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Discurso de ódio: a desumanização do outro

O ambiente digital facilita a formação de bolhas de pensamento, onde preconceitos e ódios são continuamente reforçados

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O fenómeno do discurso de ódio tem-se tornado cada vez mais visível com a ascensão das redes sociais. Este ambiente digital, que inicialmente prometia conectar pessoas e promover a troca de ideias, também criou um terreno fértil para a disseminação de mensagens de ódio e intolerância.

 

Apesar das inúmeras vantagens da Internet, ela também expõe o lado mais negro e primitivo dos indivíduos. Assim, o discurso de ódio banaliza-se nas redes sociais, como se o indivíduo tivesse “liberdade para odiar”.

 

Mas onde começa e acaba o discurso de ódio? A complexidade deste fenómeno requer uma análise cuidadosa e a implementação de medidas eficazes tanto por parte das instituições como dos indivíduos.

 

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O ambiente digital facilita a formação de bolhas de pensamento, onde preconceitos e ódios são continuamente reforçados, criando um ciclo vicioso de desinformação e extremismo. Além disso, os algoritmos das redes sociais frequentemente priorizam conteúdos polarizadores e emocionais, amplificando ainda mais o alcance do discurso de ódio.

 

Psicologicamente, a sensação de anonimato nas redes sociais permite que os indivíduos se expressem de formas que não seriam aceites em contextos presenciais. Este comportamento é frequentemente exacerbado por crises socioeconómicas, que aumentam a insegurança e o medo. Em tempos de crise, as diferenças são frequentemente percebidas como ameaças, levando à desumanização do outro e à propagação do ódio.

 

O papel da evolução

Em termos filogenéticos, sabemos que existe uma dimensão primitiva e estrutural ao fenómeno de rejeição do outro. A rejeição e desumanização do outro, simplesmente porque pensa ou é diferente, é um fenómeno que pode ser traçado até as nossas origens mais primitivas. Nos tempos ancestrais, a sobrevivência dependia da coesão e da solidariedade dentro de pequenos grupos ou tribos.

 

Estes grupos frequentemente enfrentavam ameaças de tribos rivais, e a defesa do território e dos recursos era uma questão de vida ou morte. A evolução favoreceu aqueles que eram capazes de identificar rapidamente e reagir de forma defensiva a qualquer ameaça externa. Assim, a desconfiança e a hostilidade relativamente aos desconhecidos ou diferentes tornou-se uma característica adaptativa.

 

Olhando para as recentes crises contemporâneas, como a pandemia de COVID-19, conflitos armados e crises económicas, naturalmente intensificaram estes sentimentos primitivos. O medo pela saúde, a insegurança económica e social, e os fluxos migratórios também exacerbaram a hostilidade e xenofobia em muitos países, secundada por políticos populistas e os média têm, em muitos casos, agravado esta situação ao promover narrativas de medo e divisão.

Como combater

Para combater este fenómeno, é essencial uma abordagem multifacetada. Ensinar desde cedo a valorizar a diversidade e a desenvolver empatia é crucial. Programas educacionais que promovam a inclusão e a tolerância podem ajudar a construir uma base sólida para uma sociedade mais justa. Programas de intervenção cognitivo-comportamental e terapias psicanalíticas podem ajudar os indivíduos a explorar e resolver conflitos internos que levam ao ódio.

 

Implementar políticas que promovam a inclusão e a equidade é essencial. Isso inclui garantir que as minorias tenham acesso igualitário a oportunidades e recursos. As plataformas digitais devem ser responsabilizadas pelo conteúdo que permitem e disseminam. Estabelecer diretrizes claras contra o discurso de ódio e monitorizar ativamente o cumprimento dessas políticas é fundamental. Os Media têm um papel crucial na promoção de narrativas positivas sobre a diversidade e na conscientização sobre os efeitos prejudiciais do discurso de ódio.

 

Para concluir, sabemos que aumento do discurso de ódio nas redes sociais é um fenómeno complexo que reflete a interação entre fatores psicológicos, socioeconómicos e evolutivos.

 

Combater este fenómeno exige uma abordagem integrada que envolva educação, intervenção terapêutica, políticas públicas inclusivas e a responsabilização das plataformas digitais. Só assim podemos construir uma sociedade onde a diferença é valorizada e o respeito mútuo prevalece.

 

Por Alberto Lopes 

Neuropsicólogo / hipnoterapeuta

 

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