados com base, entre outros fatores, numa interpretação intolerante de princípios religiosos, reforçados durante os recentes anos de ditadura em que abundavam as restrições à liberdade de expressão corporal, de pensamento e de movimentos. O exagero da regra proíbe comportamentos, culpabiliza o pensamento, castra o desejo, deforma a personalidade, e daí não vem benefício algum. É importante, por isso, percebermos o que leva as pessoas a fantasiar.

 

A razão mais elementar está na nossa biologia, somos seres de desejos e seria contranatura assumir que estes são possíveis de bloquear. A mente está constantemente (mesmo quando se dorme!) a produzir imagens que resultam dos estímulos do quotidiano e portanto é natural que, mesmo que não se ande ativamente à procura de ser indecente, haja situações e desconhecidos que provoquem a imaginação! Não só não nos devemos ocupar em tentar impedir que surjam desejos, como é saudável que eles surjam!

 

Convém reforçar que fantasiar e concretizar a fantasia são elementos diferentes! Ao passar na rua por alguém com um aspeto interessante, ver um filme, ou ouvir as conversas destravadas de uma amiga, é impossível não fantasiar; até quando se vive em reclusão monástica a mente tem recursos suficientes sobreviver isolada! Também a (in)satisfação na relação pode levar-nos a tentar escapar por via da fantasia, enquanto nos distraímos a idealizar outra relação e os problemas atuais parecem mais distantes.

 

A imaginação é uma ferramenta do pensamento, uma espécie de tubo de ensaio que faz a mediação entre o desejo e a ação. Fantasiar permite explorar as várias circunstâncias da vida que alimentam determinado desejo e a medida em que pode ser posto em prática. Lembre-se disto da próxima vez que a sua imaginação se manifestar. Dê-lhe espaço e aproveite para considerar até que ponto pode ser interessante partilhá-la com o seu parceiro.

Artigo anterior

Caitlyn Jenner dá conferências motivacionais a mulheres

Próximo artigo

Fátima Lopes propõe coleção simples e sofisticada