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Descobrir a homossexualidade

«Sair do armário exigiu uma luta com todo o paleio social de ser uma mulher menor ou de ser um homem menor. Sapatona, fufa, sapa… A ignorância tinha o poder de fazer o mal. A travessia foi solitária e com algumas angústias». Conheça a história desta mulher.

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Tinha 17 anos e nunca beijara uma rapariga. Elas passavam por mim como as cerejas do Fundão. Redondas e vivas, saltitando para um jogo de berlindes do qual eu não fazia parte.

 

Os colegas de curso, com quem saía, apostavam a insónia toda no Jamaica. Eu raspava os ténis nas paredes, queimava cigarros, e desejava ver outras miúdas. Então vi a Eulália, uma morena carnuda. O seu asserto compensava o meu metro e cinquenta e um. A Eulália era um pouco masculina. Masculina como eu gostava.

 

Aproximei-me. Meti conversa. O tempo, a cerveja, a animação da rua. Antes que a Eulália me mandasse embora para não perder clientela, disse-lhe que pagava a nossa conversa. Foi comigo ao multibanco. Era o meu primeiro cartão de multibanco, por isso, manuseava-o com alguma exuberância ao colocá-lo na ranhura da maquineta. A Eulália também parecia entusiasmada com isso, espreitava-me por cima do ombro como que a cobiçar o engenho. A Eulália caminhava tão próxima de mim! Cada matraquear dos seus tamancos excitava-me. Foi a primeira vez que não desejei trocar o Jamaica pelo Trumps.

 

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O Trumps era a liberdade que eu não tinha ainda conquistado. Eu era tímida, fazia a viagem de autocarro de Marvila ao Cais do Sodré sem levantar os olhos. Quando tocava as raparigas no corredor parecia desfazer-me, tinha por algumas afetos que desconhecia e gostava de descobrir. Quando o Jardim do Éden me veio parar às mãos, mais achei que o meu mundo era o da fantasia.  Naquela altura, a homossexualidade era coisa de artistas e dos Estados Unidos.  Apesar de ter saído dos Diagnósticos da Psiquiatria em 1972, em Portugal havia ainda o eco do que foram os internamentos na Mitra para muitos homossexuais, o amor e o desejo serviam a procriação, Deus o sustento de uma família ideal de dois sexos.  Desconheciam-se associações LGBTs, nas revistas a sexualidade não era assunto, a identificação com similares era feita por abstrações e por acasos que tinham a sorte de acontecer.

 

Sair do armário exigiu uma luta com todo o paleio social de ser uma mulher menor ou de ser um homem menor. Sapatona, fufa, sapa… A ignorância tinha o poder de fazer o mal. A travessia foi solitária e com algumas angústias. Talvez tenha sido a determinação da Eulália que me levou a fazer a rua com ela até ao jardim sem me sentir a abécula do regabofe dos bares.

 

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Deitámo-nos na relva. Meteu-se comigo, fez-me cócegas, e não fosse ter o cartão multibanco no bolso do peito do casaco de ganga, e tinha-a sentido raspar as mãos na minha mama direita. Deu-me um beijo. Se não estivesse deitada contava com dentes os fios da erva. Para disfarçar o meu arrebatamento, disse as mais variadas parvoíces, falei das estrelas, do rio Tejo, da vida difícil no secundário. Adormecemos de mãos dadas.

 

A madrugada rompeu com o farolim e as bocas dos taxistas. A Eulália zarpou para o outro lado da rua. Não disse adeus, nem olhou para trás. Levantei-me e apeei-me na paragem do autocarro em direção a casa. Tinha sido o meu primeiro beijo. A primeira vez também que cancelei um cartão de multibanco.

 

(Crónica baseada numa história verídica)

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