Decifrado genoma do grande tubarão branco e contou com participação portuguesa
O grande tubarão branco é uma das criaturas marinhas mais fascinantes do nosso planeta. Este tubarão possui características notáveis, incluindo o seu enorme tamanho e a capacidade de mergulhar a mais de mil metros de profundidade. Entender a biologia deste sobrevivente pode trazer benefícios aos humanos, uma vez que o genoma mostra sequencias adaptativas para curar grandes feridas e genes ligados à proteção contra o cancro. Falámos com o investigador português envolvido.
Uma equipa de pesquisa internacional liderada por cientistas do Centro de Pesquisas do Tubarão da Universidade Nova Southeastern, do Instituto de Pesquisa Guy Harvey, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell e do Aquário Monterey Bay, EUA, e que contou com investigadores da Universidade do Porto e do Centro Teodosius Dobzhansky, Rússia, completou o genoma do tubarão branco e comparou-o aos genomas de uma variedade de outros vertebrados, incluindo o do gigante tubarão-baleia e o dos humanos.
A decodificação do genoma do tubarão branco revelou não apenas o seu enorme tamanho, mas também uma infinidade de mudanças genéticas que podem estar por trás do sucesso evolutivo destes tubarões de corpo grande e vida longa que prosperam nos nossos mares há mais de 500 milhões de anos.
VEJA TAMBÉM: SAIBA O QUE OS OCEANOS REPRESENTAM PARA A VIDA NA TERRA
Neste consórcio de investigadores internacionais participou também o geneticista Agostinho Antunes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e coordenador do Grupo de Genómica Evolutiva e Bioinformática do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto, que esteve envolvido neste avanço científico importante para descodificar o genoma deste icónico predador e entender a biologia dos tubarões em geral.
Em declarações à MOOD, este investigador refere que «deste considerável avanço científico destaca-se o desafio de sequenciar e anotar um genoma de grandes dimensões. Foram anotados 24520 genes e o genoma do grande tubarão branco possui 4,63 Giga pares de bases (Gpb), consideravelmente maior que o genoma humano com apenas 3 Gpb».
VEJA TAMBÉM: DO AÇÚCAR AO ALCALINO: MITOS DESMISTIFICADOS SOBRE CANCRO
A verificação de sequências adaptativas para curar grandes feridas e genes ligados à proteção contra o cancro é outra grande meta, uma vez que pode vir a beneficiar os humanos de alguma forma, nomeadamente na luta contra o cancro: «Os dados revelaram no tubarão branco o enriquecimento do conteúdo génico relacionado com a estabilidade do genoma (ADN), o que parece dar ênfase a uma pressão seletiva combinada do grande tamanho do genoma, alto conteúdo de repetição, alta representação de retrotransposões, grande tamanho corporal e longo tempo de vida (o tubarão branco pode atingir 73 anos de vida e os dados foram também comparados com o genoma do tubarão baleia, que pode alcançar os 140 anos). Essas mutações adaptativas foram encontradas em genes intimamente ligados à reparação do ADN, à resposta ao dano no ADN e à tolerância ao dano no ADN, entre outros genes. O fenómeno oposto, a instabilidade do genoma, que resulta de danos acumulados no ADN, é bem conhecido por predispor os seres humanos a numerosos cancros e doenças relacionadas com o envelhecimento. A adaptação molecular para a cicatrização de feridas também foi evidente, com seleção positiva em genes-chave envolvidos no processo de cicatrização», explica.
O envolvimento do investigador português neste trabalho foi para decifrar ao nível molecular os genes envolvidos nas adaptações «fantásticas» do grande tubarão branco, nomeadamente na estabilidade genómica do ADN (altamente importante para a longevidade e doenças como o cancro) e no processo de cicatrização.