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Dizer adeus nunca foi tão difícil

Cada pessoa vive de diferente forma o luto, mediante as culturas, o meio em que está inserida e o próprio contexto da perda. No entanto, considera-se que vivenciá-lo de forma natural é ultrapassar o processo de luto através da realização de diversas tarefas, distribuídas ao longo de um continuum de tempo.

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Falar de morte ainda é difícil para a maioria das pessoas e o assunto é tratado como tabu na nossa sociedade. O fim da vida, de um modo geral, a todos traz medo, ansiedade e, consequentemente, dificuldade de encará-lo.

 

Cada pessoa vive de diferente forma o “luto”, mediante as culturas, o meio em que está inserida e o próprio contexto da perda. No entanto, considera-se que vivenciá-lo de forma natural é ultrapassar o processo de luto através da realização de diversas tarefas, distribuídas ao longo de um continuum de tempo.

 

Numa primeira fase o sujeito experiência sentimentos de choque, descrença e negação, a fase seguinte é marcada por um período de desconforto somático e emocional, assim como pela retirada social, e por fim, numa última fase, existe um período de reconstituição. Se estas fases não são vivenciadas e ultrapassadas num determinado período, muitas vezes, poder-se-á estar na presença de um luto não adaptativo. A ajudar que o processo de luto decorra de forma natural e tranquila é todo o ritual que lhe está associado, desde ao velório até ao funeral propriamente dito.

 

No atual cenário que vivemos, em que funerais estão a ser condicionados por causa do surto de coronavírus, são agora mais curtos, sem missa, e limitados a um número de pessoas, avizinham-se algumas dificuldades emocionais, tendo impacto direto na forma como vai ser vivenciado o processo de luto.

 

Segundo as normas da autoridade de saúde, o cadáver não deve estar vestido e deve ser colocado num saco impermeável, “preferencialmente dupla embalagem”. O corpo é depois colocado num caixão fechado que não deverá voltar a ser aberto. “De preferência”, “deve optar-se pela cremação, “embora não seja obrigatório fazê-lo”.  Estas “orientações” embora não sendo diretivas mexem de forma direta com as crenças de cada pessoa, sejam elas culturais, familiares ou religiosas.

 

O funeral é o espaço legítimo para a despedida de um ente querido, onde o choro e a dor são permitidos e contribuem para a concretização da perda. Durante o funeral a dor é experimentada de forma coletiva, a presença de amigos e familiares ajudam a aliviar o sofrimento e aquecer a alma. Tão importante quanto demonstrar o sentimento pelo ente querido/amigo falecido é mostrar empatia por quem ficou e está a viver um momento de luto. Portanto, o funeral faz parte do processo de entendimento da perda. Oficializa a realidade da perda e auxilia na elaboração do luto de quem ficou.

 

As restrições aos funerais têm como consequência limitar o processo de homenagem, os familiares não podem ver o ente querido pela última vez, não podem escolher a roupa com a qual gostariam que fossem enterrados.  Não nos podemos esquecer que é no velório e no funeral que se verá pela última vez o corpo do ente querido e talvez a derradeira oportunidade de expressar publicamente o respeito e o amor que tínhamos por ele. Quando tal não ocorre é como se não existisse despedida, “morto”, dificultando assim todo o processo de luto. Relembrar e celebrar quem partiu ajuda a enfrentar a saudade, guardando o melhor no nosso coração.

 

A inexistência deste ritual deixa nos familiares, uma sensação de vazio, que impede a pessoa de superar a morte e prosseguir a sua vida. O verdadeiro desafio agora é encontrar forma de efetuar a homenagem e criar um novo ritual que cumpra estas mesmas funções e respeite os princípios da saúde pública.

 

Dizer adeus nunca foi tão difícil!

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