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Dia Mundial do Cancro do Pâncreas: ‘E como está o meu pâncreas Sr. Doutor?’

O cancro do pâncreas ocupa o 3º lugar do pódio da mortalidade por doença oncológica na Europa, logo depois do cancro do pulmão e do cólon, além de ser o 3º cancro digestivo mais frequente em Portugal. É gerador de ansiedade e medo.

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Deitado sobre a maca, revelando ainda alguma tensão no corpo aparentemente relaxado, o doente vai sentindo o desvendar de todas as suas dúvidas no suave deslizar da sonda percorrendo cada cm2 da superfície do seu abdómen, e a medo, com a voz embargada no receio de resposta, enche-se de coragem e lança a pergunta: ‘O meu pâncreas Sr. Doutor? Como está o meu pâncreas?’

 

Para o médico que executa ecografia digestiva, habituado a tranquilizar sobre a boa saúde do fígado, a ausência de cálculos na vesicula, ou a imagem que reflete um intestino feliz, é frequente sentir a angústia de todas as dúvidas sobre “O MEU PÂNCREAS…”. Porque o pâncreas, que poucos sabem o que é ou onde fica, traz-nos recordações de o ouvir comentado nos meios de comunicação social, no jantar de família ou na conversa de café, quase sempre pelas piores razões, quase sempre como responsável de más notícias.

 

As referências de figuras públicas como António Feio, Steve Jobs, Patrick Swayze, Luciano Pavarotti ou Aretha Franklin…entre tantos outros que se despediram de nós vitimas de cancro de pâncreas comprovam a inevitabilidade desta doença maligna, a incapacidade de inverter a história natural ou a impossibilidade de contornar o prognóstico sombrio de que ela se reveste.

 

O pâncreas é a maior glândula do corpo humano, com a forma de uma virgula deitada, pesa cerca de 90g, mede 15 a 20cm, e está atrás do estômago numa localização muito posterior no abdómen superior. É como que, se envergonhado, se escondesse lá atrás, envolto na cortina da sua timidez. É assim, que o pâncreas vive… e é assim que ele adoece, quase sempre “sem incomodar” … em silêncio!… sem dar sinal, sem dar sintomas, sem queixas… até estar francamente doente.

 

Os factos da doença…          

O cancro do pâncreas ocupa o 3º lugar do pódio da mortalidade por doença oncológica na Europa, logo depois do cancro do pulmão e do cólon, além de ser o 3º cancro digestivo mais frequente em Portugal. A incidência e a mortalidade por cancro do pâncreas estão certamente relacionadas com o envelhecimento da população, sendo a idade média ao diagnóstico de 70 anos, com maior prevalência no sexo masculino.

 

Apesar da etiologia do cancro do pâncreas ser complexa e multifatorial, há a considerar, o tabaco, o álcool, a história familiar, a obesidade e a diabetes mellitus de novo como fatores decisivos. Cerca de 2/3 dos fatores de risco para esta patologia são fatores ambientais potencialmente modificáveis, pelo que estará, presumivelmente, ao alcance de cada um interromper esse caminho. Os fatores genéticos são responsáveis por menos de 10% dos casos.

 

Os sinais e sintomas do cancro do pâncreas são habitualmente, além de tardios, muito pouco específicos, devendo salientar-se o cansaço, perda de peso, perda de apetite, dor abdominal, pele de cor amarelada ou comichão generalizada no corpo. A diabetes de aparecimento recente é outro sinal associado ao cancro do pâncreas.

 

A primeira modalidade de imagem utilizada no diagnóstico do cancro do pâncreas é, frequentemente, a avaliação ecográfica. Nomeadamente pelo facto de ser uma abordagem muito disponível, sem complicações ou riscos, pouco dispendiosa que quase sempre está indicada no estudo do doente que surge com dor abdominal ou pele de cor amarelada. A tomografia computorizada é o exame mais utilizado no diagnóstico de cancro do pâncreas pela sua elevada acuidade diagnóstica. Na sequência da investigação, poderá realizar ressonância magnética que permite definir melhor a localização do tumor e a sua relação com estruturas vizinhas, mas quase sempre é necessária a realização de punção da massa para confirmação do diagnóstico e perceber que tipo de tumor se trata. A ecoendoscopia permite a realização de punção bem como detectar lesões pancreáticas de dimensões mais reduzidas, situação em que os outros métodos têm menor acuidade.

 

A maioria dos doentes com cancro do pâncreas em estádio inicial é assintomática, sendo o diagnóstico feito já em estádios avançados da doença, com importantes implicações terapêuticas, comprometendo fortemente o prognóstico. Cerca de 80% apresenta-se ao diagnóstico com doença localmente avançada (30%) ou metastizada (50%) sendo que apenas uma minoria é elegível para tratamento cirúrgico curativo. A deteção da doença em fase inicial, está associada ao aumento da sobrevida dos doentes, reforçando a importância do diagnóstico precoce. Atualmente, o rastreio populacional é impraticável devido à inexistência de um teste de rastreio adequado. Vários estudos indicam que o tempo entre a mutação inicial no pâncreas e o desenvolvimento de metástases pode ultrapassar 20 anos, possibilitando assim uma janela de oportunidade muito ampla para o diagnóstico precoce e identificação de lesões pré-malignas.

 

O ideal seria dispormos de um biomarcador detetado na corrente sanguínea que permitisse suspeitar a doença num estádio muito precoce, e que permitisse o rastreio quer na população em geral, quer na população de elevado risco. Aguardamos, com expectativa de que esteja para breve, a validação desse biomarcador que teria certamente um impacto brutal da redução da mortalidade associada ao cancro do pâncreas.

 

A luz ao fundo do túnel… podemos acreditar num futuro promissor?

O cancro do pâncreas tem sido encarado como um cancro raro, no entanto, verifica-se uma incidência crescente, constituindo, cada vez mais, uma causa frequente de mortalidade por cancro em todo o Mundo.

 

É, pois, urgente reforçar e incentivar a investigação neste campo, de forma a conhecer melhor a patologia e a desenvolver terapêuticas locais e sistémicas mais eficazes. O único tratamento curativo é a cirurgia, e apesar de apenas 20% dos doentes serem potencialmente operáveis à data do diagnóstico, existe uma grande percentagem de doentes em que é possível iniciar tratamento neoadjuvante com quimioterapia que pode permitir reduzir a dimensão do tumor, resultando em ressecções mais bem-sucedidas. Mesmo no campo da quimioterapia paliativa, tem havido avanços promissores na identificação de marcadores moleculares de cada tipo de cancro que permitem um tratamento mais personalizado e dirigido em cada caso que vai traduzir-se numa maior eficácia e aumento da sobrevida.

 

Sendo um tumor com alto grau de agressividade, é fundamental o desenvolvimento de uma estratégia de prevenção adequada e eficaz – faltam, no entanto, algumas coordenadas no mapa de orientação que virão permitir alterar a estatística deste tumor. Estamos convencidos de que vamos na direção certa, e isso, já por si, é um avanço considerável e traz-nos a esperança num futuro menos sombrio! Os resultados estatísticos deste tumor têm que mudar!

 

Precisamos unir forças para aumentar o ritmo em que melhoramos as nossas respostas ao cancro do pâncreas. Todos temos o nosso papel a desempenhar na reversão do status negligenciado do cancro do pâncreas e na melhoria da vida dos nossos doentes!

 

O cancro do pâncreas na pandemia

A pandemia COVID-19 veio agravar ainda mais este cenário já por si preocupante. Com o receio de recorrer aos cuidados de saúde, muitos foram os doentes que se guardaram em casa, negligenciando sinais e sintomas que surgem de forma insidiosa e, tantas vezes, tardia. O difícil ou mesmo inexistente acesso a meios complementares de diagnóstico durante vários meses, impediu que, mesmo aqueles que seriam detetados a tempo e potencialmente curáveis, se tivessem mantido esquecidos em listas de espera intermináveis, adensando “sem saber” a imensa população de doentes não covid!  Cirurgias canceladas, tratamentos adiados e prognósticos inevitavelmente mais sombrios. O cancro do pâncreas é, na verdade, um tumor muito silencioso, mas não podemos deixar que até a pandemia o silencie ainda mais!

 

Por Ana Caldeira

Presidente do Clube Português do Pâncreas da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

 

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